O caminho para as terras de Joram era uma descida aos infernos da alma.
Adonias corria, mas seus pés pareciam pesar toneladas, cada passo uma traição contra os salmos que decorara na infância. A faca ardia contra sua costela, um lembrete gélido de que ele agora caminhava no vale da sombra da morte, mas não como uma ovelha e sim como um lobo faminto e desastrado.
As propriedades de Joram ficavam nas encostas mais férteis, onde a água dos poços profundos ainda mantinha o pasto minimamente verdejante, um contraste insultuoso com a terra calcinada que cercava a cabana de Adonias. Ali, o ar cheirava a esterco fresco e lã, um perfume que, para um homem faminto, era mais inebriante que o incenso do tabernáculo.
Adonias saltou o muro de pedras baixas, seus movimentos desajeitados denunciando a falta de prática na arte do crime. Ele não era um ladrão; era um pai desesperado, o que o tornava duplamente perigoso e triplamente vulnerável. O curral de Joram era uma fortaleza de madeira de cedro, guardada pelo silêncio opressor da noite.
Ele parou, ofegante, as mãos tremendo tanto que quase deixou a faca cair. O balido baixo de uma cabra jovem chegou aos seus ouvidos. Era o som da vida. Era o som de leite para Sara, de carne para Mara, de sobrevivência para sua linhagem.
— Perdoe-me, ó Altíssimo — ele sussurrou, mas sua voz não subiu aos céus; ficou presa na poeira de seus pés. — Se Tu não proveste o cordeiro no monte, eu o buscarei no curral do ímpio.
Ele deslizou para dentro do cercado. O cheiro dos animais o envolveu. Ele viu uma pequena cabra, de pelagem clara, deitada a um canto. Seus olhos brilharam na penumbra. Adonias aproximou-se com a faca em riste, o coração batendo tão forte que ele temia acordar os cães de guarda apenas com o som de seu peito.
Ele se inclinou sobre o animal. A cabra, sentindo a presença estranha, tentou se levantar, mas Adonias a segurou pelo pescoço. O animal soltou um balido agudo, um grito de pavor que rasgou o silêncio da noite como um raio.
— Calada! — ele sibilou, a lâmina roçando o couro do animal.
Mas era tarde demais.
Uma luz súbita cortou a escuridão. Tochas foram acesas simultaneamente, revelando a silhueta de homens armados que pareciam surgir da própria terra. No centro do semicírculo, vestindo uma túnica de linho que brilhava sob o fogo, estava Joram. Ele não parecia surpreso, dle parecia entediado, como alguém que captura uma mosca em uma jarra de mel.
— Vejam só — a voz de Joram era como o raspar de uma pedra sobre a outra. — O piedoso Adonias, o homem que se recusa a curvar a cabeça nos altares de Baal, agora se curva na lama para roubar o que não lhe pertence.
Adonias congelou. A faca ainda estava na mão, mas ele parecia pequeno, patético, diante dos mercenários de Joram.
— Minha filha... ela está morrendo — Adonias tentou dizer, mas a justificativa morreu em sua boca seca. Diante da opulência de Joram, a fome de Sara parecia um detalhe irrelevante.
— A fome não revoga a Lei, Adonias — Joram sorriu, um brilho cruel nos olhos. — Na verdade, a Lei é muito clara sobre o que acontece com quem invade a propriedade alheia sob o manto da escuridão. Guardas, ensinem a este "justo" o valor do suor alheio.