O sol de Mênfis era uma coroa de ouro sobre o mundo, mas dentro do palácio eeal, o brilho das tochas parecia insuficiente para afastar as sombras que se alongavam nos corredores.
O rei Tutancâmon caminhava com passos pesados, o som de suas sandálias de couro ecoando contra o mármore polido. Para qualquer servo, ele era a imagem da prosperidade; para si mesmo, ele era um homem cercado por um frio invisível.
Algo está vindo, pensou, apertando o cabo de ouro de seu cajado. E não vem pelo deserto, mas pelo destino.
Não era apenas um pressentimento comum. Era o "farol de Akhenaton", o dom espiritual que corria como fogo no sangue de sua linhagem. Seus antepassados haviam previsto pragas, secas e traições através desse arrepio na espinha. E agora, o sinal era um grito silencioso.
— Majestade. — A voz de um vizir interrompeu seus pensamentos. — O Arcebispo Hakar partiu ao amanhecer. Ele viaja pessoalmente para a Vila de Núbia. Diz que encontrou uma "ameaça" que precisa ser extirpada.
Tutancâmon parou abruptamente. O nome de Hakar trouxe um peso extra ao seu peito. O Arcebispo era a sua joia rara: um homem de fé genuína em um oceano de sacerdotes corruptos que vendiam favores por sacos de trigo. Tutancâmon planejava torná-lo o pilar de uma reforma religiosa, a mão que cortaria o mal da corrupção antes que ela estrangulasse o trono.
— Núbia... — sussurrou o Rei. O temor que sentiu não era por Hakar, mas pelo que Hakar encontraria. A ameaça oculta que espreita na vila não era apenas um problema; era o gatilho de uma catástrofe que o seu dom em seu sangue tentava desesperadamente o avisar.
Sem dar ordens ao vizir, Tutancâmon deu meia-volta e dirigiu-se às profundezas.
A descida ao calabouço não levava a celas de prisioneiros, mas a uma região esquecida pelo tempo. O ar ali era denso, carregado com o cheiro de ozônio e metal antigo. À medida que o rei avançava, o brilho do ouro começou a emanar da escuridão. Montanhas de moedas, joias raras e artefatos de eras pré-diluvianas forravam o chão.
No centro de tudo, enrolado sobre o tesouro como uma corda de obsidiana, estava Apep.
Ele não era um animal. Era um Elohim, um ser de luz densa e escamas que pareciam absorver a luz das tochas. Suas asas, colossais e recolhidas, vibravam com uma energia que nenhum mortal poderia compreender plenamente.
— Descendente de Akhenaton... — A voz de Apep não vinha de sua garganta, mas ressoava diretamente nos ossos de Tutancâmon. O dragão abriu uma fenda ocular, revelando uma pupila que brilhava como uma estrela. — O que deseja agora? Já não é o suficiente? Vocês, filhos de Adão, abusam da minha paciência como se ela fosse eterna.
Tutancâmon manteve o queixo erguido, embora suas mãos tremessem levemente sob as vestes.
— Sinto muito, Vossa Excelência. Mas o equilíbrio treme. Preciso de um favor.
Apep soltou uma lufada de ar quente que fez as moedas de ouro tilintarem ao redor.
— Um favor? De novo? — O dragão ergueu a cabeça, a silhueta imensa projetando uma sombra que engoliu o Rei. — Quando serei libertado deste antro de ganância? Quando poderei retornar ao meu Senhor?
— Em breve — respondeu o Rei, a resposta automática saindo de seus lábios como um escudo.
— "Em breve"! — rugiu o Elohim, e o chão do castelo estremeceu. — Ramsés II disse "em breve"! Ramsés I prometeu "em breve"! Seus pais, seus avós... todos vocês usam as mesmas palavras vazias! Cale a maldita boca, pequeno rei!
Tutancâmon deu um passo à frente, a voz subindo de tom pela primeira vez.
— Por favor, Vossa Excelência! Eu preciso de sua visão, de sua força! Você nos prometeu proteção, lembra-se? Vai quebrar sua palavra agora, quando o perigo espreita a Vila de Núbia?
O silêncio que se seguiu foi gélido. Apep aproximou seu focinho a centímetros do rosto de Tutancâmon. O Rei podia ver o reflexo de sua própria coroa nos olhos da criatura.
— COMO OUSA! — O rugido de Apep foi um sussurro carregado de poder divino. — Eu já não disse que tudo o que falamos é uma Verdade Universal? O que um Elohim promete se torna realidade, por bem ou por mal. Eu sou incapaz de mentir, pois a mentira é uma fraqueza da carne e do pecado, e eu sou feito de espírito e temo o meu senhor! A pergunta correta, humano, é quando você será digno de me liberar de meu voto.
O dragão circulou o Rei, as garras arranhando o ouro sob seus pés.
— Sua ganância é tão vasta que não pode libertar este humilde servo? O que fiz a você, senão pagar o seu mal com o meu bem? Esquece que sou um servo do Senhor dos Exércitos? Temes que eu te devore?
Apep soltou uma risada amarga, um som que lembrava o quebrar de vidros.
— Logo eu, que protegi esta linhagem enquanto seus falsos deuses de pedra e barro correm para as trevas perante a glória de meu Senhor! Onde está Amon agora? Derrotado pela própria soberba de seus filhos. E onde estão esses filhos? Vocês clamam por eles e recebem apenas o silêncio do deserto. Mas eu... eu ouço. E eu respondo.
O dragão fixou o olhar no Rei, a fúria dando lugar a uma solenidade ancestral.
— Diga-me, descendente do Sol. O que viu em seu sangue que o trouxe até o fundo do abismo para falar com o Dragão?