O sol começava a se esconder atrás das montanhas de Judá, pintando o céu com tons de sangue e púrpura, como se o próprio firmamento estivesse ferido pelas injustiças da terra.
Adonias arrastava os pés pela trilha sinuosa que levava à sua aldeia. Cada passo era uma batalha contra a gravidade e contra o desânimo que pesava mais que o fardo vazio em suas costas. Suas sandálias, gastas pelo tempo e pelas pedras, já não protegiam seus pés, que sangravam em silêncio, mimetizando a dor que lhe corroía o peito. Sua mente era um turbilhão de pensamentos sombrios, uma tempestade de areia que cegava sua esperança.
— Onde está a justiça!? — ele questionava em voz alta, sua voz falhando pela secura da garganta.
Ele olhou para o céu, que naquela tarde parecia de bronze polido — impenetrável, surdo e terrivelmente belo.
— O ímpio prospera em sua idolatria, o corrupto se veste de linho fino nos pátios do Templo, ostentando uma piedade comprada com o sangue alheio, e o homem que busca a retidão volta para casa com as mãos cheias de nada!
Ele lembrou-se do suor derramado sobre o campo de outrem, da promessa de um pagamento justo que se transformou em desculpas esfarrapadas e humilhação. Para os poderosos, as leis eram apenas sugestões maleáveis, mas para Adonias, eram a estrutura de sua existência. E agora, essa estrutura parecia estar desmoronando sob o peso da realidade.
A proximidade de sua casa, em vez de trazer conforto, trazia pavor. Ele pensou em sua esposa, Mara. O nome dela, que significava "amargura", parecia uma profecia cruel que ele lutara anos para refutar. Mara sempre fora o seu arrimo, a mulher que extraía mel da rocha com suas palavras de fé e seus cânticos ao amanhecer. Mas agora, a melodia cessara.
Ele visualizou o rosto dela: as maçãs do rosto proeminentes, a pele ressecada como o couro ao sol, e os olhos... aqueles olhos que outrora brilhavam como as estrelas mais altas do deserto de Neguebe, agora estavam encovados e nublados pela névoa da fome e da doença. A febre a consumia lentamente, e ele não tinha sequer uma moeda para comprar o bálsamo de gileade ou um punhado de ervas para acalmar sua tosse.
E havia Sara. Sua pequena Sara, com apenas seis primaveras. Como ele cruzaria o batente da porta? Como olharia nos olhos castanhos da criança que, em sua inocência, ainda acreditava que o pai era um provedor invencível?
— Como explicarei que o jantar de hoje será, mais uma vez, apenas água e a poeira das promessas não cumpridas? — ele gemeu.
Ele sentia o estômago dela roncando em sua própria carne. A fome não era apenas uma sensação física; era um monstro que devorava a dignidade de um homem, pedaço por pedaço, até que não restasse nada além de instinto e ressentimento.
— Talvez Elisiab tenha razão —, uma voz maligna, sibilante como uma serpente rastejando nas fendas das rochas, sussurrou em seu ouvido. — Talvez você seja apenas um tolo, Adonias. Um tolo agarrado a pergaminhos antigos enquanto o mundo gira em torno de ouro e poder. Por que não se curvar aos ídolos? Eles pelo menos prometem chuva e fartura, e seus seguidores não parecem passar fome. A bondade é uma moeda sem valor em um mercado de tirano
O conflito interno era excruciante. A tentação da apostasia não vinha através de grandes debates teológicos, mas através do cheiro de pão fresco vindo das casas dos ímpios.