A poeira do Reino de Judá era diferente da poeira de Mênfis. Enquanto no Egito ela trazia o cheiro do Nilo e o peso da história de pedra, aqui, nas colinas crestadas pelo sol, ela tinha o sabor da promessa e da provação. O céu era de um azul tão pálido que parecia exaurido, e o vento trazia o lamento silencioso da terra que morria de sede.
Por uma estrada que não passava de um rastro na terra seca, caminhava um homem. Ele não parecia pertencer àquela paisagem de cores terrosas e túnicas de lã rústica. Seus cabelos eram loiros, não como o ouro refinado dos templos, mas como a palha seca sob o sol do meio-dia, rebeldes e caindo sobre os olhos. E que olhos! Eram de um azul cristalino, tão límpidos que pareciam refletir um céu que não existia mais naquela região, mas havia neles uma qualidade inquieta, uma pupila que parecia se dilatar e contrair de forma não totalmente humana, lembrando o olhar vigilante de um predador noturno ou a curiosidade inocente de um filhote, dependendo do momento.
Ele não carregava bagagem. Nem alforje, nem cantil visível. Apenas um cajado rústico de madeira de oliveira, que ele usava mais para cutucar pedras no caminho e desenhar formas abstratas na poeira do que para se apoiar. Ele caminhava com uma leveza que contrastava com o calor opressor, quase como se não tocasse o chão totalmente, um ritmo que oscilava entre saltos infantis e uma passada longa e graciosa.
A Vila de Kfar Ohad era pouco mais que um aglomerado de casas de adobe, agora cercada por campos que pareciam cemitérios de espigas de trigo. O viajante parou diante de uma moradia humilde, talvez a mais simples da vila. Não havia adornos, apenas a dignidade da pedra bem cuidada.
Ele bateu na porta de madeira rangente. Três batidas leves, mas que ressoaram com uma vibração peculiar.
A porta abriu-se devagar, revelando um homem cujas costas eram curvadas pelo peso de muitos anos e pelo trabalho duro sob o sol. Seu rosto era um mapa de rugas, mas seus olhos guardavam uma lucidez terna. Seu nome era Josef.
— Shalom, viajante — disse Josef, a voz rouca como o cascalho.
O forasteiro sorriu. Foi um sorriso desajeitado, que expôs dentes brancos demais e não combinava com a poeira que cobria sua túnica simples.
— Shalom, ancião. O dia está quente, e o caminho é longo. Eu peço apenas um canto de sombra e, se a generosidade do seu coração permitir, um gole d'água. Eu não tenho moedas, mas... — ele olhou para o próprio cajado como se este fosse uma fonte de riqueza — ...eu sei contar boas histórias e posso ajudar a consertar coisas que quebram.
Josef observou o estranho. Havia algo de estranhamente familiar nele, algo que não invocava medo, mas uma curiosidade antiga.
— Entre, meu jovem — disse Josef, abrindo caminho. — O que temos é pouco, mas sob este teto, nunca se nega abrigo ao necessitado. Minha esposa, Lia, ficará feliz em ver um rosto novo.
Lia estava perto do fogão de barro, tentando preparar algo com o pouco que restava na dispensa. Ela era tão frágil quanto o marido, mas havia uma força silenciosa em sua postura. Ao ver o estranho, ela não mostrou surpresa, apenas a hospitalidade instintiva dos que temem a Deus.
Eles não sabiam, mas no momento em que o viajante cruzou o limiar, a atmosfera da casa mudou. O calor opressor pareceu diminuir, e o cheiro de mofo da dispensa vazia foi substituído por um aroma sutil, quase imperceptível, de flores silvestres.
O homem loiro olhou ao redor, os olhos animais absorvendo tudo. Mas ele via mais que o adobe e a palha. Ele via as orações silenciosas que impregnavam as paredes, a dor da esterilidade que eles carregavam (um segredo que ele não citaria, mas que ele lia na tristeza profunda de Lia, como se lêsse um livro aberto), e a fé inabalável que os mantinha de pé mesmo quando os impostos de Mênfis roubavam o pão de suas bocas e a seca matava a colheita.
— Eles amam muito, e temem ainda mais — pensou o viajante, e sua mente se encheu de uma melancolia milenar. Tanta fragilidade em corpos de carne, e ainda assim, eles sustentam o mundo com sua devoção. Os poderosos de Mênfis se esqueceram disso.
— Sentem-se, sentem-se — disse Lia, oferecendo o banco mais confortável, que na verdade era apenas uma tora de madeira alisada. — A comida é escassa, os soldados do Faraó levaram quase tudo, e a terra não nos dá mais nada. Mas o que temos é seu.