O som de passos ecoava lento e ritmado pelas ruas de Menfis.
Não eram passos apressados.
Nem hesitantes.
Eram firmes.
Resolutos.
Cada toque da sandália contra a pedra ressequida parecia marcar o tempo como o badalar de um sino fúnebre.
A capital do reino de Amun erguia-se grandiosa mesmo sob o cair da noite, suas muralhas douradas refletindo a luz moribunda do crepúsculo como se o próprio sol tivesse sido esmagado contra elas. Obeliscos cobertos de hieróglifos ancestrais apontavam para o céu cor de cobre, estátuas colossais de deuses com cabeças de falcão e chacal observavam a cidade com olhares eternamente severos, e bandeiras vermelhas tremulavam como línguas de sangue.
Menfis era vasta, opulenta, quase divina.
Mas, como toda grandeza, apodrecia por dentro.
Hakar caminhava para o lado oposto desse brilho.
Para baixo.
Sempre para baixo.
Do mármore para a areia.
Da areia para a lama.
Do ouro para o mofo.
O distrito dos miseráveis surgia como uma ferida aberta na pele da cidade.
Barracos de madeira torta, panos rasgados servindo de teto, cheiro de suor velho, doença e fumaça barata. Crianças magras demais para a própria idade observavam em silêncio. Velhos tossiam sangue em panos encardidos. Mulheres escondiam o rosto, não por vergonha, mas por cansaço.
Menfis era rica.
Por isso aquele lugar precisava existir.
Para que alguém sustentasse o peso dessa riqueza.
Hakar sabia disso.
Sempre soube.
Para existirem reis… alguém precisa rastejar.
E isso o enjoava.
Mesmo assim, enquanto atravessava o distrito, as pessoas se levantavam.
Alguns se ajoelhavam.
Outros tocavam suas vestes.
— Profeta…
— É o Profeta de Kanak…
— O Senhor veio…
Ele odiava aquele título.
Profeta.
Não passava de um homem tentando impedir que outros morressem.
Mas não corrigia ninguém.
A fé deles era a única coisa que ainda os mantinha vivos.
Entrou em seu barraco, ele era torto, pequeno, quase indecente para alguém de sua posição. A porta rangeu baixo, como um animal ferido.
Ali dentro não havia luxo.
Apenas uma cama simples, um jarro de água e uma pequena arca de madeira.
Hakar ajoelhou-se.
Abriu.
Seus dedos tocaram o metal frio.
A lâmina curta dourada.
Hieróglifos gravados ao longo da lâmina brilhavam suavemente à luz da lamparina.
O presente de seu pai.
Seus dedos tremeram.
Memórias vieram como areia arrastada pelo vento.
— Eu fiquei surpreso quando você decidiu se tornar religioso — a voz de Omar ecoou em sua mente, rouca, mas gentil.
— Você ficou desapontado? — lembrava-se de ter perguntado, tentando soar firme… mas havia medo ali.
Omar riu.
Uma risada cansada.
— Não… decepcionado? Nunca. Eu apenas… tenho orgulho. Você se tornou um homem que eu nunca poderia ser.
Hakar fechou os olhos.
Sentia ainda o peso daquele abraço.
O único abraço verdadeiro que recebeu do pai.
Então por que… agora tudo que sinto é vazio…?
O som de gritos do lado de fora cortou seus pensamentos.
Vozes alteradas.
Discussão.
Objetos sendo chutados.
Ele saiu.
E viu.
Salim. Seu irmão. Grande em estatura e presença, o corpo largo denunciando uma vida de excessos, a barriga farta esticando os tecidos caros de suas roupas finas, costuradas sob medida.
Cada movimento fazia os anéis reluzirem em seus dedos — ouro demais, pedras demais, ostentação demais — como se precisasse que todos soubessem, sem palavras, o quanto possuía.
O perfume era forte, sufocante, doce ao ponto de enjoar, espalhando-se pelo ar antes mesmo de ele chegar, dominando o ambiente como uma declaração de poder. E então havia o sorriso… largo, lento, arrogante, o tipo de sorriso de quem se sente acima de todos, intocável. Naquele lugar simples e sujo, ele destoava completamente, quase ofensivo aos olhos — como ouro jogado na lama, brilhante demais para pertencer ali, mas orgulhoso demais para se importar.
— Tirem essas pragas da frente! — Salim gritou, empurrando um mendigo com o pé. — Não me toque com sua imundície!
O velho caiu tossindo.
Hakar sentiu o sangue ferver, quente e espesso correndo pelas veias como metal derretido, cada batida do coração ecoando forte nos ouvidos, pressionando o crânio, endurecendo seus músculos até os punhos tremerem. A presença de Salim esmagava o ar ao redor, como se o próprio ambiente estivesse sendo contaminado pela arrogância dele. Seus dentes rangeram. A mandíbula travou. Então ele falou.
— Já chega, Salim.
A voz saiu baixa, quase um sussurro. Porém pesada… densa como uma pedra afundando na água, carregada de fúria contida, daquelas que não precisam de gritos para ameaçar, pois todo mundo sabe que, quando explode, destrói tudo ao redor.
Salim virou devagar, como se não tivesse pressa alguma, o peso do próprio corpo acompanhando o movimento calculado, os anéis tilintando baixo quando seus dedos grossos se ajustaram sobre a roupa cara. Então ele sorriu de canto um sorriso torto, pequeno, mas carregado de desprezo e arrogância, como o de alguém que já se considera vencedor antes mesmo do jogo começar. Não havia calor naquele gesto, apenas superioridade fria, quase zombeteira, como se todos ali fossem menores...insignificantes diante dele.
— Olhem só… o santo desceu do céu — Salim debochou, o sorriso torto se abrindo devagar, carregado de escárnio.
— Eles são pessoas.
— São despesas — corrigiu Salim, ajeitando um dos anéis no dedo grosso, o ouro reluzindo sob a luz fraca. — E você está atrapalhando meus negócios.
— Negócios?
— Herança, irmãozinho. Nosso pai morreu. Tudo é meu por direito.
Hakar o encarou sem piscar.
— Fique com tudo.
Salim piscou, pego de surpresa.
— O quê?
— Ouro. Casas. Armazéns. Pegue tudo.
O silêncio caiu pesado entre eles, esmagando o ar como uma prensa invisível. Até o cheiro doce demais do perfume parecia mais forte.
— Então qual é o problema?! — Salim explodiu, a voz ecoando áspera. — Não vai me dizer que se importa com esses lixos —
Os olhos de Hakar escureceram, a luz neles morrendo como brasas sendo cobertas por cinza.
— Repita de novo… e eu te mato.
Não houve grito. Nem ameaça exagerada. Só verdade. Crua. Fria.
Por um instante, a tensão ficou tão espessa quanto óleo, sufocante, impossível de atravessar.
Salim avançou um passo. O chão rangeu sob o peso dele.
— L… i… x… o — soletrou, saboreando cada letra.
Hakar não recuou.
Nenhum dos dois piscava.
Pareciam estátuas prestes a rachar como dois mundos opostos, ganância e fúria, prestes a colidir.
Luz e trevas.
Dia e noite.
Se colidissem ali… alguém morreria.
Antes que isso acontecesse, passos metálicos ecoaram.
Clang.
Clang.
Um homem de túnica sagrada e máscara cerimonial surgiu.
Um Inquisidor.
A presença dele pesava como julgamento divino.
— Afaste-se — disse a voz distorcida pela máscara. — Mais um passo, Salim, e será acusado de traição contra a Igreja e o Estado.
O sorriso de Salim morreu.
Ele cuspiu no chão.
— Esse lugar fede… assim como você, irmão.
Virou-se e foi embora.
Suas joias tilintavam como correntes.
Hakar apenas observou.
Sem ódio.
Sem raiva.
Apenas… tristeza.
— Pai… como criamos caminhos tão diferentes…? — ele sussurrou ao vento, a voz falhando como se cada palavra carregasse um peso antigo demais para o peito suportar. — Por Kanak… será que meu irmão ainda tem salvação?
O nome de Kanak escapou como uma prece rouca, não exatamente fé… mais um pedido desesperado lançado ao vazio.
O vento soprou pela rua.
Frio.
Cortante.
Deslizando entre as casas, levantando poeira, balançando tecidos velhos e atravessando suas roupas como dedos invisíveis.
E, por um instante, Hakar teve a estranha sensação de estar sendo observado.
Não por homens.
Não por mendigos.
Mas por algo maior.
Como se os próprios céus pesassem sobre seus ombros.
Como se o olhar severo de seu pai ainda o seguisse de algum lugar acima, julgando… ou protegendo.
Seus dedos apertaram a lâmina dourada.
O metal estava mais frio do que deveria.
Frio demais.
Como se tivesse passado tempo demais longe do sol… ou como se estivesse absorvendo o presságio daquela noite.