O horizonte da capital das terras de Kemet erguia-se como uma miragem de calcário branco e ouro sob o sol inclemente. Madoc, montado em seu camelo, atravessava os portões monumentais da cidade enquanto o calor subia do calçamento em ondas distorcidas.
Ele não olhava para as estátuas colossais nem para o movimento frenético dos mercados.
seus olhos estavam fixos no palácio real, o lugar que ele chamara de lar em uma vida que parecia pertencer a outro homem.
A poeira do deserto cobria suas vestes escuras, mas não conseguia esconder a postura ereta de quem comandara exércitos. Ao chegar ao pátio interno, servos correram para segurar as rédeas de seu animal. Madoc desceu com movimentos precisos, ignorando a fadiga que latejava em suas cicatrizes.
Ele foi conduzido diretamente ao Grande Salão de Audiências. O ar ali era saturado pelo perfume de lótus e incenso de alta qualidade, um contraste gritante com o cheiro de areia e suor da Vila Núbia.
No centro do salão, cercado por uma multidão de vizires de mantos longos, sacerdotes de cabeças raspadas e acadêmicos que sussurravam sobre rolos de papiro, estava o Faraó Kanak.
Kanak era a imagem viva do sol no ápice. Sua pele bronzeada brilhava sob o óleo fino, adornada por braceletes de ouro maciço que capturavam a luz das tochas. Ele vestia sedas de um azul profundo, a cor do céu noturno, e seus cabelos pretos, longos e sedosos, caíam sobre os ombros com uma perfeição quase divina. Quando seus olhos encontraram os de Madoc, o semblante severo do soberano se partiu em um sorriso genuíno.
O Faraó ergueu a mão, silenciando o murmúrio da nobreza.
— Deixem-no passar! — a voz de Kanak ecoou, potente e clara. — O deserto devolveu o que me pertencia.
Madoc caminhou entre os nobres, que se afastavam com um misto de respeito e temor.
Ele parou diante do trono e, antes que pudesse fazer a reverência formal, Kanak desceu os degraus e colocou as mãos sobre os ombros do meio-irmão. O abraço foi breve, mas carregado de uma irmandade que os anos e a distância não conseguiram apagar.
— Você demorou, meu irmão — sussurrou Kanak, para que apenas Madoc ouvisse, antes de se afastar e retomar sua postura majestosa diante da corte. — Mas vejo que as areias não tiraram a força de seus olhos.
— O chamado do Faraó não é algo que se ignore, Kanak — respondeu Madoc, a voz rouca soando como trovão no salão silencioso. — Especialmente quando o chamado cheira a sangue e sombras.
Kanak voltou-se para a assembleia, sua expressão tornando-se subitamente gélida.
— Senhores, guardem suas dúvidas e seus protocolos. Aquele que está diante de vocês não é apenas o meu sangue. É Madoc, o homem que ensinou o aço egípcio a cantar nas fronteiras do sul. Se os demônios marcham contra nós, eu não aceitarei conselhos de quem só conhece o brilho do ouro. Eu ouvirei o melhor guerreiro que estas Duas Terras já viram.
Um vizir idoso, cujos dedos estavam manchados de tinta, adiantou-se, tremendo levemente.
— Majestade... os relatórios de Pi-Ramsés são aterrorizantes. Não são apenas homens revoltados. Dizem que os mortos se levantam e que o céu escurece onde o inimigo pisa.
Kanak olhou para Madoc, uma pergunta silenciosa em seus olhos. Madoc cruzou os braços sobre o peito, sentindo o peso da responsabilidade que tentara enterrar na Vila Núbia.
— O Vizir está certo em temer — disse Madoc, sua voz cortando o salão como uma lâmina. — Mas o medo é o que alimenta o que está vindo. Se o Salão de Guerra foi convocado, é porque a estratégia comum falhou. Kanak, eu não vim aqui para ouvir lamentos. Vim para saber quanto tempo temos antes que o Nilo comece a correr negro.
Kanak assentiu, a seriedade voltando ao seu rosto bronzeado. Ele sinalizou para que os acadêmicos abrissem o grande mapa de papiro sobre a mesa de cedro.
— Então vamos começar, irmão. A noite está chegando, e desta vez, ela traz dentes.