O sol de Judá não era mais um pai generoso, ele era um carrasco de ouro suspenso sobre um mundo que apodrecia de dentro para fora.
A chuva, que muitos profetas de esquina prometiam em troca de moedas de cobre, tornara-se um mito esquecido, uma lenda contada por velhos cujas gargantas estavam secas demais para articular a esperança. Mas, enquanto a terra rachava, o ouro nos bolsos dos ímpios tilintava com uma musicalidade obscena.
A vila de Bete-Áven, situada em uma encruzilhada estratégica entre as rotas de comércio e as montanhas, era o microcosmo perfeito desse novo mundo.
Ali, o Deus Todo Poderoso parecia ter silenciado sua voz, deixando apenas o eco de rituais sangrentos e o cheiro de incenso barato que subia dos novos altares erguidos nos altos.
Caleb, um ferreiro cujas mãos eram cobertas por calos de décadas de trabalho honesto, observava a praça central de sua oficina sombria. O fogo de sua forja estava baixo; o carvão era caro, e os clientes eram poucos para um homem que se recusava a forjar ídolos de bronze.
À sua frente, do outro lado da rua, a realidade era outra. Malquias, seu antigo aprendiz, agora ostentava túnicas de linho egípcio tingidas de púrpura. Malquias não batia mais o martelo contra o ferro para criar relhas de arado. Ele agora gerenciava uma "loja de bênçãos" para os seguidores de Baal.
— Veja só, velho mestre! — Malquias gritou, sua voz carregada de uma arrogância jovial enquanto acariciava uma estatueta de ouro macio. — Mais uma caravana que desviou o caminho apenas para oferecer sacrifícios aqui. Desde que levantamos as estátuas na entrada da vila, o poço deles nunca secou. Por que você insiste em martelar o vazio?
Caleb limpou o suor da testa com um trapo sujo, seus olhos cinzentos fixos no rapaz.
— O poço deles tem água, Malquias, mas a alma deles tem sede de sangue. Você troca a eternidade por uma colheita que murchará na sua boca.
— A eternidade não enche o estômago de meus filhos, Caleb — retrucou Malquias, rindo. — Olhe para você. Sua esposa, Rute, mal tem forças para caminhar até o mercado. Suas bochechas estão encovadas. Onde está o seu Deus? Ele enviou uma nuvem sequer? Enquanto isso, o Arcebispo de Mênfis nos envia grãos, e os sacerdotes de Baal nos dão vinho. A prosperidade é a prova da verdade!
Caleb não respondeu. Ele sentiu uma pontada de dor no peito, não pelo insulto, mas porque sabia que, aos olhos do mundo, Malquias tinha razão. A iniquidade estava florescendo como o joio em solo fértil, enquanto o trigo de Deus parecia condenado à poeira.
No centro administrativo da região, o cenário não era de idolatria aberta, mas de uma corrupção sutil e burocrática, muito mais perigosa. Eliasib, um dos anciãos responsáveis por aplicar a Lei de Deus na região, sentava-se em sua cadeira de marfim, revisando pergaminhos de dívidas.
À sua frente estava Adonias, um camponês que ainda mantinha a fé ancestral, com as roupas em frangalhos e o olhar desesperado.
— Senhor Eliasib, eu lhe peço justiça! — implorou Adonias. — O coletor de impostos vinculado ao templo local tomou minhas últimas duas cabras. A Lei diz que não se pode tirar o sustento do pobre!
Eliasib ajustou seus óculos rudimentares e soltou um suspiro de tédio. Ele era um homem que conhecia as Escrituras de cor, mas as usava como uma faca para fatiar o que restava do povo.
— A Lei também diz que devemos manter a ordem e sustentar a estrutura sagrada, Adonias — disse Eliasib, sua voz suave e desprovida de empatia. — Se você não pode pagar, é sinal de que não goza do favor divino. Talvez haja pecado oculto em sua casa. Por que seus vizinhos, que agora frequentam os banquetes de Astarote, têm celeiros cheios e você não?
— Porque eles roubam! Porque eles sacrificam aos demônios! — gritou o camponês.
Eliasib fez um sinal para os guardas.
— Blasfêmia. Criticar aqueles que prosperam é inveja, e a inveja é pecado. Se o seu Deus o abandonou à fome, quem sou eu para contradizer o julgamento do céu? Saia daqui antes que eu dobre sua multa por desacato à autoridade sacerdotal.
Quando o homem foi arrastado para fora, Eliasib abriu uma gaveta de sua mesa. Lá, escondido entre pergaminhos sagrados, estava um amuleto de jade, um presente dos mercadores cananeus que agora controlavam o fluxo de cereais. Ele o beijou. A Lei era o seu escudo, mas a corrupção era a sua fonte de vida.