O ar em Uruk estava pesado, saturado com o cheiro de incenso barato e o eco das festividades decadentes que nunca pareciam cessar. Merlin, parado no topo de um terraço de argila, observava a curvatura da Lua. Ele sentia os fios do destino se retorcendo; a morte de Lugalzaguesi havia deixado um vácuo no éter que Ninrode, em sua torre de soberba, não demoraria a perceber.
— O tempo é um amante cruel, Albion — murmurou Merlin para o pequeno lagarto em seu ombro. — E em Uruk, ele corre como vinho entornado. Se eu não cortar os tendões desta cidade esta noite, Ninrode enviará algo muito pior que generais.
Ele precisava acabar com Dumuzid. O guardião dos prazeres e o arquiteto da luxúria de Gilgamesh era o segundo pilar que sustentava a queda do rei. Mas Dumuzid vivia cercado por uma fortaleza de carne e hedonismo. Merlin suspirou, um sorriso travesso e melancólico cruzando seus lábios.
— Terei que usar os métodos que minha mãe tanto detestava.
A residência de Dumuzid era um palácio de prazeres, onde as paredes eram cobertas por sedas transparentes e o chão atapetado com pétalas de lótus. O riso das meretrizes e o som das liras criavam uma atmosfera de transe.
Merlin não entrou como um mago. Ele permitiu que seu sangue de Incubus fluísse, transmutando sua aparência. Ele agora era uma figura de beleza andrógina e avassaladora, vestida com véus de seda branca que mal escondiam a pele pálida e luminescente. Seus olhos, antes violetas, tornaram-se orbes de um mel profundo, capazes de desarmar a vontade de qualquer mortal.
Ele deslizou pelo salão principal, movendo-se com uma graça predatória. As outras mulheres recuavam, instintivamente reconhecendo uma superioridade que não era deste mundo.
Dumuzid estava reclinado sobre um monte de almofadas, uma taça de vinho em uma mão e uma escrava em outra. Quando seus olhos encontraram os de Merlin, ele paralisou. A taça de ouro pendeu perigosamente.
— Quem... quem é você? — Dumuzid sussurrou, a voz carregada de um desejo imediato e sufocante. — Eu conheço cada flor deste jardim, mas nunca vi uma pétala tão perfeita.
Merlin aproximou-se, o som de seus pés nus no mármore sendo o único ruído que Dumuzid conseguia ouvir. O mago inclinou-se sobre o homem, o aroma de flores silvestres e magia antiga invadindo os sentidos do alvo.
— Sou apenas um sonho que você esqueceu de ter, Dumuzid — a voz de Merlin era um sussurro de seda e veludo, vibrando diretamente no centro nervoso do homem. — Você procurou prazer em mil corpos, mas nunca encontrou o que eu posso lhe dar.
Merlin sentou-se ao lado dele, seus dedos finos traçando o contorno do maxilar de Dumuzid. O toque era elétrico. Dumuzid, o mestre da luxúria, sentia-se como um amador diante daquela presença.
— O que você quer de mim, criatura divina? — Dumuzid arquejou, as defesas mágicas de sua linhagem caindo uma a uma diante do charme do Incubus.
— Eu quero... — Merlin inclinou-se, seus lábios roçando a orelha de Dumuzid, enquanto sua mão deslizava para dentro das dobras de seu véu, onde um punhal de obsidiana rúnica estava oculto. — ... que você pare de manchar o coração deste Rei.
O olhar de Dumuzid clareou por um microssegundo, o instinto de sobrevivência tentando gritar, mas Merlin selou seus lábios em um beijo que não era de amor, mas de Extração Astral.
Enquanto Dumuzid se perdia na sensação avassaladora, Merlin cravou o punhal de obsidiana diretamente abaixo do esterno, atingindo o núcleo de Prana. O impacto não causou sangue imediato, porém isso não importava, pois a lâmina era um condutor de almas.
— Durma agora, pastor de vadias — pensou Merlin, sua expressão mudando de sedutora para friamente divina.
Ele canalizou sua essência de Incubus através da lâmina, devorando a vitalidade de Dumuzid de dentro para fora. O corpo do conselheiro estremeceu, seus olhos revirando de prazer enquanto a luz de sua alma era colhida pelas runas da faca. Dumuzid tentou soltar um grito, mas Merlin manteve o beijo, drenando não apenas a vida, mas as memórias, desejos e o poder corrupto que o vinculava a Ninrode.
Em poucos segundos, Dumuzid tornou-se uma casca vazia. Merlin separou-se dele, limpando os lábios com as costas da mão enquanto o corpo do homem tombava sem vida sobre as almofadas, como se tivesse apenas sucumbido ao cansaço dos excessos.
— Um método deplorável — Merlin murmurou, sua forma voltando lentamente ao traje de Enkidu. — Mas eficaz.
As mulheres e guardas ao redor ainda estavam sob o efeito de seu encantamento de massa, movendo-se em câmera lenta, imersos em um transe de prazer. Merlin levantou-se, guardando o punhal que agora pulsava com uma energia escura.
— Duas cabeças cortadas, Gilgamesh — Merlin olhou para o topo do palácio real. — Resta saber se o corpo de Uruk conseguirá se erguer ou se apodrecerá sem os seus vermes.
Sem deixar rastro ou som, Merlin desapareceu na escuridão do jardim, deixando para trás um palácio de silêncio e um rei que, ao amanhecer, se veria verdadeiramente sozinho.