O silêncio que se seguiu ao pátio foi cortante.
Madoc não recuou, nem demonstrou a fraqueza de seus pulmões. Em vez disso, ele pareceu crescer.
A aura de pai cansado dissipou-se, dando lugar à presença esmagadora de um homem que sobreviveu a massacres que fariam exércitos inteiros desertarem.
— Você quer o aço, Nakht? — a voz de Madoc era agora um trovão baixo, desprovido de qualquer calor. — Pois bem. Que o solo de Kemet testemunhe que eu não sou seu pai neste círculo. Sou o homem que você diz ser capaz de superar.
A luz do sol tingia o mundo de um rubi violento. Madoc não pegou uma vara de acácia; ele caminhou até um canto do pátio e pegou uma pesada peça de madeira de lei, equilibrada exatamente como uma lâmina de guerra.
Nakht atacou primeiro, movido por uma mistura de adrenalina e medo. Ele era rápido como um raio de juventude e desferiu um golpe lateral que deveria ter encerrado a disputa.
Mas Madoc não estava mais lá. Com um movimento mínimo, quase imperceptível, ele deslizou para dentro da guarda de Nakht.
O contra-ataque foi brutal. Madoc atingiu o pulso de Nakht com o punho da arma de madeira, desarmando-o instantaneamente, e seguiu com um chute no peito que lançou o jovem para trás, arrastando os pés na areia.
— Levante-se — ordenou Madoc, a voz gélida. — Seus inimigos não vão esperar você recuperar o fôlego enquanto riem da sua incompetência e fraqueza.
Nakht, com o rosto ardendo de vergonha, recuperou a arma e investiu novamente.
Desta vez, Madoc não apenas desviou, ele dominou o espaço. Cada movimento do pai era uma lição de geometria mortal.
Ele era agressivo, movendo-se com uma fluidez que desafiava suas cicatrizes.
As madeiras se chocavam com um som seco e, a cada troca, Madoc encontrava uma brecha na defesa de Nakht, golpeando as costelas, os ombros e as pernas do filho.
— É isso que você chama de técnica? — Madoc provocou, os olhos âmbar brilhando com uma intensidade predatória.
— Você luta como um leão jovem, barulhento e previsível. Os demônios que colhem sangue adoram leões jovens. Eles são fáceis de sangrar.
Nakht tentou um golpe desesperado, um arco descendente com toda a sua força. Madoc aparou o golpe com uma mão só, girando o corpo e desferindo uma rasteira que fez o adolescente beijar o chão poeirento.
Antes que Nakht pudesse respirar, a ponta da madeira de Madoc estava pressionada contra o seu olho.
A agressividade de Madoc era absoluta. Ele não estava apenas vencendo, ele estava demonstrando a abissal diferença entre treinar e sobreviver. O peso de sua presença era sufocante.
— Você me toca se eu permitir, Nakht — sibilou Madoc, a centímetros do rosto do filho. — Eu sou o mestre deste solo. Você diz que é capaz? Você não duraria dez batidas de coração no Salão de Guerra. Lá, o erro não resulta em um tombo na areia. Resulta na sua alma sendo servida em um banquete de sombras.
Nakht permanecia imóvel, sentindo a ponta da madeira tremer levemente contra sua pele não por fraqueza de Madoc, mas pela contenção da força bruta que o homem ainda possuía.
O jovem olhou para cima e, apesar da derrota humilhante, não viu desprezo nos olhos do pai. Viu um terror ancestral. Madoc o estava esmagando para que o mundo não o fizesse de forma pior.
— Mate-me então — Nakht sussurrou, a voz embargada. — Se eu sou tão inútil, mate-me agora. Porque eu não vou ficar aqui enquanto você caminha sozinho para a boca da serpente. Eu prefiro o seu golpe do que o silêncio desta casa sem você.
Madoc manteve a pressão por mais um segundo, o rosto uma máscara de ferro.
Então, com um suspiro que pareceu expulsar toda a agressividade de seu corpo, ele recuou. Ele jogou a arma de madeira de lado e estendeu a mão para o filho. Sua respiração estava pesada, mas seu olhar havia mudado.
— Você tem o fogo, Nakht. Mas o fogo sem uma forja apenas consome o que toca. — Madoc ajudou o filho a se levantar, limpando a poeira do ombro do rapaz com uma firmeza quase dolorosa. — Você provou que tem o espírito de um guerreiro, mas provou que ainda é uma presa.
Madoc olhou para Tuya, que assistia a tudo abraçada a Akhmose. O olhar entre o casal foi longo e carregado de uma tristeza inevitável.
— Se você vai comigo — disse Madoc, voltando-se para o filho —, você não será meu filho nas estradas do norte. Será meu aprendiz. E o treino de hoje parecerá um carinho comparado ao que eu farei com você para garantir que você volte vivo para sua mãe.
Nakht assentiu, sentindo o peso da responsabilidade esmagar seus ombros. A vitória não tinha gosto de glória, mas de um dever sombrio.
— Sim, mestre — respondeu Nakht, a voz firme.
Madoc olhou para o horizonte, onde a primeira estrela começava a brilhar.