O dia amanheceu pesado.
Não havia nuvens no céu, mas o vilarejo parecia coberto por uma sombra invisível.
O sol nascente iluminava as casas de barro, as palmeiras, os poços… e, ainda assim, tudo parecia sem cor, como se a luz tivesse perdido o calor.
A notícia se espalhou antes mesmo do primeiro pão sair do forno.
Primeiro em sussurros.
Depois em vozes trêmulas.
Por fim, em puro alvoroço.
— Você soube…?
— É verdade…?
— Encontraram o corpo brutalizado…
— Omar… está morto.
As palavras corriam pelas ruas como fogo em palha seca.
Portas se abriam.
Janelas batiam.
Pessoas saíam de casa ainda com roupas de dormir, algumas chorando, outras fazendo orações apressadas ao Sol Ardente.
Omar.
O homem mais rico do vilarejo.
Ele era o mais generoso.
Aquele que emprestava dinheiro sem juros.
Que distribuía comida na seca.
Que pagava remédios para crianças doentes.
Morto.
Não por doença.
Não por idade.
Mas… assassinado.
E não de uma forma humana.
Quanto mais os servos contavam, mais o medo se espalhava.
— Dizem que o corpo tava todo torto…
— Como se tivessem quebrado ele…
— Tinha marca de mãos no chão… muitas mãos…
— Não era coisa de gente…
— Foi uma maldição?
— Não seja idiota! Que tipo de maldição faz isso!?
— Tem razão certamente foi um demônio!
— Demônio? Claro que não certamente foi um Carniçal de Sílex!
O nome ecoava como tabu.
Velhas histórias que mães usavam para assustar crianças voltavam à superfície.
Espíritos do deserto.
Coisas que vestiam cadáveres.
Predadores que imitavam vozes humanas.
Normalmente, ninguém levava esses mitos a sério.
Mas agora…
ninguém ria.
O corpo de Omar havia sido recolhido pela Igreja do Sol Ardente de Kanak ainda ao amanhecer.
Dois sacerdotes cobertos por mantos dourados conduziam a maca com expressões rígidas demais.
Não era apenas luto.
Era cautela.
Quase medo.
O padre local, um homem baixo de barba grisalha, falava com firmeza para a multidão.
— Afastem-se! Deixem espaço! O corpo precisa ser purificado!
— Padre, o que matou ele?! — uma mulher gritou.
— Foi uma maldição?!
— Foi um espírito?!
O sacerdote ergueu o símbolo do sol no peito.
— A Igreja já enviou mensagem à capital. Sacerdotes de Azir virão conduzir os ritos funerários. Também pedimos reforço das forças imperiais. Ninguém entrará no deserto sozinho até segunda ordem. Isso é uma determinação oficial.
O tom não permitia discussão.
Isso só piorou o pânico.
Se até a igreja pediu ajuda militar…
Então não era algo comum.
Não era um simples assassinato.
Era algo pior.
Muito pior.
Mais afastado da confusão, Madoc observava tudo em silêncio.
De braços cruzados.
Rosto fechado.
O vento balançava levemente seus cabelos.
Ele não falava nada.
Apenas encarava a porta da igreja.
A maca já havia desaparecido lá dentro.
Mas sua mente ainda via o rosto de Omar.
Ele era um bom homem.
Bom demais para esse mundo seco e cruel.
Madoc suspirou.
— Que fim miserável… — murmurou.
Ele conhecia Omar há décadas.
Sabia que, apesar da riqueza, o homem carregava um vazio.
Filhos distantes.
Casa grande demais.
Mesa grande demais.
Sempre sozinho.
Ter dinheiro não salvou ele.
Nem o protegeu.
No fim… morreu como qualquer animal caçado.
Sentiu um peso estranho no peito.
Como se aquilo fosse um aviso.
Então um toque leve pousou em seu ombro.
Madoc virou-se.
Nakht.
O garoto não, agora um homem já era quase dois palmos mais alto que ele agora.
O corpo largo, musculoso.
Mas os olhos…
ainda os mesmos olhos gentis de criança.
— Pai…
A voz saiu baixa.
Contida.
— O Senhor Omar era um homem bom.
Madoc assentiu devagar.
— Sim… você tem razão.
Ficaram em silêncio por alguns segundos, observando a multidão.
Gente chorando.
Gente rezando.
Gente discutindo teorias absurdas.
O medo transformava todos.
Nakht cerrou os punhos.
— Quem fez isso… não era humano.
Madoc olhou de canto.
— Por que diz isso?
— Eu vi a cena do assassinato.
Ele engoliu seco.
— Não parecia algo que um humano poderia fazer.
O vento soprou mais forte.
Areia cruzou a rua.
Madoc sentiu um arrepio involuntário.
Então falou, mais baixo.
— Seja o que for… não é algo que força bruta resolve. Você não deve andar a noite ou tentar dar uma de herói
Nakht ficou quieto.
[.]
O sol ainda nem havia alcançado o zênite, e Menfis já ardia.
A capital do Reino de Amun não era apenas uma cidade, pois ela era um monumento e um pilar fundamental no continente.
Erguia-se do deserto como se os próprios deuses tivessem cravado ali sua autoridade.
Pirâmides escalonadas cortavam o céu azul sem nuvens, obeliscos dourados refletiam a luz como lanças apontadas aos céus, e muralhas de arenito branco protegiam avenidas largas por onde circulavam caravanas, sacerdotes, soldados imperiais e mercadores vindos de todos os cantos do continente.
Bandeiras vermelhas e douradas tremulavam no vento quente.
Estátuas colossais de antigos faraós e divindades observavam a cidade com expressões eternamente severas.
Tudo em Menfis gritava poder.
Riqueza.
Prosperidade.
Era o coração do império.
E o coração nunca dormia.
Mesmo cedo, o comércio fervilhava como o sol.
Vozes negociando.
Moedas tilintando.
Incenso queimando.
O cheiro de especiarias misturado ao de suor humano.
No centro da ala mais rica do mercado, protegido por tendas bordadas a ouro, um homem gordo contava moedas com dedos ágeis.
— Oitocentas e quarenta… oitocentas e quarenta e cinco… oitocentas e cinquenta…
Seu sorriso se alargava a cada pilha concluída.
Os anéis grossos reluziam em cada movimento.
Braceletes.
Colares.
Tecido fino.
Tudo nele gritava o mais puro excesso.
Um devoto fiel a Mammon.
Era Salim.
O comerciante mais próspero de Menfis.
E o filho mais velho de Omar.
— Patrão, já conferi os carregamentos de mirra — disse um ajudante.
— Hm? Ótimo, ótimo. Venda por vinte por cento acima. Aqueles nobres pagam qualquer coisa se disser que veio do sul sagrado.
Ele riu sozinho.
— Tolos…
Moedas dançavam entre seus dedos como música.
Dinheiro era previsível.
Dinheiro era confiável.
Dinheiro nunca o decepcionava.
Diferente das pessoas.
— Senhor! Senhor Salim!
Um mensageiro atravessou a multidão ofegante, coberto de poeira da estrada.
Salim torceu o nariz.
— O quê? Não está vendo que estou ocupado?
— Eu… tragos notícias… é sobre seu pai…
Os dedos de Salim pararam sobre as moedas.
Por um instante, apenas um instante, o sorriso vacilou.
— O que tem ele?
— Ele… foi encontrado morto esta manhã.
Silêncio.
O barulho do mercado pareceu distante.
Abafado.
— Morto…? — repetiu.
— Sim, senhor. A igreja recolheu o corpo. Há relatos de… algo estranho. Disseram que—
— Chega.
Salim levantou a mão.
Respirou fundo.
A expressão caiu em uma máscara ensaiada.
Tristeza protocolar.
— Que pena…
Baixou os olhos.
Fez o sinal do sol no peito.
— Que Kanak ilumine o caminho dele.
O mensageiro assentiu, constrangido.
Mas, quando virou o rosto…o canto da boca de Salim subiu levemente.
Quase imperceptível.
Morto…
Então é meu.
A casa.
As terras.
Os contratos.
O ouro.
Tudo.
Ele sentiu o coração acelerar de pura excitação
Finalmente.
— Providencie a carruagem — disse, já voltando a contar as moedas. — Precisarei viajar para resolver… assuntos familiares.
Sua voz carregava pesar.
Mas seus dedos? Eles tremiam de ganância.
Enquanto isso, no extremo oposto da cidade, sinos ecoavam.
Graves.
Solene.
A Catedral do Sol Ardente dominava o distrito religioso como uma montanha esculpida.
Colunas gigantes sustentavam o teto aberto por onde a luz solar descia diretamente sobre o altar, como se o próprio deus observasse os fiéis.
Centenas de pessoas ajoelhadas.
Cânticos ecoando.
Incenso queimando.
— Que o Sol purifique nossos pecados…
— Que Kanak nos guie…
Hakar permanecia diante do altar.
Imóvel.
As vestes brancas e douradas caíam perfeitamente sobre seu corpo alto e magro.
Cabelos loiros bem penteados.
Barba curta, irregular.
Olhos azuis serenos.
Um verdadeiro pastor.
O tipo de homem que inspirava confiança apenas por sorrir.
Ele terminou a última bênção tocando a testa de uma criança.
— Vá em paz, pequeno. O Sol caminha com você.
A mãe agradeceu chorando.
Hakar sorriu.
Um sorriso genuíno e puro. Ele amava aquilo. Ajudar,guiar e principalmente proteger.
Até que um mensageiro se aproximou apressado demais para um lugar sagrado.
— Arcebispo Hakar… preciso falar com o senhor.
Algo no tom fez o sorriso desaparecer.
— O que houve?
O homem engoliu seco.
— É sobre… Omar. O seu pai.
Silêncio.
O templo pareceu mais frio.
— Ele morreu esta noite.
Hakar piscou uma vez.
Só isso.
— Como?
— Relatos falam de… algo não humano. O corpo estava deformado. A igreja local pediu reforços. Possível ameaça espiritual.
Os dedos de Hakar cerraram lentamente.
As unhas cravaram na palma.
Seu rosto continuava calmo.
Mas os olhos…os olhos mudaram.
O azul sereno escureceu.
Como o céu antes da tempestade.
— Pai…
Seu pai nunca fora uma presença constante em sua vida.
Não havia memórias de conselhos ao amanhecer, nem risadas compartilhadas durante as refeições, nem mãos firmes guiando seus passos quando criança. Omar sempre fora como o sol do deserto ao entardecer
Sempre distante, visível apenas de longe, grande demais para tocar.
Ainda assim, Hakar seguiu seus passos.
Tornou-se comerciante.
Aprendeu a negociar, a contar moedas pelo peso do som, a ler mentiras nos olhos de homens gananciosos. Viajou por portos, mercados e caravanas. Ouro, especiarias, marfim, tecidos raros… tudo passava por suas mãos.
E, mesmo assim, quanto mais riqueza acumulava, maior era o vazio dentro do peito.
Era como beber água salgada.
Quanto mais consumia, mais sede sentia.
Às vezes, à noite, sentado sozinho em sua tenda luxuosa, ele fitava as próprias mãos cheias de anéis e pensava
É só isso…? É só isso que a vida é?
O silêncio nunca respondia.
Até que, um dia, ele abandonou tudo.
Vendeu mercadorias, dispensou empregados, deixou para trás armazéns e contratos. Pegou apenas roupas simples e um símbolo do Sol esculpido em madeira.
E partiu.
Seguiu a palavra do Sol.
Não por fé cega.
Mas porque precisava acreditar que havia algo maior do que moedas tilintando.
Algo que preenchesse o buraco em sua alma.
Agora, anos depois, as memórias de sua última ida a Núbia voltavam como ecos distantes.
O calor dourado das dunas.
O cheiro de poeira e incenso.
E a última vez que vira seu pai.
Eles estavam sozinhos no pátio da casa. O céu ardia em laranja, o crepúsculo alongando as sombras como dedos negros pelo chão de pedra.
Omar estava mais velho do que ele se lembrava.
Os cabelos já grisalhos.
Os ombros cansados.
Ainda assim… imponente.
Como uma estátua rachada pelo tempo.
O silêncio entre os dois durou muito.
Pesado. Desconfortável.
Como se ambos falassem idiomas diferentes.
Até que Omar quebrou o silêncio, com a voz rouca.
— Eu fiquei surpreso… quando você decidiu se tornar religioso.
Hakar permaneceu imóvel.
Seu rosto era calmo, quase estoico, mas os dedos apertavam o tecido da própria túnica.
— Você ficou desapontado? — perguntou, direto, sem rodeios.
Ele precisava saber.
Precisava ouvir aquilo.
Omar o encarou por alguns segundos, como se a pergunta o tivesse ferido.
Então soltou uma risada baixa, cansada.
— Desapontado…?
Balançou a cabeça.
— Não. Nunca.
Deu um passo à frente.
— Eu nunca ficaria decepcionado com você.
O tom era firme. Honesto demais para ser mentira.
Hakar sentiu o peito apertar.
— Na verdade… — Omar continuou, coçando a barba, evitando contato visual — eu sinto orgulho.
Silêncio.
O vento soprou areia entre eles.
— Orgulho? — Hakar murmurou, como se a palavra fosse estranha.
— Você é um homem que eu nunca poderia ser — Omar disse. — Eu só corri atrás de dinheiro. Passei a vida contando lucros… enquanto você… você escolheu significado.
Ele riu de si mesmo.
Amargo.
— Eu não teria essa coragem.
Os olhos dele finalmente encontraram os do filho.
Havia algo ali que Hakar jamais tinha visto.
Vulnerabilidade.
— Eu fico feliz com o que você se tornou… mais do que consigo explicar.
A voz falhou.
— Eu sinto muito orgulho, meu filho.
Antes que Hakar pudesse responder, Omar o puxou.
Um abraço desajeitado. Forte. Quase desesperado.
Como se temesse que aquela fosse a última chance.
E talvez fosse.
Hakar lembrava do cheiro de poeira, couro e especiarias impregnado nas roupas do pai.
Lembrava do calor daquele abraço.
O único.
O único em toda a sua vida.
O único momento em que se sentiu… filho.
Hakar fechou os olhos.
Seu peito doía.
Se eu soubesse… teria abraçado de volta por mais tempo.
Algo queimou dentro do peito.
A tristeza foi substituído por algo
Fúria.
Fria.
Controlada.
Sede por justiça.
— Entendo — disse calmamente.
Virou-se para um acólito.
— Preparem um Inquisidor.
O jovem arregalou os olhos.
— U-um Inquisidor, senhor?
— Sim. E convoquem quinze Filhos de Krum. Além de um destacamento imperial.
— É… é tão grave assim?
Hakar começou a remover as vestes cerimoniais.
Dobrou-as com cuidado.
Cada movimento preciso.
Metódico.
Debaixo delas, revelava roupas de combate sacerdotal.
Couro reforçado.
Símbolos gravados.
— Senhor Hakar… o que está fazendo? O senhor pretende partir?
— Sim
Ele ergueu o olhar.
E, pela primeira vez…
não havia gentileza nele.
Apenas irá.
— Diante dos céus e do sol, eu faço o meu juramento. Não importa se vestem pele humana ou carregam chifres e presas, eu caçarei. Minha lâmina será a sentença. Meu ódio, o fogo ardente que os consumirá. Não descansarei até que o mundo beba o sangue do carrasco de meu pai para que e a alma do meu pai finalmente encontre paz.