O campo de batalha de Kush estava mergulhado no crepúsculo eterno do eclipse, um cenário onde a lógica da guerra havia sido substituída pelo horror mitológico.
Anúbis, a entidade fundida da Legião, movia-se como um relâmpago dourado ao redor da imensidão de Apófis. A serpente do caos era uma força da natureza, cada bote rasgava o tecido da realidade. Anúbis não tentava golpear a carne inexistente da criatura, ele desenhava. Usando a ponta de seu cetro, ele traçava selos de contenção no ar, ancorando o corpo de Apófis às areias de Kush.
Apófis rugiu, uma vibração que desintegrou os selos antes mesmo de serem completados. A pressão era esmagadora. Cada vez que Anúbis desviava de uma mandíbula, ele sentia o peso do caos tentando corroer seu metal sagrado. Ele estava no seu limite, ganhando segundos com o preço de sua própria integridade.
Distante dali, Madoc era a imagem da ruína. Seus cabelos brancos como a neve caíam sobre o rosto sulcado por rugas que não deveriam estar lá. Ele tentava respirar, mas seus pulmões, envelhecidos prematuramente pelo sacrifício da essência, pareciam cheios de vidro quebrado.
Subitamente, a escuridão à sua frente se condensou. Dahaka retornou. Ele não vinha caminhando, ele era um projétil de ódio.
Antes que Madoc pudesse sequer erguer a mão, os dedos avermelhados de Dahaka se fecharam em torno de seu pescoço. O impacto contra o solo abriu uma cratera. Dahaka ergueu o herói de Kemet com uma única mão, seus olhos injetados de sangue.
— Onde está sua arrogância agora, pequeno lobo? — a voz de Dahaka era um trovão rouco. — Você matou meu filho. Eu vou quebrar cada ligação da sua alma antes de deixar você morrer.
O som foi horrível. O estalo do úmero de Madoc quebrando ecoou pelo campo silencioso. Madoc soltou um grito sufocado, o rosto retorcido de dor. Dahaka sorriu, um gesto cruel e desprovido de qualquer humanidade, e começou a apertar a caixa torácica de Madoc.
Anúbis viu a cena.
— MADOC! — O gigante de ouro tentou avançar, mas Apófis o chicoteou com a cauda de sombra, lançando-o de volta ao solo. — NÃO!
Dahaka ergueu o braço livre, a mão em forma de garra, envolta em uma energia negra corrosiva pronta para atravessar o coração de Madoc.
— Olhe para o seu Egito uma última vez — sibilou o Carrasco. — E veja-o queimar.
O braço de Dahaka começou a descer. Mas ele nunca atingiu o alvo.
Uma explosão de luz branca, tão pura que dissipou as sombras de Apófis por um raio de um quilômetro, atingiu o flanco de Dahaka. Um punho, envolto em chamas solares, colidiu contra a mandíbula do monstro. O som não foi de carne, mas de uma detonação sônica.
Dahaka foi arremessado como uma pedra por uma funda, atravessando três dunas antes de parar. Madoc caiu na areia, tossindo, olhando para cima com a visão turva.
A figura que pairava sobre ele não era uma construção de metal, nem uma gigante de luz. Era Kanak.
Mas não o Faraó que ele conhecia.
Kanak agora possuía uma estatura esguia e atlética, uma perfeição estética que doía aos olhos. Seus cabelos brancos brilhavam com reflexos de nebulosas azuis e verdes, dançando como chamas. Sua pele emitia uma radiância suave, tornando o eclipse irrelevante. Ele era a personificação do meio-dia em um corpo de homem.
Kanak — ou Rá — fechou os punhos e estalou o pescoço, um gesto humano carregado de uma intenção divina. Ele olhou para Madoc e sorriu, um brilho de calor reconfortante.
— Descanse, meu General. O sol finalmente nasceu.
Dahaka levantou-se entre os destroços, a mandíbula deslocada e pendente, expelindo um vapor escuro. Ele rugiu em desespero, disparando rajadas de energia abissal. Rá não voou ele simplesmente estava lá. Ele esquivou dos projéteis com inclinações mínimas, movendo-se com uma economia de movimento que humilhava a velocidade de Dahaka.
Em um piscar de olhos, Rá estava no espaço pessoal de Dahaka.
PUM.
Um soco direto no estômago fez Dahaka dobrar-se, vomitando um sangue escuro e espesso. Rá não deu trégua. Um gancho de direita conectou-se com o crânio de Dahaka, seguido por uma sequência de golpes tão rápidos que pareciam um único feixe de luz sólida atingindo o monstro.
Cada golpe de Rá deixava uma marca de queimadura solar na pele de Dahaka. O Carrasco tentou um contra-ataque desesperado, um uppercut carregado com toda a sua essência restante, atingindo o queixo de Rá em cheio. O impacto criou uma onda de choque que nivelou a areia ao redor.
Dahaka arquejou, esperando ver a cabeça de seu inimigo explodir.
Rá nem sequer moveu a cabeça. Ele permaneceu ali, absorvendo o impacto como se fosse uma brisa de verão. Ele olhou nos muitos olhos de Dahaka e sorriu. Um sorriso de absoluta certeza.
— Minha vez — disse Rá, sua voz suave como o amanhecer, mas pesada como o julgamento. — Vamos ver quanto tempo uma sombra resiste ao núcleo de uma estrela.
O medo, pela primeira vez na eternidade, brilhou nos olhos do Carrasco. O jogo não havia apenas mudado ele havia terminado.