O silêncio do plano mortal foi substituído por um rugido que não era som, mas o somatório de todas as vibrações do universo.
Quando Kanak abriu os olhos, ele não viu o interior do Disco Voador, nem o rosto preocupado de Imotepe. Ele estava no Domínio de Atum, o plano existencial superior onde a geometria da realidade se dobrava diante da vontade divina.
Diante dele, não havia céu ou horizonte, apenas Ela.
Uma estrela colossal, de proporções que desafiavam a sanidade humana, ocupava todo o cosmos. Era uma massa de fogo branco-incandescente, cujas pulsações faziam o tempo e o espaço tremerem. Abaixo dessa magnitude, rios infinitos de um ouro líquido e etéreo ascendiam em espirais era o Prana da fé. Bilhões de preces, rituais e esperanças do povo do Egito fluíam como veias de luz, alimentando o conceito primordial de Rá.
— Então... é aqui que a eternidade queima — pensou Kanak, e seu pensamento ecoou como um trovão naquele vazio.
A cada passo dado em direção à estrela, a agonia começava. A alma de Kanak não estava apenas sentindo calor, ela estava sendo desintegrada. A periferia de seu ser, suas memórias de infância, o rosto de sua mãe, o som da risada de Madoc... tudo começava a evaporar como orvalho diante de uma fornalha.
— Dói... deuses, dói mais do que a morte — ele rugiu internamente, enquanto sua pele espiritual era carbonizada e instantaneamente recriada pelo fluxo de Prana. — Mas se eu recuar agora, o Egito será apenas um registro na história das muitas conquistas de Dahaka.
Ele mergulhou na primeira camada da estrela. A dor tornou-se absoluta. Era como se cada átomo de sua alma estivesse sendo martelado em uma bigorna cósmica. Ele sentia Rá tentando dissolvê-lo, não por malícia, mas porque a luz não tolera a sombra da individualidade.
— Eu sou o Faraó! — gritou ele, forçando seus pés espirituais a avançar através do plasma solar. — Eu sou o recipiente da vontade de Kemet! Eu não sou apenas um homem, eu sou o elo entre o céu e a terra!
Kanak atravessou as camadas de energia fotônica, ignorando o fato de que sua consciência estava sendo esticada até o limite da ruptura. Ele atingiu o Núcleo Branco. Ali, o silêncio era total. Era o ponto de singularidade onde Rá existia em sua forma mais pura: um ponto de luz que continha o nascimento e o fim de todos os sistemas solares.
Kanak estendeu as mãos para o núcleo.
— Venha... — ele ordenou, sua voz misturando-se ao rugido da estrela. — Habite o vaso de carne. Seque minhas lágrimas com seu fogo. Torne-se eu, para que eu possa me tornar Você!
O ato de puxar a energia do núcleo foi como tentar engolir o oceano. A vastidão divina inundou a alma de Kanak. Ele sentiu seu ego ser esmagado. Por um momento, ele esqueceu seu nome. Esqueceu o que era ser humano. Ele era apenas um grito de resistência em meio a uma explosão infinita. Sua alma se expandiu, rachando e se fundindo, sendo refinada pelo fogo que criava mundos.
— Mais... eu preciso de mais... — ele pensava, enquanto sua essência era queimada e reconstruída em uma liga que não pertencia mais à terra.
Lentamente, a dor começou a transmutar-se em algo diferente. Uma frieza terrível e uma autoridade que não conhecia o medo. Kanak estava moldando sua alma para ser o cálice da divindade. Ele não estava sendo apenas consumido, ele estava domando a chama.
Entre o colapso e a ascensão, o impossível foi selado. A alma de Kanak deixou de ser apenas um sopro mortal. Ela tornou-se um vaso de contenção para o Sol.
— Rá... — ele sussurrou, e agora sua voz continha o peso de dez mil anos de história. — Vamos descer. Há uma sombra que precisa conhecer a verdadeira luz.
Kanak ainda não era um deus completo, mas ele não era mais o homem que caíra do trono. Ele era uma ponte entre o homem e o conceito, uma arma solar pronta para ser disparada contra o eclipse de Dahaka. No plano físico, o corpo do Faraó no Disco Voador começou a brilhar com uma luz que derretia o ouro das paredes. O retorno estava próximo.