MUCHISUJONA NOROI—1 CAPITULO 1 VOLUME:O COMEÇO DE UMA ANARQUIA vento soprava frio entre os prédios da cidade, mas Kulmi não parecia se importar. Com seus 1,60 de altura, ele caminhava tranquilamente pelas calçadas cinzentas. O que realmente chamava a atenção em sua figura eram os longos cabelos amarelos que balançavam a cada passo e suas íris amarelas e expressivas. Ele vestia uma combinação simples: uma camisa branca comum e uma calça preta.
Enquanto andava, seus olhos pousaram em uma figura caída no chão, encostada na parede de um beco. Era um mendigo. O homem tinha uma barba preta longa, usava um manto marrom gasto e dava para ver um trapo por debaixo do manto. Quando o homem ergueu a cabeça, Kulmi notou que ele possuía íris vermelhas intensas.
Mostrando-se alguém calmo e genuinamente gentil, Kulmi se aproximou, parou na frente do homem e perguntou:
— Você quer alguma ajuda?
O mendigo encarou o jovem e, de repente, soltou uma risada seca. A voz dele saiu arrastada:
— Eu preciso da sua ajuda para algo, Kulmi...
Kulmi franziu a testa, surpreso pelo desconhecido saber seu nome. O mendigo continuou:
— Conhecendo você, sei que irá me tachar de louco por não acreditar em viagem no tempo... mas eu sou você do futuro.
Os olhos de Kulmi se arregalaram em choque. Ele deu um passo para trás, analisando o homem de cima a baixo.
— Não é possível que esse seja eu do futuro! — rebateu Kulmi, incrédulo. — Afinal, eu prometi para mim mesmo que manteria o meu cabelo amarelo. E eu também não tenho íris vermelhas!
O Kulmi do futuro deu um leve sorriso de canto, como se já soubesse o que o seu "eu" mais jovem diria.
— Eu já esperava por isso... — disse o velho. Ele enfiou a mão por baixo do manto e puxou um livro de capa marrom. No centro da capa, havia um símbolo de um quadrado com uma linha vertical no meio. — Eu quero a sua ajuda para conseguir completar o que eu falhei. É só você apertar a minha mão agora.
Kulmi hesitou por um segundo, olhando para o livro misterioso e para a mão estendida do homem. Guiado por um impulso que nem ele mesmo sabia explicar, Kulmi estendeu o braço e apertou a mão do Kulmi do futuro.
No mesmo instante, o ar ao redor deles vibrou. O livro de capa marrom começou a se desintegrar em partículas de luz, e o corpo do Kulmi do futuro começou a sumir junto.
— O que está acontecendo?! — perguntou Kulmi, entrando em pânico ao ver os próprios dedos também começarem a brilhar e desaparecer.
O Kulmi do futuro, mantendo o olhar fixo nele, respondeu calmamente antes de sumir de vez:
— Não se preocupe... afinal, isso é só você viajando para o passado.
Kulmi sentiu a realidade se distorcer. Em meio ao redemoinho de luz e poeira mágica, ele percebeu algo que mudou tudo em sua mente: o mundo tinha magia antes. Antes que pudesse processar o choque, Kulmi sumiu por completo do beco daquela cidade.
Kulmi abriu os olhos abruptamente. A primeira coisa que percebeu foi que não tinha mudado nada em seu corpo, ainda tinha a mesma altura e os mesmos cabelos. A única diferença visível era que a camisa branca que ele estava usando tinha ficado muito mais limpa do que antes, brilhando como se fosse nova.
Olhando ao redor, ele percebeu que não estava mais na cidade, mas sim no meio de uma floresta densa. De repente, o chão tremeu. Arbustos foram esmagados e, diante dele, surgiu uma criatura aterrorizante: um dragão feito inteiramente de pedra.
— Mas o que é aquilo?! — exclamou Kulmi.
Sem pensar duas vezes, ele começou a correr para salvar sua vida. O dragão de pedra soltou um rugido pesado e bateu o pé no chão. A terra se rachou e um espinho de pedra gigante brotou do solo em direção ao jovem. Instintivamente, Kulmi se abaixou e pulou para a frente. O espinho passou raspando, mas não o atingiu.
No meio do desespero, uma lembrança veio à sua mente.
"Eu ainda devo estar com o livro!" — pensou.
Ele tateou os bolsos e, de fato, lá estava o livro de capa marrom com o quadrado cortado por uma linha. Ele pegou o objeto rapidamente. Atrás dele, o dragão de pedra se preparava para soltar outro ataque de espinhos. Kulmi se assustou a ponto de começar a suar frio.
No momento em que as gotas de suor escorreram por sua pele, uma barreira de pedra se formou num estalo bem na frente dele, bloqueando o novo ataque do monstro.
Confuso, Kulmi abriu o livro rapidamente para ler as páginas escritas. Seus olhos focaram nas instruções: a mana é ativada através do suor, porque a mana vira várias mini gotículas, formando o suor e gerando mana externa para usar a habilidade. Quanto mais força o usuário fizer, mais chance o feitiço terá de sair.
— Entendi... então é só eu suar e fazer força! — murmurou Kulmi para si mesmo.
Ele fechou o livro com força, guardou-o na calça e começou a correr novamente para fazer o corpo aquecer. O dragão de pedra, irritado, pisou no chão com extrema força. O impacto gerou espinhos que atingiram uma árvore próxima. O tronco pesado começou a tombar para a frente, batendo os galhos em outra árvore, gerando um efeito dominó que jogava os destroços diretamente na direção de Kulmi.
Kulmi olhou para trás e viu o perigo iminente. Ele tocou o próprio rosto e percebeu que já tinha suado o suficiente.
Parando abruptamente, Kulmi concentrou toda a sua energia. Ele trancou os dentes e fez força com o corpo, mentalizando algo que pudesse acertar e destruir o dragão de pedra de uma vez por todas.
A resposta do seu poder foi brutal. Usando todo o suor do seu corpo como combustível, Kulmi manifestou uma estaca de pedra gigante com exatamente 1,60 de altura — o seu próprio tamanho.
A estaca disparou com uma violência descomunal. Ela perfurou a árvore que estava prestes a atingir o pé de Kulmi e continuou avançando. A pressão mágica foi tão absurda que todas as árvores ao redor começaram a explodir de dentro para fora. A estaca seguiu direto e atingiu o dragão de pedra, fazendo a criatura explodir em mil pedaços.
A poeira assentou. Kulmi, completamente exausto e sem fôlego, olhou para a destruição.
— Eu... consegui? — sussurrou.
As pernas do jovem fraquejaram e ele acabou desmaiando ali mesmo, no meio da floresta devastada.
Pouco tempo depois, arbustos se moveram. Uma mulher surgiu caminhando lentamente. Ela tinha 1,60 de altura, cabelos curtos de tom branco-rosado e íris vermelhas intensas. Vestia apenas uma camisa branca longa e carregava algemas nos pulsos, com as correntes quebradas balançando.
Ela olhou para o cenário destruído e depois para Kulmi desmaiado no chão. Sem dizer uma única palavra, ela se aproximou, jogou o corpo dele por cima do ombro e começou a correr floresta adentro.
Quando Kulmi finalmente acordou, a primeira coisa que sentiu foi o chão frio de pedra. Ele percebeu que estava dentro de uma caverna. Ao tentar se mover, notou que a garota de cabelos branco-rosados curtos estava sentada em cima dele, encarando-o de perto.
Kulmi piscou, recobrando os sentidos, e reparou que ela tinha as mesmas íris vermelhas que vira no mendigo do futuro.
— Quem... quem é você? — perguntou Kulmi, tenso.
A garota saiu de cima dele com movimentos lentos, sentou-se no chão ao lado e respondeu com uma voz totalmente calma, demonstrando não se importar muito com as coisas ao redor:
— Eu sou a Kufomë.
Kulmi se sentou também, massageando a cabeça.
— Meu nome é Kulmi... — Ele olhou ao redor da caverna escura. — Você está sozinha aqui?
— Estou — respondeu Kufomë, no mesmo tom indiferente. — Afinal, eu sou uma amaldiçoada.
Kulmi inclinou a cabeça, confuso com o termo.
— O que é um amaldiçoado?
Kufomë parou por um instante e o encarou com os olhos semicerrados, genuinamente intrigada.
— Como você não sabe o que é um amaldiçoado? Todas as pessoas do mundo sabem o que isso significa desde que são bebês.
Kulmi pigarreou, tentando inventar uma desculpa rápida para não parecer um viajante do tempo maluco.
— É que... meio que por ter desmaiado lá fora, eu devo ter perdido a memória.
Kufomë soltou um longo suspiro, aceitando a resposta.
— Amaldiçoados são pessoas que ganham esse título pelo governo por usar poderes considerados sujos. Como o meu... que é a ressurreição de cadáveres.
Kulmi arregalou os olhos, mas em vez de sentir medo, deu um sorriso empolgado.
— Caramba, esse é um poder até que bem maneiro! Mesmo você não sendo uma necromante clássica, é muito foda.
Kufomë piscou, um pouco surpresa com a reação dele, embora não tenha demonstrado de forma exagerada. Suas bochechas ganharam um leve tom rosado.
— Você... acha o meu poder maneiro? — perguntou ela.
— Com certeza acho! — garantiu Kulmi.
— Você é bem diferente das outras pessoas que eu já conheci... — murmurou a garota, desviando o olhar.
Kulmi bateu a mão na própria testa, como se um estalo tivesse acontecido em sua mente.
— Agora eu lembrei de uma coisa!
— O que? — perguntou Kufomë, olhando para ele.
Os olhos amarelos de Kulmi ganharam um brilho determinado e sombrio. Ele se levantou, limpando a poeira da calça preta.
— Eu lembrei que o meu objetivo é criar um grupo para fazer uma anarquia contra o governo. Quero fazê-los pagar pelo que fazem com os amaldiçoados!
Kufomë soltou uma risadinha nasal, sem botar muita fé.
— Isso é ridículo. O preconceito contra os amaldiçoados já está enraizado na sociedade. Não dá para mudar.
— Mas eu não planejo acabar com o preconceito — retrucou Kulmi, com um sorriso de canto imponente. — Eu quero fazer os amaldiçoados terem a vingança deles.
Kufomë mudou de postura. Ela olhou bem no fundo dos olhos amarelos de Kulmi, procurando qualquer sinal de hesitação.
— Você realmente promete fazer isso?
Kulmi estendeu a mão na direção dela, firme.
— Eu não prometo... eu juro que irei fazer.
Um brilho de interesse e pura determinação surgiu nas íris vermelhas de Kufomë. Ela estendeu a mão com as algemas quebradas e apertou a mão de Kulmi.
— Então eu vou seguir você... para ter a minha vingança também.
Kulmi apertou a mão dela de volta, selando o pacto daquele que seria o grupo mais temido do mundo.
— Perfeito. Então nós já podemos começar a nos preparar para a nossa vingança.
(FIM DO 1 CAPITULO DO 1 VOLUME)