A raiva não o deixava respirar direito.
Salim atravessava as ruas de Menfis com passos duros, rápidos demais para alguém de seu porte, o corpo pesado balançando sob camadas de tecidos finos e joias que tilintavam a cada movimento brusco dos braços. Quem o visse de longe pensaria que era apenas mais um nobre apressado voltando para casa após uma negociação ruim, mas por dentro ele fervia como óleo prestes a transbordar.
O encontro com Hakar ainda ecoava em sua mente como um tapa no rosto.
A imagem do irmão, magro, vestido como um mendigo, cercado por miseráveis que o olhavam como se fosse um santo… aquilo o irritava mais do que qualquer insulto.
— Maldito Inquisidor… maldito Hakar… — murmurou entre os dentes, sem perceber que falava em voz alta. — Por Kanak… que os dois morram.
Logo baixou a cabeça, tenso. Nem mesmo ele ousaria blasfemar demais contra a Igreja.
Mas em pensamento?
Não havia limites.
Eu fiquei. Eu lutei. Eu negociei cada moeda desta cidade… e ele larga tudo, brinca de sacerdote… e o povo o chama de profeta!
O aperto em seu peito não era apenas ódio.
Era inveja.
Uma inveja feia, infantil, que ele odiava sentir.
Desde crianças era assim.
Hakar sempre recebia os olhares de admiração. Salim, os de respeito.
E respeito comprado nunca aquecia o coração.
Quando deixou o distrito dos miseráveis para trás, a cidade mudou como se alguém tivesse virado uma página do mundo. A poeira deu lugar a ruas pavimentadas, a lama virou mármore polido, e o cheiro de suor foi substituído por incenso e especiarias. Lanternas de bronze iluminavam fachadas luxuosas, mercadores noturnos cochichavam contratos milionários, e guardas privados patrulhavam como cães bem treinados.
Ali era o verdadeiro coração de Menfis! Uma utopia cheia de riqueza e beleza, dourada como o sol do deserto.
Ali… ele reinava.
Sua mansão erguia-se como um pequeno palácio, cercada por muros altos e portões ornamentados. Estátuas de heróis antigos ladeavam a entrada, fontes jorravam água perfumada e tapeçarias importadas de terras distantes cobriam as varandas. Era excessiva, quase vulgar em sua ostentação.
Mas Salim gostava assim.
Se ia ser odiado, que ao menos fosse por algo grandioso.
Os portões se abriram assim que o reconheceram, e os servos se curvaram imediatamente.
— Bem-vindo, senhor.
Ele não respondeu de imediato. Apenas respirou fundo.
O cheiro de casa… madeira polida, óleo aromático, ouro aquecido pelo calor das lamparinas.
Aos poucos, a tensão em seus ombros cedeu.
Ali ele tinha controle.
Ali ninguém o comparava com Hakar.
Aproximou-se de Samira, uma das servas mais antigas, que organizava baús de viagem e pergaminhos de contabilidade. Ela ergueu o rosto nervosa, claramente esperando uma bronca pelo menor erro.
Mas Salim apenas apoiou as mãos na mesa e perguntou, com voz baixa e surpreendentemente educada:
— Como estão os preparativos?
— Q-quase concluídos, senhor. As caravanas estão abastecidas, os contratos revisados, e os guardas já foram pagos adiantado.
Ele analisou os registros por alguns segundos, sério, meticuloso como sempre.
Então assentiu.
— Bom trabalho. Você sempre é eficiente.
Colocou algumas moedas extras na mão dela.
— Para você.
Os olhos da jovem brilharam.
— Obrigada, senhor!
Ele apenas fez um gesto curto, quase constrangido.
Salim era muitas coisas como ganancioso, arrogante, materialista, cruel com mendigos nas ruas, porém com seus subordinados era estranhamente justo. Pagava mais do que o mercado, perdoava erros ocasionais, garantia comida e remédios. Não por bondade… mas por princípio.
Seu raciocínio funcionava de maneira simples e pragmática.
Se trabalham para mim, são meus. E ninguém maltrata o que é meu.
Era proteção possessiva, não compaixão.
Ainda assim… para muitos ali, ele era melhor que qualquer santo.
Enquanto retirava os anéis para lavar o suor das mãos, o salão ficou silencioso demais.
Silêncio pesado.
Denso.
As lamparinas oscilaram.
Um arrepio percorreu sua nuca.
Ele conhecia aquela sensação.
Alguém perigoso havia entrado.
Passos suaves ecoaram atrás dele, quase inaudíveis. Não havia o tilintar de armaduras, nem o som de botas pesadas era apenas o tecido roçando o chão.
Salim não precisou virar.
— Você demorou.
— Estava observando as rendodezas — respondeu a voz baixa.
Quando se voltou, viu a figura familiar envolta em um manto escuro. O rosto parcialmente escondido, os olhos frios como lâminas recém-afiadas. Sobre o ombro do homem repousava uma raposa de pelos pálidos, imóvel demais para parecer um simples animal e seus olhos dourados acompanhavam cada movimento da sala com inteligência desconfortável.
Saladino.
A Lâmina Silenciosa.
Diziam que ele já atravessou campos de batalha sem deixar pegadas. Que homens morriam antes de perceber que ele estivera perto.
Nas costas, envolta em faixas antigas cobertas de selos, repousava uma das maiores relíquias do mundo.
Era uma das armas forjadas pelo próprio Krum. Mesmo embainhada, parecia pulsar como um coração adormecido.
Salim engoliu seco.
Mesmo sendo o homem mais rico de Menfis… perto dele sempre se sentia frágil.
— Está tudo pronto? — perguntou.
Saladino assentiu.
— Se partirmos agora, chegamos ao vilarejo antes do terceiro dia.
O nome de seu pai surgiu em sua mente sem aviso, como uma cicatriz sendo tocada por dentro.
O pai.
O velho teimoso.
Orgulhoso demais para pedir ajuda.
Forte demais para admitir fraqueza.
Morto.
A palavra ecoou seca, oca, definitiva.
Por um instante, toda a raiva evaporou, como fumaça levada pelo vento, e o que restou não foi tristeza nem ódio...era apenas um vazio estranho, pesado, que parecia engolir o peito por dentro. Um silêncio emocional tão profundo que chegava a doer mais que qualquer golpe.
Ele não sabia se chorava…
…ou sorria por finalmente herdar tudo.
Casas. Ouro. Armazéns. Poder.
Tudo agora era dele.
E esse pensamento o enojava.
Que tipo de filho pensa assim…?
A culpa rastejou por sua garganta como veneno.
Seus olhos caíram sobre uma bandeja dourada esquecida sobre a mesa, o metal polido refletindo sua imagem trêmula. Ele se viu ali com suas roupas caras, postura firme, o brilho frio de riqueza e autoridade ao redor.
Rico e poderoso.
Porém sozinho.
Então ele desviou os olhos, rápido, como se encarar a própria imagem fosse mais doloroso do que qualquer inimigo à sua frente.
— Prepare a partida — murmurou. — Saladino, eu tenho uma missão para você… eu quero que você elimine alguém.
A frase saiu baixa, sem hesitação, mas pesada o bastante para parecer uma sentença já decidida. Não era um pedido impulsivo, era o cansaço de quem havia pensado demais, sofrido demais, e finalmente escolhido fazer justiça com as próprias mãos.
Do outro lado, o homem soltou um leve riso pelo nariz, calmo, quase caloroso, como se falassem de algo trivial.
— Um pedido de um velho amigo? — respondeu, a voz rouca, experiente, carregada de memórias compartilhadas e batalhas antigas. — Será um prazer.
Não havia surpresa.
Não havia questionamento.
Só lealdade.
Daquela perigosa.
A que mata sem perguntar por quê.