O sol da Mesopotâmia surgiu como um disco de bronze polido, derramando uma luz âmbar sobre as ruas de adobe de Uruk. Na pequena hotelaria, o dia começou não com o clamor das armas reais, mas com o som suave da água sendo despejada em bacias de terracota.
Enkidu despertou de seu sono sem sonhos. Ele não precisava de descanso como os mortais, mas apreciava a cadência da vida humana. Ao descer para o pátio central, encontrou Shamhat colhendo tâmaras de uma palmeira solitária que crescia entre as pedras. Ela usava um vestido de linho simples, mas a luz da manhã a envolvia de tal forma que ela parecia uma das divindades menores dos rios.
— Você acorda com o sol, viajante — disse ela, com um sorriso tímido que iluminou seu rosto cansado.
— O sol tem muito a nos contar, se estivermos dispostos a ouvir — respondeu Enkidu, aproximando-se. — Deixe-me ajudá-la.
Durante as horas seguintes, o disfarce de Merlin permitiu-lhe algo que ele raramente experimentava a simplicidade do serviço. Ele ajudou o pai de Shamhat a carregar sacos de grãos e consertou uma das rodas da carroça de suprimentos com um toque sutil de Prana que fez a madeira parecer nova.
Shamhat o observava com uma fascinação crescente. Havia uma fluidez em cada movimento de Enkidu, como se ele estivesse em perfeita sintonia com o mundo ao seu redor.
No meio da manhã, Shamhat precisava ir ao mercado buscar óleos e corantes. Enkidu ofereceu-se para acompanhá-la.
— Uruk é perigosa para quem caminha sozinho e possui sua beleza, Shamhat — disse ele. — E eu gostaria de ver a cidade através de seus olhos.
Eles caminharam lado a lado pelas avenidas movimentadas. Shamhat mostrava-lhe os detalhes que a maioria ignorava como o entalhador de selos cilíndricos que trabalhava com precisão microscópica em uma esquina sombreada, o cheiro de pão de cevada vindo das padarias comunitárias, o som das flautas de osso tocadas por mendigos que conheciam as melodias mais antigas da terra.
— Veja aquele zigurate — disse Shamhat, apontando para a morada de Gilgamesh. — Dizem que as pedras foram assentadas com sangue. Meu pai diz que, quando o rei era jovem, ele subia lá para orar por nós. Agora, ele só sobe para olhar para a Babilônia e invejar o que seu avô construiu.
Enkidu parou diante de uma fonte pública. Ele sentia as vibrações de Uruk. Sob o luxo, a cidade estava tensa, como uma corda de harpa prestes a arrombar.
— Gilgamesh busca o que é eterno porque teme o que é passageiro — murmurou Enkidu. — Ele se cerca de excessos porque o silêncio de sua própria alma o assusta.
Shamhat olhou para ele, intrigada.
— Você fala como se o conhecesse. Como se sentisse pena dele. Como pode ter pena de alguém que tira a paz de tantas famílias?
— Ter pena não significa perdoar, Shamhat. Significa entender que a ferida dele é tão profunda que ele tenta preenchê-la com o mundo inteiro, e ainda assim continua vazio.
Eles pararam em um pequeno jardim público, um oásis de murta e flores de lótus perto dos canais do Eufrates. Shamhat sentou-se na beira da água, observando os peixes prateados. Por um momento, ela esqueceu o palácio, esqueceu o "Direito do Senhor" e esqueceu o medo.
— Enkidu... — ela chamou, a voz baixa. — De onde você realmente vem? Suas mãos são de trabalhador, mas suas palavras são de um príncipe. Seus olhos... eles parecem ter visto o início do mundo.
Enkidu sentou-se ao lado dela. Ele sentiu o peso da verdade e a leveza do disfarce.
— Eu venho de onde as florestas não têm fim e as estrelas falam com os rios. Eu vim para Uruk porque ouvi o grito da terra. E vim para esta hotelaria porque sabia que encontraria alguém que ainda possui uma alma pura em meio a tanto betume.
Shamhat inclinou a cabeça sobre o ombro dele. Foi um gesto de entrega, de busca por proteção.
— Se eu pudesse fugir com você... se pudéssemos desaparecer nas areias...
— Fugir não mudaria o que Gilgamesh se tornou e o sofrimento que existe aqui— disse Enkidu, acariciando o cabelo dela. — Eu prometo a você, Shamhat você não será apenas mais uma sombra no harém dele.
Enquanto passavam o dia em uma bolha de serenidade, a realidade de Uruk continuava a girar. Do alto de sua varanda, Gilgamesh observava o mercado com olhos entediados. Seus sentidos divinos captaram uma anomalia. Um ponto de luz branca que caminhava ao lado de uma mortal.
— Lugalzaguesi — chamou o rei, sem desviar o olhar.
O general aproximou-se, curvando-se.
— Sim, meu soberano?
— Há um estrangeiro na cidade. Ele cheira a cedro e a magia antiga. Ele caminha com a filha do hoteleiro que deve ser trazida amanhã.
Lugalzaguesi estreitou os olhos.
— Quer que eu envie a guarda para prendê-lo?
Gilgamesh sorriu, um brilho predatório surgindo em seu rosto.
— Não. Deixe-o. Se ele é o que eu penso, ele virá até mim. Ninguém entra em Uruk com tanta luz sem querer desafiar a escuridão do trono. Prepare a arena para amanhã. Quero ver quem é esse viajante
O dia terminou com um pôr do sol sangrento. Shamhat e Enkidu voltaram para a hotelaria em silêncio, ambos sabendo que aquele fora o último dia de paz. Naquela noite, Shamhat dormiu com um amuleto que Enkidu lhe dera, uma pequena pedra da floresta que pulsava com um calor protetor.
Enkidu, por outro lado, permaneceu acordado, observando a lua. Ele sabia que amanhã o disfarce de viajante cairia e o embate entre a Sabedoria e a Tirania finalmente começaria.