"Antes que o betume fosse cozido e o primeiro tijolo de Etemenanki fosse assentado, os Deuses escreveram 'Aquele que detém o sangue dos céus sentirá o peso da terra, e quanto maior for a sua luz, mais densa será a sombra de sua queda'."
Uruk não era apenas uma cidade, era uma declaração de guerra contra a efemeridade. Suas muralhas, erguidas com o suor de milhares e o prana de semideuses, brilhavam sob o sol da Mesopotâmia como o dorso de uma serpente de bronze. Dentro delas, o ar era carregado com o cheiro de incenso real, óleos aromáticos e o aroma metálico da riqueza acumulada.
No centro desse império de barro e glória, em uma sacada que observava o fluxo constante do Eufrates, estava Gilgamesh.
Ele era uma anomalia na ordem das coisas. Dois terços divinos, um terço homem, uma combinação que lhe concedia a força dos titãs, mas o coração vulnerável à melancolia dos mortais.
Neto de Ninrode, o temível Caçador de Deus que governava a Babilônia com o poder das Túnicas de Adão, Gilgamesh carregava em suas veias o fogo da criação e a sede da destruição.
Ele observava a cidade, seus olhos dourados como o trigo de Ishtar estavam fixos no horizonte. Suas memórias frequentemente voltavam ao dia em que o sangue de sua família manchou o mármore. Seu pai, o nobre Lugalbanda, fora derrubado por Arga, seu próprio irmão, em um golpe motivado por uma inveja que queimava mais que o sol do deserto. Arga desejava a supremacia e almejava ser o único sol sob o comando de Ninrode.
Gilgamesh, na época apenas um jovem cujo poder ainda não florescera por completo, desafiou o tio.
O embate entre os dois semideuses abalou as fundações de Uruk. Raios de energia pura e força física bruta devastaram o palácio. No fim, com o pé sobre o peito de Arga, Gilgamesh sentiu o gosto da vingança. Mas, em um ato que surpreendeu até os anciãos, ele não o matou.
— A morte seria o fim do seu sofrimento, tio — ele dissera na época, sua voz ainda jovem, mas já carregada de autoridade. — O banimento é o peso da própria existência. Viva com o fato de que um 'menino' lhe tirou o que você mais amava e reduziu o seu ego em pó.
Com Arga banido e Uruk livre da tirania babilônica imediata, Gilgamesh governará com uma justiça que agradava o povo. Essa benevolência não nascera do nada, pois fora lapidada por seu mentor, Hamurabi. Hamurabi, o sábio que codificou a lei sob a inspiração dos deuses, foi o único homem capaz de olhar nos olhos de Gilgamesh e enxergar a humanidade escondida sob as escamas da divindade. Sob sua tutela, Gilgamesh tornou-se o rei que o povo seguia por fé, não por medo.
Mas Hamurabi envelhecera, e a imortalidade de Gilgamesh tornou-se uma prisão.
Agora, sentado em seu divã de marfim e seda, Gilgamesh serviu-se de vinho em uma taça de ouro cravejada de lápis-lazúli. Hamurabi não estava mais lá para guiar seu braço, e o silêncio do palácio era preenchido apenas pelos murmúrios de suas concubinas e pelos prazeres carnais que ele buscava com uma voracidade desesperada.
A alma de Gilgamesh estava mudando. A justiça de outrora estava sendo sufocada por uma luxúria sombria e uma arrogância que beirava a depravação.
Ele começava a exercer o Droit de Seigneur — o direito de passar a primeira noite com as noivas de Uruk — um ato que gerava um ódio silencioso e fervilhante nas ruas que antes o aclamavam.
— Meu Rei... — uma jovem escrava, de beleza etérea, aproximou-se tremendo, oferecendo-lhe frutas.
Gilgamesh nem olhou para ela. Ele pegou uma romã e a esmagou na palma da mão, o suco vermelho correndo entre seus dedos como sangue.
— O povo reclama nas ruas, pequena ave? — sua voz era um barulho grave, melódico e perigoso.
— Eles... eles amam Vossa Majestade — gaguejou ela.
— Eles me odeiam — corrigiu Gilgamesh, um sorriso amargo cruzando seus lábios perfeitos. — E por que não odiariam? Sou o sol que queima suas colheitas. Sou o rio que inunda suas casas. Eles me veem como um Deus, e deuses não pedem licença, eles tomam o que desejam.
Ele levantou-se, sua estatura imponente projetando uma sombra longa sobre o mármore. O sangue de Ninrode fervia em suas veias, sussurrando sobre Babel, sobre a torre que rasgaria o céu e sobre a herança de corrupção que sua linhagem carregava.
— Meu avô Ninrode veste as peles de Adão e desafia o Criador — pensou Gilgamesh, olhando para o Norte, onde a silhueta da Torre de Babel começava a ser visível mesmo a essa distância. — Meus tios mataram uns aos outros por migalhas de poder. E eu... eu procuro o esquecimento no corpo de mulheres e na embriaguez, esperando que o tempo me leve antes que eu me torne como eles.
Mas o destino não levaria Gilgamesh tão facilmente.
Enquanto ele observava a cidade, uma figura vestida de branco, com um gato cinzento no ombro e dois lagartos coloridos escondidos em sua capa, cruzava os portões de Uruk. Merlin chegara. E o mago sabia que, sob aquela fachada de depravação e ouro, o coração de Gilgamesh ainda era a única barreira que poderia impedir Ninrode de derrubar o trono celestial.
— Uruk é bela — Merlin murmurou para o gato Cath Palug, enquanto observava o luxo decadente do mercado. — Mas o seu Rei está morrendo de tédio. E não há nada mais perigoso para o mundo do que um Deus entediado.
Gilgamesh sentiu um calafrio incomum. Uma flutuação no Prana que ele não sentia desde a morte de Hamurabi. Ele apertou o cabo de sua adaga de ouro e olhou para o portão principal.
— Algo novo entrou em minha cidade — Gilgamesh sibilou, seus olhos brilhando com uma antecipação predatória. — Que venha. Se for um deus, eu o esmagarei. Se for um homem, eu o quebrarei.
A era dos heróis estava prestes a colidir com a era dos deuses, e Gilgamesh estava exatamente no centro do furacão