O eclipse total não trouxe apenas trevas, trouxe o cheiro de ozônio queimado e o fim da esperança para milhares.
O campo de batalha de Kush tornou-se um moedor de carne sob a sombra de Apófis.
A serpente do caos serpenteava entre as colunas de soldados egípcios, desintegrando Esfinges com um simples roçar de suas escamas de sombra, enquanto as legiões de mortos-vivos de Dahaka avançavam como uma maré imparável sobre os sobreviventes.
No interior do Disco Voador Dourado, o cenário era de colapso. Faíscas saltavam dos painéis de cristal e o ar estava rarefeito. Kanak jazia no chão, o sangue real manchando as sedas azuis, sua conexão neural com os deuses agindo como um fio de cobre em curto-circuito, fritando sua consciência.
Imotepe atravessou os destroços, as mãos brilhando com uma Espiriturgia de cura emergencial.
— Kanak! Fique comigo! — gritou o sacerdote, segurando o irmão pelos ombros.
O Faraó abriu os olhos, que agora eram apenas órbitas brancas emitindo uma luz pálida. Ele agarrou o pulso de Imotepe com uma força febril.
— Imotepe... não há mais... tempo. Eu sinto Rá se desvanecendo. O eclipse está cortando a fonte dele...
— Eu posso curar você, posso estabilizar o vínculo! — Imotepe começou o mantra, mas Kanak o interrompeu.
— Não cure o homem... salve o Deus. Una minha alma diretamente à essência de Rá. — O pedido foi um sussurro carregado de morte.
Imotepe empalideceu. Como Sumo Sacerdote, ele conhecia o perigo. Rá não era apenas uma ferramenta! ele era uma força cósmica. Unir uma alma mortal a um Ka-Sahu daquela magnitude sem o filtro do trono significava que Kanak deixaria de ser Kanak. Ele seria diluído na vastidão solar, uma gota de água em um oceano de fogo, perdendo suas memórias, sua vontade, sua individualidade.
— Você será consumido, irmão. Não sobrará nada para o julgamento de Osíris.
— Que eu queime, então... para que o Egito veja o amanhecer. — Kanak tossiu sangue dourado. — Faça isso. Agora!
Imotepe, com lágrimas nos olhos, iniciou o ritual proibido.
No centro do caos, Anúbis emergiu da cratera onde fora lançado. Seu corpo de ouro e Prana estava vincado e rachado, mas ele não recuou. Ele viu Apófis avançar para devorar a essência enfraquecida de Set e Osíris.
Com um rugido que misturava vozes mecânicas e a alma do Vizir, Anúbis lançou seu cetro. A arma girou como uma serra de luz, cortando a névoa de Apófis. O gigante de ouro chocou-se contra Dahaka e a serpente ao mesmo tempo, transformando-se em um escudo vivo. Ele recebia golpes que teriam pulverizado montanhas, mantendo-se de pé por pura força de vontade e o sacrifício dos núcleos de Prana que ele agora exauria até o limite. Cada segundo que ele ganhava era pago com a integridade de sua alma fundida.
Distante do centro, Madoc e Malphas travavam uma luta que o mundo esquecera. Malphas, instável pela morte de um irmão e o ferimento do outro, atacava com uma gravidade que dobrava o próprio espaço.
Madoc percebeu que a técnica convencional não bastaria. Ele olhou para o horizonte, pensando em Tuya e nos meninos, e tomou sua decisão. Ele fechou os circuitos de sua rede neural e forçou sua Aura a reverter o fluxo. Ele não estava mais gerando energia, ele estava queimando seu próprio tempo de vida.
O cabelo de Madoc, antes escuro, tornou-se branco instantaneamente enquanto sua expectativa de vida de décadas era consumida em segundos de poder absoluto. Sua Aura azul tornou-se uma chama negra e branca de intensidade estelar.
— O que é isso? — Malphas recuou, sentindo a pressão.
Madoc não respondeu. Ele desapareceu.
A coreografia que se seguiu não foi uma luta, foi uma execução. Madoc reapareceu atrás de Malphas, desferindo um corte que removeu a asa de obsidiana do gigante. Malphas tentou regenerar, mas a Aura de Madoc era corrosiva, ela queimava o Prana antes que a carne pudesse se fechar.
Madoc tornou-se um borrão. Dez cortes. Vinte. Cinquenta. Cem. Duzentos. Trezentos. Quatrocentos. Quinhentos. Seiscentos. Setecentos. Oitocentos. Novecentos. Mil.
A khopesh de Madoc atravessou o esterno de Malphas, depois o pescoço, depois as articulações. O gigante gritava enquanto era dilacerado repetidamente. Malphas tentou aumentar a gravidade, mas Madoc simplesmente cortou o campo gravitacional ao meio com um golpe de vontade pura.
Com um último rugido de fúria, Madoc cravou a mão no peito de Malphas e expandiu sua energia interna. O gigante de obsidiana explodiu de dentro para fora, seus fragmentos tornando-se pó sob o poder sacrificial de Madoc.
— MALPHAS! — O grito de Dahaka ecoou, dilacerando as nuvens do eclipse.
Pela primeira vez, a frieza analítica de Dahaka quebrou. O luto transformou-se em uma fúria cega que o fez esquecer a barreira abissal que mantinha contra Anúbis. Ele virou-se para onde Malphas caíra, deixando o flanco exposto.
Anúbis não desperdiçou a chance. Amenhotep canalizou o que restava da energia das almas da Legião em um único ataque de carga total.
— Pelo Egito!
Anúbis disparou um feixe de singularidade azul de seu peito, atingindo Dahaka diretamente no centro de sua massa. O impacto não causou apenas uma explosão ele gerou uma onda de repulsão que arremessou o colossal Dahaka por milhas, rasgando o solo e as dunas, afastando o Carrasco para além do horizonte visível.
O silêncio caiu momentaneamente.
Madoc caiu de joelhos, envelhecido, sua força esvaindo-se. Anúbis paralisou, o corpo de ouro fumegando. E no Disco Voador, a alma de Kanak começou a se fundir com o sol, preparando o retorno de algo que não era mais inteiramente humano.
A guerra ainda não havia terminado, mas o preço da sobrevivência fora gravado na carne e no espírito dos defensores de Kemet