O silêncio que se seguiu ao impacto solar não era de paz, mas de vácuo.
No epicentro da cratera vítrea, o calor era tão intenso que o ar distorcia as imagens dos soldados ajoelhados. Kanak, do alto do Olho de Rá, respirava com dificuldade, sentindo o Prana de seus pulmões se esgotar, mas sustentava um olhar de triunfo. Os três Ka-Sahu permaneciam estáticos, como estátuas monumentais de luz, aguardando a dissipação da fumaça.
Madoc, contudo, não baixou sua guarda. Seus olhos focaram em Malphas. O gigante de obsidiana, mesmo ferido e cercado, não exibia o desespero de um filho que acabara de ver o pai ser atomizado. Ele mantinha um sorriso rictual, os olhos fixos na cratera.
— Algo está errado... — Madoc pensou, a mensagem ecoando fracamente na Rede Neural, que agora sofria interferência de estática negra. — Ele não morreu. Kanak, saia daí agora!
Antes que o Faraó pudesse processar o aviso, o solo de vidro se partiu.
Uma mão avermelhada, maior e mais densa do que antes, emergiu das profundezas carbonizadas. Os dedos se cravaram na areia com uma força que fez a terra gemer. No mesmo instante, o céu de Kemet foi violado. A luz de Rá não foi apenas obscurecida; ela foi devorada. Um disco de sombra absoluta moveu-se sobre o sol, criando um Eclipse Antinatural que lançou o campo de batalha em uma penumbra gélida.
Dahaka ergueu-se. Ele não exalava mais apenas ódio; ele exalava compreensão.
Rá, sentindo a profanação de seu domínio, bateu suas asas de fogo para alçar voo e retomar a vantagem solar. Ele era o ápice, a luz que dissipa o mal. Mas, no instante em que seus pés deixaram o chão, um rastro de fumaça negra o interceptou. Dahaka, movendo-se em uma velocidade que desafiava as leis da física que os deuses haviam estabelecido, agarrou a perna do deus dourado.
— Vocês brilham tanto... — a voz de Dahaka não era mais um rugido, mas uma vibração que ressoava diretamente na alma de Kanak. — Mas a luz é apenas uma distração para o vazio que vem depois.
Dahaka não estava apenas lutando; ele estava analisando. Seus olhos brilhavam enquanto sentia a frequência do Prana de Rá.
Ele percebeu o fluxo de energia que vinha dos sacerdotes e a conexão sanguínea com o Faraó. Ele compreendeu as limitações daquela forma divina.
Set rugiu, avançando como um vendaval azul para libertar seu irmão. Ele colidiu contra Dahaka com um soco que teria deslocado o eixo de uma montanha, forçando o Carrasco a soltar a perna de Rá. Contudo, Dahaka não caiu. Ele permaneceu suspenso no ar, segurando o pulso de Set com uma mão e rindo da tentativa de Osíris de atingi-lo pelas costas.
Rá e Osíris dispararam feixes combinados de ouro e escarlate, um ataque que deveria apagar qualquer existência. Mas Dahaka ergueu a mão livre e, de seus dedos, fluiu uma Barreira Abissal. A energia era densa, feita de uma substância que parecia matéria escura. Os ataques divinos não explodiram contra ela; eles foram absorvidos e distorcidos, gotejando no chão como luz morta.
— O Egito se orgulha de seus deuses — Dahaka proclamou sua voz abafando o som das espadas. — Mas vocês esqueceram o que reside no coração de Kush. A dor que eu colhi... o sofrimento de cada alma que eu reivindiquei... ela tem um nome.
Dahaka fechou os punhos. Milhares de gritos de agonia ecoaram do solo. O Prana corrompido que ele acumulara em Kerma se condensou atrás dele, moldando-se em uma forma serpentina e titânica que eclipsava as próprias Esfinges.
Apófis, a Serpente do Caos Primordial, emergiu da escuridão. Não era um Ka-Sahu criado por sacerdotes, mas uma egrégora de puro tormento.
A criatura avançou. Rá tentou detê-la com sua lança solar, mas Apófis atravessou a luz como se fosse névoa. A serpente envolveu Osíris e Set em suas espirais de sombra, suas presas injetando um veneno espiritual que fazia a forma divina dos deuses oscilar e rachar. Rá disparou toda a sua carga restante, mas Apófis abriu as mandíbulas e devorou a luz, tornando-se ainda maior.
O impacto da ascensão de Apófis enviou uma onda de choque que fritou os sistemas do Olho de Rá. Dentro da nave, Kanak gritou. Ele não sofreu apenas um dano físico; o elo espiritual com os deuses foi violentamente chicoteado de volta para ele. Sangue escorreu de seus olhos e ouvidos enquanto ele caía do trono de comando.
— O... o vínculo... está quebrando... — a voz de Kanak falhou na Rede Neural.
Com o Faraó debilitado, o brilho dos três deuses começou a piscar. Rá caiu de joelhos, suas asas de luz desintegrando-se sob a pressão da escuridão de Dahaka. Set e Osíris foram arremessados contra as dunas, suas formas físicas perdendo a definição, tornando-se borrões de energia exausta.
Madoc viu o horizonte ser dominado pela silhueta de Dahaka e pela imensidão de Apófis.
O eclipse era total agora.
Dahaka flutuou sobre o campo de batalha, um deus negro em um mundo sem sol. Ele olhou para Madoc, e depois para o Disco Voador que perdia altitude.
— O sol de vocês se pôs, egípcios — disse Dahaka, e sua aura opressora finalmente esmagou a última resistência moral do exército. — Agora, vocês conhecerão a verdadeira eternidade.
A guerra, que momentos antes parecia vencida pela luz, agora mergulhava no abismo da Serpente.