O horizonte de Uruk erguia-se como uma montanha de tijolos e orgulho contra o céu alaranjado da Mesopotâmia.
O calor da região era diferente do Egito, pois era um calor pesado, carregado com o cheiro de betume, incenso barato e o murmúrio distante de milhões de almas em constante agitação.
Merlin caminhava à frente, seu cajado de madeira clara batendo ritmicamente no solo ressecado. Ao seu lado, Cath Palug mantinha as orelhas baixas, as pupilas verticais varrendo as caravanas que entravam e saíam.
— Este lugar fede a decadência, Merlin — sibilou Albion, o lagarto branco, escondendo-se sob a gola do mago. — Sinto o Prana sendo desperdiçado em prazeres efêmeros e rituais vazios. Gilgamesh transformou o berço da civilização em um prostíbulo espiritual.
— Ele não é apenas um rei depravado, Albion — interveio Gales, o lagarto vermelho, com a voz carregada de faíscas. — Ele é um insulto à ordem. Por que estamos aqui? Deveríamos deixá-lo queimar em sua própria arrogância.
Merlin parou, olhando para os zigurates que arranharam as nuvens. Seu semblante brincalhão desapareceu por um instante, dando lugar à seriedade do conselheiro dos reis.
— Vocês veem o lodo, mas esquecem que a lótus só cresce nele — disse Merlin, a voz serena e profunda. — Se Gilgamesh não abandonar sua depravação agora, a Babilônia terminará o que começou. A Torre de Babel não é apenas uma construção de pedra é um canhão apontado para o coração do divino. Se a humanidade não for unida sob um propósito legítimo antes da torre tocar o firmamento, não sobrará nada para salvar. Gilgamesh é a chave, por mais enferrujada que esteja.
Enquanto isso, a centenas de milhas dali, o silêncio era absoluto, exceto pelo som de carne sendo arrastada sobre pedras afiadas.
Dahaka era uma sombra do que fora. Sua pele avermelhada estava em carne viva, o braço que Rá quebrara pendia inutilmente e o gosto de cinzas e humilhação ainda impregnava sua garganta. Ele atravessou desertos e vales como um verme, impulsionado apenas por um ódio que se recusava a permitir que seu coração parasse de bater.
Ele chegou aos portões de uma cidade que fazia Uruk parecer que era uma vila era a Babilônia Original. E ali, no centro de uma praça onde o tempo parecia estático, ele encontrou a origem de todo o poder humano.
Um homem estava sentado em um trono de pedra bruta. Ele não usava ouro, nem coroas cravejadas de joias. Suas roupas eram feitas de peles de animais, simples e rústicas, mas o ar ao seu redor dobrava-se. A pressão espiritual era tão vasta que Dahaka, mesmo em seu auge, teria se ajoelhado.
Aquele era Ninrode. O Caçador de Deus. O homem chamado Marduk por aqueles que o temiam.
Dahaka olhou para as vestes do homem e sentiu um terror primordial. Aquelas eram as Túnicas de Adão, a pele concedida pelo Criador no Éden. O poder que emanava delas era a autoridade absoluta sobre toda a criação. Animais, homens, demônios e até o universo curvam-se diante de Ninrode não por amor, mas porque a realidade reconhecia naquelas vestes a assinatura do Primeiro Homem.
Ninrode levantou os olhos, e o peso de sua visão quase apagou a consciência de Dahaka.
— Você cheira a queimado e a fracasso, Carrasco — a voz de Ninrode era como o estrondo de uma avalanche. — O Egito cuspiu você?
Dahaka tossiu sangue, tentando manter o que restava de sua dignidade.
— O Faraó... ele se tornou algo que não podemos mais ignorar.
Ninrode levantou-se. Quando ele se moveu, o vento parou de soprar. Toda a vida ao redor silenciou em submissão absoluta.
— Deuses e faraós são apenas distrações — disse Ninrode, olhando para a base da Torre de Babel que subia infinitamente às suas costas. — Eles se agarram à luz porque temem o que eu estou construindo. Você sobreviveu, Dahaka, e isso lhe dá uma serventia. Se o Egito tem um Sol, a Babilônia tem a Terra. E a Terra sempre engole o que cai.
Ninrode estendeu a mão, e o poder das Túnicas de Adão pulsou, uma energia primitiva que começou a remendar o corpo quebrado de Dahaka, não para curá-lo, mas para transformá-lo em uma ferramenta de sua vontade suprema.
— Prepare-se — comandou o Rei dos Reis. — O céu vai cair, e eu serei aquele que o usará como tapete.