O sol já estava no zênite, filtrando-se pelas frestas do teto de palha em colunas de luz dourada e impiedosa, quando os olhos de Nakht finalmente se abriram.
Ele sentiu a cabeça pesada, como se tivesse sido submerso nas águas profundas do Nilo, e um gosto residual de lótus amargava sua língua. Por um momento, a confusão reinou; ele tentou se levantar rapidamente, mas suas pernas falharam, enviando-o de volta à esteira.
— Pai? — a voz de Nakht saiu como um rascunho seco, um sussurro quebrado no silêncio da casa.
Não houve resposta. Apenas o som rítmico de algo sendo moído em um pilão lá fora.
O pânico começou a serpentear em seu peito, dissipando o torpor das ervas. Ele rastejou até a porta, apoiando-se nas paredes de adobe que pareciam girar.
No centro da sala, Tuya estava sentada. Ela não estava cozinhando, nem limpando. Apenas olhava para o lugar onde Madoc costumava se sentar. Quando viu o filho, seus olhos, vermelhos e inchados, revelaram toda a verdade que Nakht se recusava a aceitar.
— Onde ele está? — Nakht perguntou, a voz subindo de tom enquanto o desespero lutava com a náusea. — O amanhecer... nós íamos partir ao amanhecer!
— Ele já se foi, meu filho — Tuya disse, a voz desprovida de emoção, morta pelo cansaço da vigília. — Ele partiu quando a Estrela da Manhã ainda reinava no céu.
Nakht cambaleou até a mesa. Ele viu o papiro do Faraó, agora levado, e o espaço vazio onde a bolsa de viagem de Madoc repousava. A compreensão da traição o atingiu como um golpe físico, pior do que qualquer rasteira que o pai lhe dera no pátio.
— Ele me deu veneno... — Nakht sibilou, as lágrimas de fúria e mágoa transbordando. — Ele me desafiou, me chamou de homem, me deu sua mão... e depois me dopou como se eu fosse um animal doente!
Ele desferiu um soco na parede de barro, um grito de agonia escapando de seus pulmões.
— Ele me desonrou, mãe! Ele me deixou aqui para apodrecer enquanto vai morrer sozinho naquele matadouro!
Um pequeno movimento no canto da sala o interrompeu. Akhmose estava parado ali, segurando a khopesh de madeira de Nakht contra o peito. O rosto da criança era uma máscara de medo; ele nunca vira o irmão mais velho naquele estado de fúria cega.
— Nakht... — chamou o pequeno, a voz trêmula. — O papai disse que você ia cuidar de mim. Ele disse que você era o novo escudo da casa.
O adolescente congelou. Ele olhou para o irmão mais novo, depois para a mãe, que agora soluçava silenciosamente. A fúria que queimava em suas veias começou a dar lugar a uma resignação fria e amarga.
O plano de Madoc fora perfeito: ele não apenas garantira que Nakht ficasse para trás, mas deixara o peso da proteção da família sobre seus ombros, sabendo que o senso de dever do jovem seria mais forte que seu desejo de vingança.
Nakht respirou fundo, sentindo o peito doer. Ele caminhou até Akhmose e, com um movimento lento, pegou a espada de madeira das mãos do menino.
— Ele é um velho teimoso e trapaceiro — Nakht murmurou, a voz carregada de uma mágoa profunda, mas contida. — Ele acha que pode resolver o mundo sozinho.
Ele olhou para o céu através da porta aberta, na direção da estrada que levava ao norte, para Mênfis e para os demônios que aguardavam.
— Que os deuses o tragam de volta — Nakht sussurrou, uma prece que soava como uma promessa de conflito. — Porque eu me recuso a deixá-lo morrer sem antes gritar com ele.
Ele estendeu a mão para Akhmose.
— Venha, pequeno leão. Vamos para o rio. Se o escudo desta casa ficou comigo, então é melhor começarmos a trabalhar.
Tuya levantou o olhar, vendo o filho guiar o caçula para fora. Nakht caminhava com os ombros pesados, não mais com a arrogância de um jovem guerreiro, mas com a paciência resignada de um homem que aceitara o fardo que lhe fora imposto