A porta de madeira da cabana de Adonias rangeu, um lamento seco e prolongado que pareceu cortar o ar estagnado da noite. O som ecoou o estado de sua alma: empenada, ressecada e prestes a quebrar.
Ao cruzar o limiar, o silêncio da casa o atingiu como um golpe físico, mais pesado do que o calor do dia. Ele esperava o choro agudo da fome, a cobrança legítima de um provedor que falhara ou o peso do julgamento nos olhos de sua esposa. Mas o que encontrou foi algo muito mais doloroso: a mansidão absoluta.
Mara estava sentada em um banco baixo de acácia, as mãos cruzadas sobre o colo em uma postura de resignação quase litúrgica. Seus olhos, profundos e calmos, eram como poços antigos que já haviam visto todas as secas; as olheiras escuras denunciavam noites em claro vigiando o fôlego curto da filha. Ao seu lado, a pequena Sara, com apenas seis anos e a pele já translúcida, tentava desenhar na terra batida do chão com um graveto seco. Ela desenhava cordeiros e espigas de trigo, como se pudesse conjurar a realidade através do pó.
— Você voltou — disse Mara, levantando-se com um esforço que fez seus ossos estalarem no silêncio.
Ela não olhou para as mãos vazias dele. Não precisava. Ela olhou para os olhos de Adonias e viu a derrota escrita em cada linha de expressão, o pó da estrada misturado às lágrimas secas.
— Eu tentei, Mara. Eu juro pelo Deus de nossos pais que tentei cada porta, cada campo, cada senhor de terras — a voz de Adonias falhou, um sussurro quebrado que parecia carregar toda a areia do deserto.
Sara correu para o pai e abraçou suas pernas. O toque da criança era leve, quase etéreo, como se a falta de sustento a estivesse desmaterializando, tornando-a transparente para este mundo.
— Papai! Que bom que chegou. Estávamos esperando você para o jantar. Preparamos a mesa, veja!
Adonias sentiu um nó apertar sua garganta até quase sufocá-lo. Jantar. O termo soava como uma blasfêmia, uma piada cruel em uma casa onde o último grão de cevada havia sumido dois dias atrás, restando apenas o farelo e a memória do gosto do pão.
Eles se sentaram à mesa de madeira tosca, manchada pelos anos e pela pobreza. Diante de cada um, não havia pratos, apenas uma caneca de barro com água morna, colhida de um poço que já começava a entregar mais lama do que vida. Não havia o vapor de uma sopa, não havia a textura do pão, não havia sequer o aroma de ervas. O vazio da mesa era uma presença física, um quarto comensal invisível e voraz que parecia devorar a luz bruxuleante da única lamparina de azeite, que morria por falta de combustível.
Adonias baixou a cabeça, sentindo uma raiva surda, vulcânica, crescer em suas entranhas. Ele fechou os olhos e viu, em flashes de puro ódio, os banquetes regados a vinho purpúreo de Joram e a mesa obscenamente farta de Elisiab, o ancião que citava a Torá com lábios gordurosos enquanto deixava órfãos e viúvas para morrer sob o pretexto de "justiça econômica".
— Vamos agradecer? — a voz de Sara era doce, uma nota de harpa em meio ao ruído de um desastre. Ela era imune à amargura que corroía o pai como ácido.
Adonias abriu a boca para protestar, para gritar que não se agradece pelo nada, mas o olhar de Mara o deteve. Ela assentiu levemente, fechando os olhos com uma dignidade que ele não conseguia compreender. Sara juntou as mãos pequenas, cujas articulações se sobressaíam pela magreza, e começou a orar com uma confiança que parecia iluminar a escuridão:
— Papai do Céu, obrigada por trazer o meu papai de volta em segurança. Ele trabalhou muito. Obrigada por esta água que refresca a nossa garganta e limpa o nosso coração. Obrigada porque o Senhor é o nosso Pastor e, mesmo que a gente não veja a comida agora, o Senhor sabe que estamos com fome e vai cuidar de nós como cuida dos passarinhos. Amém.
— Amém.
Adonias não disse "amém". Ele apertou os punhos sob a mesa até que as unhas cravassem na carne ferida. Aquela fé inabalável da filha agia como sal em uma chaga aberta. Como ela pode agradecer?, ele pensava, a mente em chamas. Ela está morrendo, o corpo dela está consumindo a si mesmo, e ela agradece pela água suja que mal engana o estômago?
O jantar terminou com o som seco das canecas sendo pousadas. O silêncio que se seguiu foi interrompido pelo som mais terrível que um pai pode ouvir: o ronco violento do estômago de Sara, seguido por um gemido de dor que ela não conseguiu sufocar. A menina dobrou-se sobre o banco, levando as mãos à barriga, o rosto contorcido.
— Dói, mamãe... dói muito — sussurrou ela, as lágrimas finalmente vencendo a barreira de sua coragem infantil. — Parece que tem pedras quentes dentro de mim.
Mara correu para pegá-la no colo, aninhando-a contra o peito seco, balançando-a freneticamente.
— Shhh, minha pequena. Tente dormir. O sono é o banquete dos anjos. Amanhã o sol vai trazer algo novo, eu prometo. O maná caiu do céu uma vez, ele pode cair de novo.
Mas Sara estava fraca demais para acreditar em metáforas. Sua pele estava pálida, com um tom cinzento de cinzas de altar, e o suor frio brotava em sua testa como orvalho fúnebre. Adonias observava a cena e algo dentro dele — a última viga que sustentava o teto de sua moralidade — rompeu-se com um estalo violento.
A semente não morre sem antes dar fruto, ele lembrou-se do ditado dos profetas. Mas a minha filha está morrendo sem sequer ter florescido.
Ele se levantou bruscamente, derrubando o banco, que atingiu o chão com um estrondo de julgamento. Adonias caminhou até o canto sombrio da cozinha e tateou a parede até encontrar o que buscava: uma faca de cabo de madeira escurecida, longa e afiada, usada outrora para o abate de cordeiros que ele não possuía mais. O brilho do aço, captando o último suspiro da lamparina, pareceu-lhe a única luz honesta naquele mundo.
— Adonias... o que você está fazendo? — Mara perguntou, o pavor subindo por sua espinha ao ver o marido empunhar a arma.
— Eu não vou ficar aqui parado assistindo minha filha murchar como uma erva seca sob o sol de agosto! — ele rugiu, os olhos injetados de sangue e loucura. — Se os homens não têm misericórdia, eu a tomarei à força. Se Deus fechou os céus e selou as nuvens, eu abrirei as portas dos armazéns dos ricos com este aço!
— Não! — Mara gritou, tentando levantar-se com Sara, que parecia um fardo de penas em seus braços. — Adonias, escute! Roubar vai selar o nosso destino diante dos homens e de Deus. Você é um homem justo! Não suje suas mãos com o pecado do sangue ou do roubo!
— O verdadeiro pecado — Adonias sibilou, a voz carregada de uma lucidez aterrorizante — é deixar uma criança ser devorada pela fome em uma terra onde os silos dos impios estouram de tanto grão acumulado! Se a lei protege o avarento e mata o inocente, então eu renuncio a essa lei!
Sara, mesmo em seu torpor de dor, estendeu a mão trêmula.
— Papai... não vá. Deus vai mandar... Ele prometeu... Ele é fiel...
Adonias fechou os ouvidos. O grito das entranhas de sua filha era mais alto do que qualquer salmo, mais urgente do que qualquer mandamento gravado em pedra. Ele sentia que, se ficasse mais um segundo sob aquele teto, seu coração explodiria em cinzas. Ele ignorou os apelos de Mara, que tentou segurar seu braço com a mão livre; ele a afastou com uma firmeza desesperada e disparou em direção à porta.
— Adonias, volte! Pelo amor de Deus, volte! — o grito de Mara rasgou a noite deserta, perdendo-se no vento que soprava das montanhas.
Mas Adonias já estava correndo pela trilha escura, a faca escondida sob a túnica e o coração batendo em um ritmo de guerra. Ele não era mais um camponês, ele era uma fera acuada caçando a sobrevivência no meio de um mundo vil.