Os dias que se seguiram à partida de Madoc trouxeram uma atmosfera estranha e vibrante à Vila Núbia. Algo havia se deslocado em seu eixo silencioso, e o centro desse novo mundo era Enkidu. O viajante de cabelos perolados deixara de ser apenas um hóspede; tornara-se um acontecimento, um fenômeno que a vila jamais testemunhara.
Onde quer que passasse, com o gato comodamente instalado sobre o ombro e os lagartos coloridos deslizando preguiçosos pela túnica, atraía olhares como se fosse um astro em movimento. As conversas cessavam por um instante, passos desaceleravam, e até o vento parecia curioso.
— Enkidu… aceitaria algumas frutas? Estão maduras hoje — arriscou uma jovem, aproximando-se com uma cesta cuidadosamente arrumada.
Ele lançou um olhar rápido às tâmaras, depois ao sorriso treinado demais para ser inocente.
— Aceito as frutas — respondeu com suavidade. — O resto é gentil demais para um viajante cansado.
As risadas surgiram logo atrás dela, acompanhadas de cochichos mal disfarçados.
E não eram apenas as moças solteiras. Mulheres casadas, donas de casa experientes e até viúvas discretas encontravam motivos improváveis para cruzar seu caminho.
— Dizem que você entende os sinais do céu — comentou uma senhora, ajustando o véu com falsa casualidade. — Acha que a cheia do rio virá cedo este ano?
Enkidu ergueu os olhos, fingindo ponderar longamente.
— Se vier cedo, será pura inveja — disse por fim. — O rio anda incomodado com tanta atenção que não é dele.
A mulher levou a mão à boca, rindo alto demais para alguém que apenas fizera uma pergunta, e afastou-se sob olhares cúmplices.
Nem mesmo os moradores mais antigos deixaram de notar a mudança.
— Desde quando o clima virou assunto tão popular por aqui? — resmungou um ancião à sombra de uma palmeira.
— Desde que o viajante chegou — respondeu outro, observando o vai e vem. — Nunca vi tanta gente preocupada com colheitas.
Enkidu, por sua vez, lidava com tudo com um humor ácido e um carisma quase ofensivo. Quando uma jovem mais ousada se aproximou demais e sussurrou:
— Não sente falta de alguém para dividir suas noites?
Ele apontou com o queixo para o gato em seu ombro.
— Já tenho companhia suficiente. Esta aqui ronca e não faz perguntas.
O gato miou, como se concordasse com a afirmação.
Por um breve instante, longe dos olhares, Enkidu deixou escapar um sorriso torto.
— Atravessar desertos era mais simples do que isso — murmurou, enquanto um dos lagartos estalava a língua, completamente indiferente ao caos que seu dono causava.
No pátio da casa de Tuya, porém, o tom era outro. O treinamento dos irmãos tomara um rumo tenso. Nakht tentava ensinar ao pequeno Akhmose como canalizar a Aura para a espada de madeira, mas o menino tremia de frustração, o rosto vermelho de esforço contido.
— Não é assim, Akhmose! — insistia Nakht. — Sinta o calor no sangue, empurre-o para a mão!
A severidade em sua voz era a mesma que herdara do pai.
Sentado sobre uma mureta, descascando uma tâmara com desinteresse aparente, Enkidu soltou uma risada curta, quase musical.
— Você está tentando ensinar um falcão a cavar buracos, Nakht — disse, saltando da mureta com uma leveza que parecia ignorar a gravidade. — Pare de torturar o menino.
— Ele precisa aprender a Aura — rebateu Nakht, enxugando o suor. — É a base de todo guerreiro. É o que o torna forte.
— A Aura… — Enkidu fez uma careta divertida. — A Aura é o consolo dos que não conseguem ouvir a música completa. Energia bruta, física. Uma versão ruidosa e diluída do que o universo realmente oferece. Útil para quem só sabe bater, admito. Mas olhe para o seu irmão.
Ele se aproximou de Akhmose e pousou a mão, leve como uma pena, sobre a cabeça do garoto.
— Akhmose não tem o corpo de um touro, Nakht. Ele tem a alma de um condutor. O que ele carrega não é esse “calor no sangue” que você tanto valoriza, mas uma afinidade rara com o Prana puro. A Espiriturgia não é sobre endurecer músculos — concluiu, com um brilho sério nos olhos. — É sobre harmonizar a vontade com a própria trama da existência.
Para demonstrar, Enkidu pediu a espada de madeira de Nakht. Mesmo não sendo musculoso, a pegada de Enkidu na arma era absoluta. Sem qualquer esforço visível, ele girou a madeira. Não houve o brilho dourado e denso da Aura, mas sim um leve tremor no ar, uma distorção óptica como o calor sobre a areia. Ele golpeou uma pedra de granito próxima e o impacto não fez barulho, mas a pedra simplesmente se desintegrou em poeira fina.
Nakht arregalou os olhos. Aquilo não era força física. Era algo muito mais profundo.
— A Aura é medíocre porque ela se limita ao que o corpo pode aguentar — explicou Enkidu, voltando ao seu tom brincalhão. — O Prana, a verdadeira Espiriturgia, não tem limites. Pequeno Akhmose, feche os olhos. Não tente empurrar nada. Apenas imagine que você é o rio, e que o mundo é a margem.
Sob a orientação de Enkidu, a atmosfera do treino mudou. Nakht, embora inicialmente ofendido por ver sua técnica chamada de medíocre, não podia negar os resultados. Ele via Enkidu realizar proezas de força física absurdas como erguer cestos de grãos que três homens mal moviam sem nunca perder o fôlego ou tensionar um músculo sequer.
À noite, ao redor da mesa, Enkidu era a alma da casa. Ele contava histórias de terras além do mar, de cidades que voavam e de um dilúvio que limpou o mundo, falando de eventos milenares com a familiaridade de quem vira tudo pessoalmente. Tuya observava-o, sentindo que aquele homem ou seja lá o que ele fosse estava curando a ferida que a partida de Madoc deixara.