O caminho de volta nunca parecera tão longo.
Para Adonias, cada passo era uma batalha contra o próprio corpo, mas, acima de tudo, contra o espírito que desfalecia.
O sol de Judá, implacável e cego, castigava sua nuca, mas o frio que ele sentia vinha de dentro — o gelo da injustiça que paralisa o sangue.
A rejeição de Elisiab fora um golpe mais doloroso que o chicote dos soldados. O homem que deveria aplicar a justiça de Deus preferira a conveniência do poder. Agora, Adonias caminhava entre as pedras com as mãos vazias e a alma em frangalhos.
Restava-lhe uma última cartada. Anos atrás, quando a colheita fora farta e o poço de Adonias era o único que ainda vertia água na região, ele abrira as portas para três homens: Joram, Natã e Eliabe.
Ele os alimentara, dera sementes e até ouro para que eles não perdessem suas terras.
A amizade é um laço que a seca não quebra.
Mas o tempo e a escassez revelam o que o coração esconde.
Ao chegar às terras de Joram, Adonias parou, atônito. Onde antes havia um altar simples dedicado a Deus, agora erguia-se uma estatueta de pedra bruta, adornada com fitas coloridas e restos de sacrifícios que cheiravam a sangue podre. Era um ídolo de Baal.
Joram saiu da casa, vestindo roupas que excediam a necessidade de um camponês. Seu rosto estava vermelho pelo vinho, e seus olhos eram pequenos e desconfiados.
— Adonias? — Joram cuspiu no chão. — O que faz aqui com essa cara de sepultura?
— Joram, meu irmão... — Adonias começou, tentando manter a dignidade. — Você se lembra de quando a praga de gafanhotos devastou sua plantação? Eu dividi meu celeiro com você. Hoje, os coletores me tiraram tudo. Preciso de apenas duas cabras para recomeçar. Ou um saco de cevada. O que puder dar.
Joram riu, um som áspero que fez as aves de rapina circularem no céu.
— Aquilo foi em outra vida, Adonias. Naquele tempo, éramos tolos que esperavam por um Deus que não envia chuva. Olhe ao redor! — Ele apontou para o ídolo. — Meus novos senhores não pedem santidade, pedem apenas prazer e sangue. E, em troca, eles me dão o que os coletores não ousam tocar.
— Você abandonou a Lei por pedras? — Adonias sentiu uma náusea profunda.
— A Lei não enche a barriga, Adonias. E eu estou farto de mendigos batendo à minha porta lembrando do passado. Vá embora. Seus "favores" já foram pagos pelo tempo.
Adonias tentou os outros dois. Natã o recebeu com insultos, cercado por mulheres que não eram sua esposa, em uma festa degradante que profanava a luz do dia. Eliabe, o mais jovem, nem sequer saiu para atendê-lo; mandou um servo dizer que "não tinha tempo para quem não sabe agradar aos novos deuses da terra".
A cada porta fechada, Adonias sentia uma parte de si morrer. Aqueles homens, que um dia foram seus pares, agora mergulhavam em pecados que ele mal ousava nomear, usando a fartura que haviam conquistado para alimentar vícios, enquanto ignoravam o homem que os salvara da ruína.