O sol surgiu sobre Uruk como uma ferida aberta, tingindo os zigurates de um vermelho doentio. O silêncio da manhã não durou muito, elr foi estraçalhado pelo bater de metal contra madeira e pelos gritos que começaram a ecoar pelos bairros civis.
Os soldados de Gilgamesh, liderados por capitães remanescentes que ignoravam o desaparecimento de seus generais, cumpriam o decreto real. Na hotelaria de pedra calcária, a porta foi posta abaixo com um único golpe de machado.
— Shamhat! — o pai da jovem gritou, lançando-se contra os homens armados. — Levem o ouro, levem a mobília, mas deixem minha filha!
— O Rei não quer ouro, velho. O Rei quer carne — rugiu um sargento, atingindo o homem com o pomo da espada.
Shamhat foi arrastada pelos cabelos, os olhos secos e vidrados. Ela não chorava como as outras dezenas de jovens que eram conduzidas em fila indiana pelas avenidas. Seu pai jazia no chão, tossindo sangue enquanto era espancado por botas de couro, mas Shamhat apenas olhava para frente. O amuleto que Enkidu lhe dera pulsava contra sua pele.
O Grande Salão de Uruk estava imerso em uma penumbra dourada. Gilgamesh, com os olhos vermelhos pela insônia e pelo vinho, observava as jovens entrarem. O tédio ainda o consumia, mas havia uma irritação nova afligido o seu ser era os seus generais que não haviam aparecido para o desjejum.
— Tragam a primeira — ordenou Gilgamesh, sua voz ecoando com uma autoridade que parecia tremer.
Shamhat deu um passo à frente. Ela não esperou o comando dos guardas. Ela caminhou com uma postura que não pertencia a uma filha de hoteleiro. Gilgamesh inclinou-se, intrigado pela audácia.
— Você tem pressa em se deitar com seu Deus, pequena ave? — Gilgamesh sorriu, mas o sorriso morreu quando ele viu o brilho nos olhos dela.
— Eu não vim para me deitar, Gilgamesh — Shamhat disse, sua voz ressoando com uma frequência divina. — Eu vim para ensinar bons modos a você.
Antes que o Rei pudesse processar a insolência, Shamhat moveu-se. O ar ao redor dela explodiu em Prana branco. Em um microssegundo, ela estava à frente do trono. Seu punho, envolto em uma luz estelar, atingiu o maxilar de Gilgamesh. O impacto foi sônico e o Rei-Deus foi arremessado contra o trono de lápis-lazúli com tanta força que o mármore da parede atrás dele rachou de cima a baixo.
Os soldados paralisaram. Gilgamesh, em choque, tentou se erguer, o sangue dourado escorrendo do lábio.
— O quê... quem é você?!
— O seu espelho — a voz de Shamhat mudou, tornando-se a de Enkidu.
A imagem da jovem oscilou e se dissolveu como fumaça. Merlin, sob a face de Enkidu, surgiu no centro do salão. Sem dar tempo para a recuperação do Rei, ele girou o corpo e desferiu um chute ascendente que atingiu Gilgamesh em cheio no rosto. O golpe não apenas o feriu, ele rompeu as barreiras espaciais de Uruk. Gilgamesh foi lançado através das paredes do palácio, cruzando o céu como um cometa até cair pesadamente nas dunas do deserto, a quilômetros da cidade.
Ao tocar a areia, Gilgamesh tentou rugir de fúria, mas o solo sob ele brilhou. Um círculo rúnico de seis metros de diâmetro se manifestou.
— Círculo de Geena: O Abraço de Prometeu— a voz de Enkidu ecoou do nada.
Chamas brancas, que não consumiam o oxigênio, mas a própria energia vital, começaram a queimar a pele divina de Gilgamesh, mantendo-o preso em uma agonia contínua.
Longe dali, no topo da Torre de Babel, Ninrode observava o horizonte. Ele não precisava de mensageiros, pois as Túnicas de Adão permitiam que ele sentisse cada flutuação de poder no mundo. Ele sentiu a morte de seus espiões e as ações de Merlin.
Ao seu lado, um homem de presença sombria e olhos cansados observava o vazio. Era o pai de Merlin, um aliado que Ninrode mantinha sob seu controle através de pactos antigos.
— Seu filho é um tecelão habilidoso — disse Ninrode, sua voz rústica mas absoluta. — Ele cortou os fios que eu levei décadas para enredar em Uruk.
O pai de Merlin não respondeu de imediato.
— Ele não aceita o destino da linhagem, Ninrode. Ele acredita que o livre-arbítrio pode vencer a linhagem.
Ninrode soltou uma risada seca.
— Deixe que ele tente. Se Gilgamesh morrer nas mãos de seu filho, ele nunca foi digno do meu legado. Se Gilgamesh vencer, ele terá sido forjado no fogo de um mago. De qualquer forma, Babel continuará subindo até o Criador.
Ninrode virou-se para uma sombra que se desprendia da parede. Uma mulher de beleza gélida e asas negras como a meia-noite materializou-se. Era Lilith, a irmã mais velha de Merlin.
— Lilith — comandou Ninrode. — Vá. Observe o espetáculo. Se o seu irmão conseguir o impossível e derrotar o Rei de Uruk, mate-o no instante em que ele baixar a guarda. Não quero que a esperança sobreviva ao combate.
Lilith sorriu, um gesto que não continha amor fraternal.
— Será um prazer ver o brilho de Merlin se apagar, meu senhor.
No deserto, Gilgamesh lutava contra as chamas rúnicas. Ele sentia seu corpo divino sendo testado como nunca antes.
— Shamhat! Viajante! Seja lá qual for o seu nome! — Gilgamesh gritou, seu Prana dourado começando a expandir-se para conter o fogo. — Você ousa me humilhar diante do meu povo? Eu sou o Rei! Eu sou a vontade de Uruk!
Enkidu desceu lentamente do céu, flutuando sobre as dunas.
— Você não é mais um Rei, Gilgamesh. Você é apenas uma criança sentada sobre o túmulo de uma civilização. Se quer o seu trono de volta, terá que provar que é mais do que a sua depravação.