O flanco direito do exército egípcio era um cenário de precisão mecânica contra o caos biológico.
A Legião de Anúbis movia-se com uma simetria assustadora com xdus mil soldados com cabeças de chacal, cujos corpos de liga dourada refletiam o sol, formavam uma barreira de lanças-cetro que disparavam rajadas de Prana em intervalos rítmicos. No entanto, o ritmo deles estava sendo estraçalhado por um único ser.
Argus-Zul, o Nephilim de quatro braços, era uma tempestade de carne morena e olhos cintilantes. Ele não corria; ele fluía através do campo de batalha como um mercúrio amaldiçoado. Cada um de seus quatros braços operava com uma consciência independente, girando espadas rituais que deixavam rastros de vácuo no ar.
— Previsão de trajetória ineficaz — ecoava friamente na rede neural dos soldados de Anúbis.
Argus-Zul saltou sobre uma falange de chacais. No ar, seus olhos espalhados pelo corpo piscaram em uníssono. Ele previu o disparo de trinta lanças antes mesmo que os gatilhos de Prana fossem acionados. Com uma contorção impossível, ele girou no ar como um pião de lâminas, desviando dos projéteis e caindo no centro da formação.
Em um movimento contínuo, suas quatro espadas traçaram um lótus de sangue. Seis legionários de Anúbis foram decepados instantaneamente, suas almas sintéticas escapando em faíscas azuis.
— Vocês são belos, construtos — sibilou Argus-Zul, cravando uma espada no crânio de metal de um soldado e usando o corpo como escudo contra a rajada seguinte. — Mas falta-lhes o desespero. Vocês não têm medo da morte, e por isso, não sabem como lutar por suas vidas!
Percebendo a brecha na defesa, uma Esfinge de Guerra próxima tentou intervir. O imenso construto de pedra e metal girou seu torso, os olhos de cristal carregando uma descarga solar massiva. O Escriba em seu interior, um jovem chamado Seti, travou a mira em Argus-Zul.
Mas o Nephilim foi mais rápido. Ele não fugiu do raio, ele correu em direção à base da pata da Esfinge. Usando a velocidade de sua massa muscular superior, Argus-Zul escalou o flanco de pedra do construto enquanto o feixe de energia solar incinerava o solo onde ele estava milissegundos antes.
Argus-Zul chegou ao topo, na "nuca" da Esfinge, onde o núcleo de quartzo era mais exposto. Ele cravou duas de suas espadas nas juntas mecânicas e, com os outros dois braços, começou a socar a couraça com uma força que distorcia o metal.
— Integridade do núcleo comprometida! — o grito de Seti ecoou na rede neural antes de ser cortado por um estalo ensurdecedor.
Argus-Zul arrancou o núcleo de cristal com as próprias mãos. A Esfinge soltou um último gemido de vapor e Prana, desmoronando como uma montanha de entulho, esmagando dezenas de zumbis e soldados sob seu peso. O Nephilim ficou de pé sobre os destroços, erguendo o núcleo brilhante como um troféu antes de esmagá-lo, extinguindo a vida do Escriba.
Na retaguarda, dentro da câmara de comando protegida por escudos de força, o Vizir Amenhotep observava a carnificina através do seu implante ocular. Ele era um homem de oitenta anos, sua pele parecia papiro enrugado e seus pulmões dependiam de respiradores alquímicos. Ele sabia que Argus-Zul acabaria por romper o flanco e chegar aos sacerdotes se nada mudasse.
Amenhotep tocou o bracelete de ouro que o ligava à rede neural. Sua mente, embora em um corpo frágil, ainda era uma das bibliotecas mais vastas de tática militar do Egito.
— Imotepe... — a voz mental do Vizir era firme, apesar da idade. — Transfira minha consciência para a Unidade-Alpha da Legião de Anúbis. Agora.
— Vizir, seu sistema nervoso não suportará o retorno — a voz de Imotepe soou, carregada de pesar. — Se o corpo mecânico for destruído ou se o choque for grande demais, sua alma se dissipará no Duat sem chance de julgamento.
— Este corpo já é uma tumba, meu príncipe — respondeu Amenhotep, fechando os olhos. — A Legião é eficiente, mas falta-lhes a malícia. Eles lutam com lógica, e Argus-Zul luta com instinto. Deixe-me dar a esses chacais a vontade de um homem que não tem nada a perder.
Imotepe, reconhecendo a nobreza do sacrifício, iniciou o mantra de Transmigração de Ka.
No campo de batalha, um dos soldados de Anúbis, maior que os outros e adornado com marcas azuis de comando, paralisou por um segundo. Seus olhos mecânicos, antes de um vermelho estático, brilharam com uma chama azul intensa e consciente.
Amenhotep sentiu o poder. Não era a dor crônica de seus ossos, mas a frieza absoluta do ouro e do Prana. Ele girou a lança-cetro, sentindo o peso perfeito da arma.
Argus-Zul, sentindo a mudança na aura, saltou dos destroços da Esfinge em direção ao novo alvo.
— Outra lata de lixo? — o Nephilim zombou, descendo com suas quatro espadas em um golpe em X.
Mas Amenhotep não recuou nem bloqueou de forma convencional. Ele usou a técnica de Esgrima de Heliópolis, algo que não era programado nos soldados básicos. Ele inclinou o corpo milimetricamente, deixando as lâminas de Argus-Zul passarem raspando pelo metal de seu ombro, e desferiu um soco com a base da lança diretamente no plexo solar do Nephilim.
O impacto enviou Argus-Zul para trás, cuspindo sangue moreno.
— Você... — Argus-Zul rosnou, todos os seus olhos focando no soldado. — Você não é um autômato.
— Sou o Vizir do Faraó, criatura — a voz de Amenhotep saiu pelos alto-falantes do soldado, metálica e autoritária. — E hoje, vou te ensinar que a estratégia de mil anos supera a visão de mil olhos.
O duelo recomeçou, mas desta vez, a coreografia era outra. Amenhotep comandava os outros soldados através da rede neural, transformando a Legião em uma extensão de seus próprios membros. Enquanto ele enfrentava Argus-Zul em um combate de curta distância bloqueando quatro espadas com uma lança através de giros magistrais e paradas precisas os outros soldados formavam um círculo ao redor, disparando apenas quando Amenhotep criava aberturas.
Argus-Zul estava sendo encurralado. Ele tentava prever o futuro, mas a mente de Amenhotep era um labirinto de fintas e armadilhas táticas.
— Agora! — comandou Amenhotep.
Ele cravou a ponta da lança no solo, liberando uma descarga de Prana que paralisou os tendões do Nephilim por um segundo. Foi o suficiente. Amenhotep avançou, a cabeça de chacal de ouro brilhando, e desferiu uma estocada que atravessou o peito principal de Argus-Zul.
O Nephilim gritou, dois de seus braços tentando decepar a cabeça do Vizir, mas a Legião de Anúbis disparou em uníssono, as rajadas de energia sustentando Argus-Zul no ar enquanto Amenhotep girava a lança dentro de seu peito, destruindo seu coração demoníaco.
Argus-Zul caiu, seus muitos olhos finalmente se fechando. Amenhotep, no corpo do soldado, cambaleou. A carga mental era insuportável. Faíscas saíam de suas juntas mecânicas.
— Para o Egito... para a luz... — sussurrou o Vizir, antes de sua consciência começar a desvanecer, deixando o corpo de ouro cair de joelhos sobre o inimigo derrotado.