O pilar de luz que entrava pela porta da casa de adobe foi cortado pela silhueta pesada de Madoc.
O interior era fresco, impregnado com o cheiro reconfortante de linho limpo e o aroma terroso das cestas de grãos, mas para Madoc, o ar parecia subitamente insuficiente, pesado como o papiro selado que carregava.
Tuya estava de costas. Seus ombros ficaram rígidos antes mesmo de ele dizer uma palavra. Ela não precisava olhar; o som dos cascos dos cavalos reais tinha um peso que ela reconheceria em qualquer vida.
— Eles vieram — disse ela, com a voz baixa, as mãos paralisadas sobre o trigo.
— O Faraó não pede, Tuya. Ele reivindica. — Madoc aproximou-se, o som de suas sandálias no chão batido soando como uma contagem regressiva. — Ele quer o que restou dos homens que sabem que o aço não é a única coisa que brilha no escuro.
Tuya virou-se bruscamente. Seus olhos escuros, geralmente cheios de uma calma de rio, agora eram tempestuosos.
Ela caminhou até ele e, com uma urgência dolorosa, segurou os braços do marido. Seus dedos traçaram as cicatrizes que subiam pelos bíceps de Madoc com marcas que não eram lineares como cortes de espada, mas retorcidas, como se algo tivesse tentado arrancar a alma através da pele.
— Você já deu sangue o suficiente, Madoc! — ela sussurrou, a voz quebrada. — Veja o que essa guerra fez com você. Você tosse poeira, suas feridas nunca fecham totalmente. Os mercadores que descem o Nilo falam de coisas... abominações. Dizem que os reis do Norte fizeram pactos. Que não são mais generais que lideram os exércitos, mas pastores de sombras que colhem o sofrimento para alimentar seres que a terra deveria ter esquecido.
Madoc segurou o rosto dela entre as mãos rachadas.
— É exatamente por isso que devo ir — ele disse, encostando a testa na dela.
— Se os generais do Faraó usarem apenas lanças contra o que está vindo, o Nilo não será mais o Rio da Vida. Ele se tornará uma veia aberta para alimentar esses mestres. Se eu não for para aquele Salão de Guerra, o massacre chegará aqui, e eu não terei paredes de adobe fortes o suficiente para proteger vocês.
A porta bateu com força, e o ambiente estremeceu.
Nakht entrou como um vendaval, trazendo o pequeno Akhmose pela mão.
O adolescente estava pálido, a mandíbula travada, a khopesh de madeira apertada com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos.
— Eu vou com você — Nakht declarou. Não era um pedido, e sim um grito de guerra envolto em desespero. — Você me treinou todos os dias sob o sol. Eu sou mais rápido que metade dos homens da guarda desta vila! Eu não vou ficar aqui sentado, limpando o chão, enquanto você vai para o abate!
— Nakht, cale-se! — Tuya exclamou, mas o jovem não recuou.
— Você viu as feridas no corpo do seu pai, Nakht? — Madoc rugiu, afastando-se de Tuya. Sua voz não era de raiva, mas de um medo profundo que ele tentava disfarçar com autoridade.
— Aquilo não foi feito por homens! Aquilo foi obra de entidades que se banham na agonia. Você é um menino com um pedaço de acácia nas mãos brincando de soldado!
— Então me dê o aço! — Nakht gritou de volta, as lágrimas de frustração finalmente transbordando. — Você diz que o inimigo não espera a sombra. Se os demônios estão vindo para colher nosso sangue, eu prefiro morrer olhando nos seus olhos do que passar o resto da vida me perguntando se o seu coração foi devorado em algum altar de sangue na capital!
O pequeno Akhmose, soltando-se da mão do irmão, correu para as pernas de Madoc, abraçando-as com força. O choro do menino era baixo, um soluço rítmico que cortou o coração de Madoc mais fundo do que qualquer lâmina.
— Pai, não vai... — balbuciou a criança. — O monstro da noite vai te pegar.
O silêncio que se seguiu foi denso, sufocante. Madoc olhou para Nakht e viu a si mesmo, a mesma teimosia heróica, o mesmo desejo desesperado de proteger o que amava. Mas ele também via a fragilidade daquela juventude diante de uma guerra que não buscava apenas território, mas o sustento espiritual através da dor.
— Esta guerra não é por ouro, meu filho — Madoc disse, baixando a voz até um tom de confidência mortal. — Eles querem o seu terror. Cada grito de uma mãe, cada lágrima de um órfão é um banquete para os mestres deles. Se eu vou, é para garantir que o seu nome nunca chegue aos ouvidos dessas coisas.
— E se eles já souberem o nosso nome, pai? — Nakht rebateu, apontando para o papiro real com o selo do Faraó. — O Faraó te chamou porque o horror já atravessou a fronteira. Se você cair lá, quem vai nos defender aqui? Se eu for, pelo menos seremos dois. Um escudo e uma espada.
Madoc olhou para Tuya. Ela estava abraçada a si mesma, as lágrimas escorrendo silenciosamente.
Ela sabia que a lógica de Nakht era a lógica dos tempos sombrios: no Egito atual, ninguém estava realmente seguro, e a única escolha era onde e como você enfrentaria a escuridão.
Madoc suspirou, sentindo o peso de mil anos em seus ombros. Ele estendeu a mão e tocou o ombro de Nakht, sentindo o tremor do filho.
— Se você vier — Madoc disse, a voz sombria —, você deixará sua infância nesta areia. Você verá coisas que farão seus olhos sangrarem e seu coração endurecerá como o granito das montanhas. Você está pronto para perder a sua alma para salvar a nossa família?
Nakht limpou o rosto com o dorso da mão, o olhar âmbar fixo no do pai, queimando com uma determinação feroz.
— Minha alma já está com a sua, pai. Para onde você for, ela também irá.
O silêncio que se seguiu à declaração de Nakht foi tão pesado quanto as pedras de uma tumba. Madoc encarou o filho, o olhar endurecido pela dor e pela descrença.
— Não — disse Madoc, a voz baixa e final. — Você não entende o que pede, Nakht. Ir para o norte agora não é marchar para a glória é caminhar para o estômago de algo que não pode ser saciado. Você fica. É a minha última palavra.
Nakht deu um passo atrás, mas não por submissão. Ele ergueu a khopesh de madeira, a ponta apontada diretamente para o peito do pai. O gesto era um sacrilégio na Vila Núbia — um filho nunca erguia a mão contra o progenitor — mas o desespero no rosto do jovem era maior que a tradição.
— Você diz que eu sou apenas um junco ao vento — disse Nakht, a voz tremendo de adrenalina. — Diz que eu não passaria de um banquete para as sombras. Então prove, pai. Me vença aqui, agora. Se eu não puder durar um minuto contra um homem velho e doente, eu ficarei e aceitarei minha vergonha. Mas se eu o tocar... você me leva. Você me dá o aço e me ensina a matar os monstros que quer enfrentar sozinho.
Tuya sufocou um grito, puxando Akhmose para o canto da sala. Madoc olhou para a arma de madeira, depois para os olhos âmbar do filho. Ele viu que não havia mais volta. O menino que ele protegia havia morrido no momento em que o mensageiro real bateu à porta.
— Você quer o peso do mundo, Nakht? — Madoc perguntou, sua voz subitamente gélida. Ele pegou sua vara de acácia que estava encostada à parede. — Pois bem. Que os deuses testemunhem: eu não serei seu pai neste círculo. Serei o seu carrasco.
Eles saíram para o pátio de terra batida sob a luz alaranjada do pôr do sol, que tingia a areia de um vermelho que lembrava sangue. Os vizinhos observavam das janelas, em silêncio absoluto.