# MULTIVERSOS QUEBRADOS
## CAPÍTULO 3
Acordando no dia seguinte, pensei em uma coisa: eu não poderia ir para lá sendo um noob. Minha luta com ELE já tinha mostrado isso.
Ou seja, seria bom eu pelo menos treinar meu corpo.
Então resolvi fazer o que um adolescente faria: ver vídeos no Instagram de como ter um físico rápido.
Encontrei um vídeo no qual, no primeiro dia após o tal treino, eu ficaria com o corpo bem dolorido.
E, de fato, parecia que eu estava segurando o peso do céu como Atlas.
Uma bela referência, inclusive.
E, passados 1 mês, eu estava com bem menos cansaço do que tinha antes. Além disso, quando terminava cada treino, eu treinava com a espada: como segurá-la, manejá-la sem ela cair e sem eu me estripar.
Isso, inclusive, quase aconteceu.
Mais 2 meses depois, resolvi então abrir o primeiro portal.
Coloquei o anel no dedo.
A caneta, sempre fiel, estava no bolso.
E um novo Pood.
Sim, eu era um pouco viciado, mas ao menos iria me acalmar caso precisasse.
Também peguei uma garrafa de água.
Visualizei uma rachadura no espaço-tempo.
Com o anel no dedo, a rachadura apareceu.
Entrei nela.
E, à minha volta, estavam 7 buracos.
Cada um deles parecia um buraco negro de tão preto que eram.
— Muito bem! — escutei uma voz.
Me arrepiei e, como se já fosse combinado, minha mão foi para o bolso. Antes mesmo de me virar, a espada já estava na minha mão.
E, atrás de mim, estava ELE do mesmo jeito da última vez.
Porém, como o local à nossa volta era branco, seu corpo disforme também era branco, e os olhos estavam azuis.
— Destinatário? O que faz aqui? — perguntei.
— Oh... parece que você decifrou meu nome na cifra de César, não? — ELE mandou outra pergunta.
Então sorri.
E, de fato, não era tão difícil, já que estamos na era da tecnologia. Então foi só eu pedir para o meu amigo Cauã, que, por zoeira, salvei no meu celular como **“CauãKaiser dos Olhos Verdes”**, traduzir para mim.
E veio a palavra:
**Destinatário.**
— Bem, Destinatário não é bem meu nome. É como você deve me chamar. Afinal, eu sou um segredo que somente aqueles que lerem isso saberão no futuro, e talvez nem você vá descobrir tão cedo quem sou.
Muita fala, pouca explicação. Então resolvi ser direto:
— E então, por qual você acha que eu começo?
ELE olhou em cada um dos buracos e escolheu um.
Então, o buraco se mexeu e foi parar embaixo dos meus pés.
— Boa sorte, garoto roxo.
Comecei a cair, igual àquele jogo chamado Fortnite.
Só tinha um problema:
**eu estava sem paraquedas!**
Olhei à minha volta e percebi: tudo era árvores. Altas, grandes, pequenas...
Olhei para os três pontos para ver se tinha alguma informação:
**Ano: 2007**
**Local: Amazônia, Brasil**
**Multiverso: 3**
Olhei para o que podia usar para amortecer a queda. Como estava no meu corpo, minha blusa grande e grossa aparecia no inventário. Poderia usá-la para amortecer um pouco.
Além disso, quando eu estivesse a aproximadamente 1 metro e meio do chão, daria um mortal, o que faria a queda virar apenas uma cambalhota.
Fiz exatamente isso.
Deu certo.
Olhei meu inventário. Estava tudo no lugar.
Depois olhei à minha volta, pensando em como iria me encontrar com o Lucas daqui e qual pecado ele representaria.
Percebi que estava longe da civilização.
Ou seja...
Que ótimo ponto para cair.
Olhei para o sistema. Faltavam 37 minutos até eu ser mandado de volta para o meu mundo.
Então, resolvi dar uma explorada, indo na direção norte, já que sempre dizem para ir para o norte, porque assim você chegará a algum lugar.
De fato, após um tempo, cheguei a um morro enorme, que mais parecia uma montanha.
Foi quando foquei a visão e vi que havia algumas construções ali: casas e barracos.
Além disso, percebi que havia diversas árvores frutíferas, mas somente no topo do morro.
Olhei à minha volta.
Ali, eram somente árvores normais, que serviam apenas para nos dar oxigênio.
“Hora de finalmente descobrir o que está rolando aqui”, pensei comigo mesmo.
Comecei a escalar o morro na esperança de encontrar alguma pista de onde achar o Lucas daqui. Foi quando percebi o silêncio perturbador daquele lugar e subi ainda mais rápido.
Aproximei-me da casa mais próxima. Espiei por debaixo da porta e simplesmente não havia barulho algum ali. Então, abri a porta e entrei.
Lá dentro, tudo era feito de barro: panelas, utensílios de cozinha e até a cama que encontrei, coberta por uma manta costurada com pedaços de panos de várias cores.
Aparentemente, mesmo com toda a fartura do topo do morro, aquela civilização era bem pobre.
(Não que eu fosse rico nem nada do tipo.)
Entrei nas outras casas e, em só uma, encontrei uma pessoa...
Digo, um corpo.
Olhei sem tocar.
Aparentemente, estava morto há alguns dias. Percebi que o corpo parecia ressecado, como se não tomasse água há tempos.
Ou seja, aquela pessoa morrera há pelo menos três ou quatro dias, já que o corpo humano só aguenta esse tempo sem água.
Corri em direção ao topo e percebi: nem aves nem animais estavam por ali.
Seja lá o que aconteceu por aqui, simplesmente quebrara o ecossistema de animais, deixando somente a vida de fotossíntese.
Chegando lá em cima, escutei barulhos de uma enorme fonte e comecei a andar devagar.
Então, vi pelo menos algumas centenas de pessoas ajoelhadas em volta da fonte, que tinha o formato da pupila de uma cobra.
Me escondi atrás de umas árvores e olhei para aquelas pessoas.
Todas estavam extremamente magras e tinham duas marcas grandes de dentes nos braços esquerdos, como se uma grande criatura as tivesse mordido.
Até que vi um garoto, com uma expressão de dor, cair dentro da fonte.
Seu corpo começou a boiar.
Ele começou a se debater e chamar a mãe, o pai e os irmãos, mas ninguém se mexeu.
Até que, num movimento rápido, algo o puxou, e só subiram as últimas bolhas de ar daquele pulmão jovem...
Aquilo me deu ânsia de vômito, e resolvi correr para vomitar longe e não fazer barulho.
Até que escutei um movimento rápido perto de mim e imediatamente recebi um rasgo no braço.
Saquei a espada, girando ao meu redor.
Seja o que me atacou, ou era rápido demais, ou era invisível de algum modo.
Me concentrei, fechando os olhos e deixando de respirar por 1 minuto, para somente escutar os sons à minha volta.
E escutei um som de alguém curvado correndo em direção às minhas costas.
Rapidamente, me virei, girando a espada na diagonal, e escutei um grunhido de dor.
Aparentemente, acertara a coisa, já que havia uma linha tênue de sangue na minha espada.
O golpe não fora totalmente fatal, mas estava fazendo-a sangrar.
Olhei para o chão.
Um rastro de sangue seguia em uma direção.
Ou seja, mesmo que fosse invisível, quando machucada, a coisa deixava seu sangue visível ao escorrer.
Comecei a seguir o rastro e olhei o cronômetro no sistema:
**23 minutos.**
Precisava descobrir quem era aquele e, de qualquer forma, teria que ser rápido, já que tinha menos da metade do tempo que tinha no começo.
Em certa parte, não encontrei mais os pingos de sangue na frente de uma árvore.
Então, a coisa teve energia para escalar, já que a árvore tinha marcas de pequenas garrinhas de unhas grandes.
Resolvi falar.
Já estive quieto o suficiente.
— Olha só, eu estou atrás de uma pessoa chamada Lucas Felipe. Se você, criatura invisível, for uma pessoa, ao menos me dê uma dica! Preciso urgente falar com esse cara.
Os galhos da árvore de maçãs se mexeram, como se a coisa se deitasse ali.
Então, ouvi uma voz:
— O que você quer com essa pessoa, moleque?
— Bem, estou nesse local porque há algo aqui que não pertence a esse lugar, e acho que preciso recuperá-lo.
Houve uns segundos de silêncio, e então aquilo respondeu:
— Bem, se quer encontrá-lo, terá de passar no teste. Volte à fonte, jogue algo valioso e tente passar no teste.
Resolvi obedecer.
Afinal, o tempo estava acabando.
Tinha 11 minutos sobrando.
Corri até lá, e as pessoas ainda continuavam naquele ritual macabro, mas percebi um detalhe: tinham 4 pessoas chorando.
Possivelmente, deveriam ser os familiares do garoto que caiu na fonte.
Olhei para o inventário:
A caneta, o Pood, a garrafa e a blusa.
A caneta, se eu jogasse, depois de alguns segundos retornaria para meu bolso.
A blusa talvez não servisse; já era somente um pano grosso para o frio.
O Pood, que só usara uma vez, iria queimar assim que entrasse em contato com a água.
Então, só sobrava a garrafa de água.
Ao tirá-la, percebi que a coloração da minha água com a da fonte era diferente.
A da fonte era clara, porém com um levíssimo tom de verde, enquanto a minha era cristalina, como deveria ser.
Sem pensar duas vezes, joguei a garrafa.
Foi então que algo começou a se aproximar do fundo da fonte, e surgiu uma sucuri de um verde tão escuro que parecia preto.
Aparentemente, a água tinha aquela cor porque um pouco da pele daquela coisa devia estar soltando algo.
— Você ousa interromper meu descanso e, ainda por cima, joga um item sobre a água? Mas, como um bom vizinho que sou para essas pessoas à minha volta, farei o favor de devolver seu item.
A voz daquela sucuri era terrível. Parecia um trovão.
Então, ela abriu a boca.
Lá dentro, estavam dois machados: um dourado, o outro de prata.
E estavam bem debaixo de suas enormes presas, que, após eu dar uma olhada, coincidiam com as marcas de dentes nas pessoas à minha volta.
De alguma forma, elas não passaram no teste, e aquela marca nos braços daquelas pessoas era algum tipo de maldição.
Elas tentaram pegar um daqueles machados, mas a escolha não deve ter sido correta, e a sucuri mordeu-as.
Aparentemente, todos não passaram no teste, e chegara a minha vez.
Pensei: isso estava me lembrando de alguma fábula, a chamada história do machado de ouro e prata, do lenhador honesto.
Ou seja, bastava que eu fosse honesto e dissesse algo do tipo:
“Esse não é meu item perdido.”
— Desculpe, mas esse não é o item que deixei cair sobre sua fonte — disse eu, sendo formal.
Os olhos da sucuri brilharam.
Ela fechou a boca e abriu-a novamente.
Dessa vez, ali estava a garrafa de água que joguei na fonte.
Mas percebi que, dessa vez, os dentes estavam mais perto.
Olhei nos braços das pessoas novamente.
Algumas estavam com marcas diferentes.
Tinham uma só mordida, porém com o formato de dois dentes juntos.
Então, ainda não era hora de pegar a garrafa!
Outro detalhe que percebi: na boca da sucuri, em volta da garrafa, estava saindo uma fina fumaça, como se a água fosse veneno.
Então pensei:
Será que, na verdade, a água que está nessa minha garrafa, que é limpa, faz mal a essa criatura?
Resolvi tentar algo:
— Posso pegá-la?
Os olhos brilharam novamente, mostrando que passei no próximo teste.
A garrafa rolou para fora da boca dela, caindo aos meus pés.
O que eu ia fazer agora era arriscado, mas deveria tentar.
Peguei a garrafa, abri-a, mas, em vez de beber, joguei na sucuri, o que fez ela começar a fumegar e gritar de dor.
Mas vi que seus olhos brilharam pela 3ª vez, mostrando que passara novamente.
A sucuri tentou avançar em mim, mas joguei um pouco da água na espada e rasguei a pele do lado direito da mandíbula.
Antes mesmo de terminar, olhei para trás e vi: o corpo já se deteriorara por completo.
Olhei para a água e pensei em algo.
Joguei o restante da água dentro da fonte, e a água se limpou, ficando igual à minha.
Então, vi que as marcas dos braços das pessoas se fechavam.
Todos começaram a rir, chorar e gritar por estarem finalmente livres da maldição.
E corpos começaram a boiar na água.
Não estavam parados: estavam vivos.
Então, aqueles que caíam ficavam presos e, possivelmente, eram devorados quando a sucuri acordava e queria se alimentar.
— Desgraçado!
Escutei a voz daquela coisa e olhei para trás, com a espada como escudo.
Acabei sendo empurrado para dentro da fonte, e a coisa caiu junto, mostrando seu corpo.
Mas não consegui ver nada, pois, assim que a coisa caiu, fui sugado e me vi sentado na minha cama, molhado e com o despertador tocando.
Olhei ao redor.
Realmente, era meu quarto.
Abri o sistema e vi:
**“Tempo esgotado. Aguarde 24 horas para usá-lo novamente.”**
Parei para pensar em tudo o que vivi no Multiverso 3 enquanto dava 15 minutos de soneca no despertador e percebi um detalhe:
Eu não descobrira o tal Lucas, nem qual pecado estava com ele...
Eu falei pelo menos uns 100 palavrões para mim mesmo que, para não fazer o leitor aprender novos palavrões, não colocarei aqui.
Então pensei:
**Será que, ao menos, quando puder usar o poder novamente, poderei voltar para lá?**