Cinco anos se passaram desde aquela noite de sombras e promessas sob o eclipse.
O vale de Kemet continuava seu ciclo eterno de cheias e secas, mas na pequena encosta da Vila Núbia, o tempo era medido pelo crescimento dos dois irmãos e pelo aprofundamento das rugas no rosto de seu pai.
Madoc observava seus filhos sob o sol implacável do meio-dia.
A luz refletia intensamente nas rochas de granito que serviam de arena natural, transformando o suor na pele dos meninos em pequenas gotas de prata.
Seus trinta e poucos anos agora pesavam como cinquenta; a tosse seca e as feridas em sua pele, lembranças de uma vida de privações e batalhas que o mundo finge ter esquecido, não lhe davam trégua.
Mesmo assim, suas costas permaneciam retas como os obeliscos dos templos.
Ele segurava uma vara de acácia, observando cada movimento com olhos de águia.
— Pés firmes na areia, Nakht! — comandou Madoc, a voz rouca, mas carregada de uma autoridade que vinha do sangue derramado. — O Nilo não perdoa o junco que não tem raízes. Se o seu equilíbrio falhar, o deserto o engole antes mesmo que o inimigo o toque.
Nakht, agora um adolescente cujos ombros começavam a ganhar a largura dos de um homem, respirava com esforço.
Ele segurava uma khopesh de madeira esculpida pelo próprio pai. Seu rosto, antes redondo e infantil, agora exibia as linhas afiadas da maturidade jovem, e seus olhos âmbar buscavam constantemente a aprovação de Madoc.
À sua frente, o pequeno Akhmose, com apenas cinco anos, tentava imitar o irmão com uma espada em miniatura.
— Eu também, pai! Veja, sou um guerreiro! — exclamou Akhmose, desferindo um golpe desajeitado no ar que quase o fez tombar.
Madoc suavizou o olhar ao ver o filho mais novo, aquele que nascera sob o eclipse. Akhmose era ágil e cheio de uma energia que parecia desconhecer o cansaço.
Madoc aproximou-se e, com o mesmo toque terno de anos atrás, corrigiu a postura do menino com o nó dos dedos.
— Guarde sua energia, pequeno leão — disse Madoc suavemente. — A esgrima não é sobre quem bate mais forte, é sobre quem ainda está de pé quando o sol se põe. É paciência, Akhmose. Nakht, ataque-o devagar. Deixe que ele sinta o peso da defesa.
Nakht sorriu para o pequeno, um sorriso que misturava cumplicidade e proteção.
Ele avançou com cautela, e o som das madeiras batendo ecoava contra as paredes de adobe da vila, um metrônomo de preparação para um futuro incerto.
Madoc observava-os com um misto de orgulho e uma melancolia que lhe apertava o peito. Ele via nos filhos a força que seu próprio corpo, devastado pelos resquícios de antigas guerras, já não conseguia sustentar.
Aquelas lições iam além da defesa pessoal. Em um mundo de fronteiras instáveis e vida dura, saber manejar uma lâmina era a diferença entre ser o mestre do próprio destino ou uma folha seca carregada pelo vento do deserto.
— De novo! — ordenou Madoc, enquanto a poeira subia ao redor dos pés dos meninos. — O sol está alto, mas o inimigo não espera a sombra para atacar. Ele ataca quando você acredita estar seguro.
O som rítmico da madeira cessou abruptamente. Um som metálico e rítmico subia a ladeira da vila, destoando do barulho orgânico do rio.
Um grupo de soldados, com peitorais de couro e escudos de pele de boi, abria caminho. No centro, um mensageiro real em linho branco ofuscante, ostentando o selo de ouro do Faraó.
Madoc soltou a vara de acácia. Sua mão, por puro instinto, buscou o cabo de uma faca que ele não carregava há anos.
— Madoc, filho de Menes! — a voz do mensageiro ecoou, fria como o mármore. — O Senhor das Duas Terras convoca sua presença no Salão de Guerra. Você parte ao amanhecer.
O mensageiro estendeu o papiro selado. Nakht deu um passo à frente, protetor, colocando-se meio ombro à frente de Akhmose, que segurava sua pequena espada como se pudesse enfrentar o exército do Faraó sozinho.
— A capital? — a voz de Madoc saiu baixa, quase um sussurro.
Ele olhou para suas mãos, as mesmas que acabavam de ajustar a postura de uma criança, agora chamadas para planejar a destruição.
Ele sentiu o papiro em seus dedos como se fosse uma serpente de fogo.
O oficial deu meia-volta, deixando para trás o silêncio pesado da Vila Núbia.
Madoc sentiu o olhar de Nakht queimar sobre ele. O menino já não era a criança que se escondia atrás de suas pernas; havia uma compreensão sombria em seus olhos, um medo silencioso de que o pai, que era seu mundo, pertencesse agora a um mundo muito maior e mais perigoso.
— Pai... — começou Nakht, a voz falhando. — Você vai voltar?
Madoc suspirou, as rugas parecendo fendas profundas em seu rosto cansado.
Ele olhou para a pequena espada de madeira de Akhmose, jogada na areia, e depois para o horizonte. Ele se aproximou de Nakht e colocou a mão em seu ombro, sentindo a firmeza dos músculos do jovem.
— O treino acabou por hoje — disse Madoc, sua voz voltando ao tom suave de cinco anos atrás. — Nakht, olhe para mim. Enquanto eu estiver fora, você é o pilar desta casa. Não treine apenas os braços de seu irmão, treine o coração dele. Proteja sua mãe.
Ele ajoelhou-se para ficar na altura de Akhmose e tocou a testa do menino com o polegar.
— Continue praticando, pequeno leão. Quando eu voltar, quero ver se você aprendeu a paciência que lhe ensinei hoje.
Madoc olhou para o céu, onde o sol brilhava sem misericórdia.
Ele não era mais o guerreiro que desejava a glória, mas o pai que temia que o sangue de seus filhos fosse o preço da paz. O passado, tal como as águas do Nilo, sempre encontrava um caminho de volta para inundar o presente.