A luz da manhã filtrava-se timidamente pelas frestas da caverna quando Kulmi e Kufomë cruzaram a entrada, deixando a escuridão úmida para trás. A floresta, ainda marcada pela destruição da véspera, exalava um cheiro forte de terra queimada e madeira partida. Kulmi bocejou, esticando os braços, sentindo os músculos doloridos pelo esforço do dia anterior.
Kufomë parou abruptamente na relva, as correntes quebradas em seus pulsos tilintando levemente. Ela virou o rosto pálido na direção dele, mantendo sua habitual expressão de indiferença.
— Muito bem. Você vai pegar o nosso café da manhã agora — ela anunciou, com a voz plana e sem margem para discussão. — Nós vamos comer slime.
Kulmi franziu o cenho de imediato, fazendo uma careta de puro nojo. Ele olhou para a garota de cabelos branco-rosados como se ela tivesse enlouquecido.
— Espera aí... Slime? Para que diabos nós vamos atrás de uma gosma daquelas logo cedo? Isso não faz o menor sentido.
Kufomë soltou um suspiro lento, revirando as íris vermelhas como se estivesse lidando com uma criança teimosa.
— Por acaso você é idiota ou o soco daquele dragão derreteu o resto do seu cérebro? Não é óbvio? Slimes são uma refeição completa e perfeita para quem usa magia. As gotículas de água concentradas no corpo deles, juntas com a mana residual da criatura, são capazes de recuperar a nossa mana externa rapidamente. Além disso, aquela gosma sacia a sede e deixa qualquer pessoa cheia por horas. É o alimento básico de sobrevivência.
Ela deu as costas, ajustando a camisa branca longa sobre as coxas.
— Eu vou caçar o meu enquanto você caça o seu. Nos encontramos aqui em alguns minutos.
Kulmi deu um passo à frente, gesticulando com as mãos de forma um tanto desesperada.
— Ei, espera um segundo! Eu ainda não sei controlar a minha mana direito! Se eu tentar fazer aquela estaca gigante de ontem de novo, eu vou desmaiar no meio do mato!
Kufomë parou por um breve instante, olhando de soslaio sobre o ombro. Seus olhos vermelhos brilharam com um desinteresse gélido.
— O problema é seu. Se vire e pense — ela respondeu com rispidez. — Ninguém vai segurar a sua mão na hora da anarquia.
Num movimento ágil e silencioso, Kufomë saltou entre os arbustos densos, sumindo completamente de vista em um piscar de olhos. Kulmi permaneceu parado por alguns segundos, processando a frieza da garota. Ele soltou um longo suspiro desanimado, passando a mão pelos seus longos cabelos amarelos.
— Que garota problemática... — resmungou para si mesmo. — Certo, vamos caçar essa bendita gosma.
Ele começou a caminhar lentamente pela floresta, atento a qualquer movimento no solo rasteiro. Não demorou muito para que um som viscoso chamasse sua atenção. Entre duas raízes expostas, um pequeno slime azul-claro rolava preguiçosamente pelo chão, brilhando sob os raios de sol.
Kulmi fixou os olhos amarelos na criatura. Ele respirou fundo, lembrando-se do que havia lido no livro marrom sobre o suor e a ativação da magia. Ele se concentrou, mas desta vez, em vez de se desesperar ou correr para acumular muito suor, ele controlou o próprio ritmo cardíaco. Ele fez uma força sutil, focando em gerar apenas uma quantidade mínima de transpiração na palma de sua mão direita.
— Só um pouco... não exagera... — sussurrou.
O suor na palma de sua mão evaporou com um leve estalo estático. O solo rachou de leve diante dele e uma pequena estaca de pedra, afiada e precisa, ergueu-se do chão. Com um movimento rápido do braço, Kulmi ativou a atração, fazendo a pequena estaca disparar para a frente. O projétil de rocha rasgou o ar com um assobio agudo e atravessou com precisão cirúrgica o núcleo brilhante do slime.
A criatura estremeceu e, instantaneamente, derreteu por completo, transformando-se em uma poça espessa de geleia azulada e malevel. Kulmi sentiu uma pontada de dor de cabeça, uma leve tontura que o fez piscar os olhos duas vezes, mas o incômodo passou tão rápido quanto veio.
Ele se agachou, recolhendo a gosma do slime derretido com as mãos. Uma sensação de realização cobriu suas feições.
— Eu ainda não acredito que era tão simples... — Kulmi deu um sorriso de canto, orgulhoso de sua dedução. — Eu só tinha que suar menos para já aprender como controlar a intensidade da mana. Aquele meu "eu" do futuro realmente me deu uma arma roubada.
Caminhando de volta ao ponto de encontro, Kulmi encontrou Kufomë já esperando por ele. Para a surpresa do garoto, ela segurava uma quantidade absurda de slimes derretidos nas mãos, as correntes de seus pulsos manchadas pela gosma azul. Com total indiferença, ela jogou a montanha de geleia no chão.
— Demorou, garoto amarelo — Kufomë disse, olhando para as mãos dele. — Mas vejo que pegou só um slime. Bem, pelo menos já é um começo para quem quase morreu ontem.
Kulmi colocou a sua porção no chão ao lado das outras, mantendo sua postura calma.
— Sabe, o seu conselho de me mandar virar e pensar até que ajudou bastante. Graças a isso, eu aprendi a controlar o fluxo da mana e a não esgotar meu corpo de uma vez.
Kufomë sentou-se na relva, cruzando as pernas de forma despojada. Ela o encarou com um olhar vazio.
— Eu não te dei conselho nenhum. Só não queria um estorvo morrendo por perto. Mas deixando isso de lado agora... é só comer.
Sem qualquer cerimônia, Kufomë e Kulmi começaram a consumir a gosma dos slimes. O gosto era peculiar, misturando uma textura gelatinosa com uma sensação refrescante que parecia descer queimando levemente, como uma bebida energética mágica. Conforme engoliam, Kulmi sentia a energia retornar ao seu corpo de 1,60 m, dissipando completamente o cansaço e saciando a fome e a sede.
Após terminarem, os dois deitaram-se de costas na grama, completamente cheios e satisfeitos.
— É... até que não foi tão ruim assim — Kulmi comentou, limpando a boca com as costas da mão.
Kufomë sentou-se novamente, a seriedade retornando às suas íris vermelhas.
— Certo, garoto. Você falou ontem sobre queimar o governo e fazer uma revolução. Então me diga: qual é o primeiro passo prático para essa anarquia?
Kulmi sentou-se, enfiando a mão no cós da calça preta e puxando o misterioso livro de capa marrom. Ele o abriu em uma página específica e olhou bem para a garota de cabelos branco-rosados.
— O primeiro passo para a nossa anarquia é conseguir sete livros sagrados sobre magia antiga. Eles são conhecidos como os Sete Livros do Demônio, e contêm feitiços proibidos que o governo tentou apagar da história.
Kufomë franziu o cenho.
— E onde estão esses livros?
— Para consegui-los, nós teremos que adentrar os sete grandes reinos fortificados — Kulmi explicou, o tom de voz determinado. — Valtakunta número 100, Valtakunta número 200, Valtakunta número 300, Valtakunta número 400, Valtakunta número 500, Valtakunta número 600 e Valtakunta número 700. Cada um deles guarda um pedaço do poder que precisamos.
Kufomë soltou uma risada anasalada, balançando a cabeça de forma cética.
— Falar parece muito fácil para alguém que acabou de aprender a espetar uma gosma. Tanto eu quanto você somos Amaldiçoados caçados. Esses reinos têm vários quilômetros de distância entre si, cercados por exércitos e patrulhas. Como planeja entrar?
Kulmi fechou o livro com um estrondo suave e o guardou de volta, exibindo um sorriso astuto e cheio de confiança.
— Não se preocupe com isso, Kufomë. Afinal, eu tenho um plano perfeito para nós começarmos. Só precisamos achar uma vila local para reabastecer e conseguir informações sobre o primeiro reino.
Kufomë estreitou os olhos, apontando com o queixo na direção do norte.
— Tem uma vila fortificada por perto. Mas há um problema: ela possui grandes muralhas de proteção projetadas especificamente para manter os Amaldiçoados do lado de fora. Os guardas matam qualquer um que pareça suspeito antes mesmo de cruzarem os portões.
Kulmi olhou para o resto da gosma de slime que havia sobrado no chão e sorriu ainda mais.
— Muralhas? Perfeito. Nós só vamos precisar desses slimes e de um pouco de atuação.
ATO 2: O PLANO DO SANGUE ROXO
Pouco tempo depois, os dois avançavam em direção à região indicada por Kufomë. Conforme se aproximavam, o clima mudava de forma drástica e assustadora. A vegetação verde da floresta deu lugar a árvores congeladas, cobertas por uma camada espessa de neve branca. O chão estava completamente nevado, e o ar frio congelava a respiração a cada segundo.
Kulmi parou na borda da mata, batendo os braços contra o corpo de 1,60 m para se aquecer na sua camisa branca fina.
— O que aconteceu com essa vila? Na floresta em que estávamos não tinha nada de neve, o clima era super abafado. Como pode estar nevando desse jeito aqui?
Kufomë abraçou os próprios braços, encarando a névoa fria que cercava a vila ao longe.
— Eu não sei — ela admitiu, a voz saindo em um sussurro baixo. — As barreiras mágicas e as alterações climáticas artificiais geralmente são segredos que o governo esconde a sete chaves. O nível de sigilo é tão alto que nem mesmo eu, que passei anos como prisioneira deles sofrendo experimentos, sei o que causa isso.
Kulmi balançou a cabeça, recuperando o foco.
— Entendi... Bem, deixando isso de lado agora, é hora de executarmos o nosso plano.
Ele se agachou, pegando a gosma do slime derretido que havia trazido em um frasco improvisado e começou a enrolá-la firmemente ao redor de sua própria cintura, por baixo da camisa branca. Após prender bem o líquido viscoso, ele ficou de pé e olhou para a garota de cabelos curto branco-rosados.
— Muito bem, Kufomë. Agora é só você me dar um chute com toda a sua força bem na minha costela.
Kufomë piscou os olhos vermelhos, genuinamente confusa pela primeira vez.
— Para que eu faria isso? Ficou masoquista do nada?
Kulmi deu um sorriso de canto, explicando sua lógica de forma rápida:
— Eu notei no caminho para cá que você tem uma musculatura bem forte e densa, que você passa o tempo todo suprimindo para parecer indefesa. Se você usar essa força para quebrar a minha costela, o impacto vai estourar o slime na minha cintura. O slime vai absorver o meu sangue que vai jorrar. Quando eu chegar perto dos portões daquele jeito, os guardas vão ver um garoto ferido quase morrendo na neve, vão ficar com pena e vão me levar para dentro para me tratar. É o cavalo de Tróia perfeito.
Kufomë o encarou por um longo momento, o silêncio dominando o ambiente nevado. Uma expressão de sutil admiração cruzou suas feições apáticas.
— Sabe... para alguém que recém começou a liderar essa suposta revolução, você até que é bem inteligente, Kulmi. É um plano cruel, mas funcional.
Kulmi coçou a nuca, estufando o peito de leve.
— É porque eu passei a noite inteira lendo aquele livro de magia enquanto você dormia na caverna. Eu gastei um bom tempo pensando em uma estratégia que usasse a lógica deles contra eles mesmos.
Kufomë soltou um suspiro pesado, cruzando os braços com firmeza.
— É uma boa ideia, admito. Mas você esqueceu de um detalhe crucial, gênio. Por mais que você tenha pensado nisso tudo, quando alguém sente uma dor extrema como ter ossos quebrados, o corpo reage gerando muito suor por causa do choque.
Kulmi inclinou a cabeça, confuso.
— E o que o suor tem a ver com isso agora?
Kufomë deu um passo à frente, o tom de voz assumindo uma seriedade cortante:
— Eu já te expliquei. A mana dos Amaldiçoados é expelida pelo suor. E quando um Amaldiçoado fica suando de verdade, o suor dele exala um cheiro característico, o "cheiro de amaldiçoado" que os cães de guarda e os sensores do governo conseguem farejar a quilômetros de distância. Você vai ser pego no portão se começar a suar de dor.
Kulmi cheirou o próprio braço rapidamente, fazendo uma careta e rindo.
— Olha, eu honestamente não sinto cheiro nenhum em mim. Então, se eu não sinto esse cheiro de monstro que você diz, é porque eu devo ser um Amaldiçado diferenciado por causa da viagem no tempo. Pode chutar sem medo.
Kufomë apenas suspira profundamente, massageando a têmpora, demonstrando que não pretendia discutir mais com a teimosia dele.
— Faça como quiser, então. Eu vou entrar do meu próprio jeito depois que a poeira baixar. Prepare-se.
Kufomë deu um passo curto para trás, concentrou a energia em sua perna direita e desferiu um chute brutal e seco diretamente contra a costela de Kulmi. O som do osso se partindo ecoou como um estalo abafado na neve.
O impacto violento estourou o slime preso na cintura de Kulmi. No mesmo instante, um sangue de cor roxa intensa começou a jorrar do ferimento interno, sendo rapidamente absorvido e misturado à gosma do slime, criando uma mancha púrpura assustadora que empapou a camisa branca dele.
Kulmi desabou de joelhos na neve fria, curvando o corpo de dor. Ele cuspiu um punhado daquele mesmo líquido roxo no chão congelado, os olhos amarelos arregalados pelo choque do sofrimento físico.
— C-Caramba... — Kulmi pensou, os dentes trincados enquanto tentava respirar. — Eu nunca... nunca pensei que quebrar uma costela seria doloroso a esse nível... f*a-se...
Kufomë o olhou de cima de forma fria, deu as costas sem dizer mais nenhuma palavra e desapareceu silenciosamente por entre as árvores congeladas, deixando-o sozinho na estrada de neve que levava à vila.
ATO 3: A GUARDA COM O RIFLE E A MULHER DO MANTO BRANCO
Kulmi permaneceu caído, arrastando-se debilmente pela neve, deixando um rastro roxo para trás. Sua visão começava a embaçar devido à dor intensa e ao frio cortante daquela região misteriosa.
De repente, passos pesados esmagaram a neve perto dele. De trás da névoa congelada, surgiu uma garota. Ela tinha 1,60 m de altura, cabelos castanhos curtos e íris de um azul-claro gélido e límpido. Ela vestia um manto cinza espesso que a protegia do inverno e segurava com firmeza um rifle de assalto de precisão nas mãos. Seu rosto era extremamente calmo, adornado por um sorriso leve e constante que parecia nunca sumir de suas feições, transmitindo uma sensação de frieza assustadora. Seu nome era Pa Njerëzillëk.
A guarda aproximou-se do corpo de Kulmi para verificar o que estava acontecendo ali fora. Ela olhou para o rastro de sangue roxo e para a camisa branca empapada do garoto. Sem dizer uma única palavra, sem fazer perguntas ou demonstrar qualquer pingo de hesitação, Pa Njerëzillëk abaixou-se com agilidade, guardou o rifle nas costas, pegou Kulmi com facilidade e o jogou por cima do ombro.
Ela caminhou com passos firmes até os grandes portões de madeira maciça da fortaleza da vila. Sem usar as mãos, a garota ergueu a perna e abriu o portão com um chute forte no meio da madeira, entrando na vila nevada enquanto carregava o prisioneiro inconsciente.
Ao longe, escondida no topo de uma colina rochosa e coberta de neve, Kufomë observava toda a cena com seus olhos vermelhos bem atentos. Ela viu os portões se fecharem atrás da guarda de manto cinza.
— Perfeito... O garoto conseguiu entrar — Kufomë murmurou com sua voz apática, embora um brilho cruel cruzasse seu olhar. — Assim que aquela guarda voltar para a patrulha e os portões ficarem vulneráveis, vai ser a minha vez de executar o meu plano e trazer o verdadeiro caos para essa vila.
Horas se passaram. Kulmi finalmente começou a recuperar a consciência, piscando os olhos pesados. A dor em sua costela ainda estava ali, mas parecia ter sido estabilizada por algum tipo de bandagem apertada. Ele olhou ao redor, percebendo que estava deitado em uma cama simples dentro de um quarto de madeira aquecido por uma lareira.
Ao mover a cabeça para o lado, Kulmi tomou um susto. Sentada em uma cadeira bem ao lado de sua cama, observando-o fixamente, estava uma mulher de aparência completamente exótica e imponente.
Ela possuía cabelos azuis estilizados na forma de grandes parafusos perfeitos que caíam pelas laterais de seu rosto, e suas íris eram de um roxo profundo e magnético. Ela vestia um manto branco elegante que cobria suas costas, mas a sua vestimenta de combate era bizarra: usava uma peça de armadura de metal reluzente que cobria estritamente apenas os seus peitos, combinada com uma pesada saia de ferro que protegia a parte inferior. Por baixo de toda essa armadura metálica, ela vestia um macacão de tecido marrom ajustado ao corpo.
Kulmi permaneceu imóvel, o coração acelerando de leve enquanto encarava aquela figura misteriosa que parecia emanar uma autoridade absurda.
— Mas que visual maluco... — Kulmi pensou, os olhos amarelos fixos na mulher. — Quem diabos é essa?!
(FIM DO 2 CAPITULO DO 1 VOLUME)