— Aaaaah! — O grito de Adonias rasgou o ar, agudo e súbito, quando o cabo da lança de carvalho atingiu suas costelas com a força de um martelo de ferreiro. O som do osso partindo foi abafado pelo baque surdo do seu corpo atingindo o chão poeirento.
Ele tentou inspirar, mas o pulmão parecia cheio de agulhas de vidro. O gosto de cobre e terra inundou sua boca. Chutes pesados, calçados com sandálias de couro endurecido, atingiam seus rins, seu abdômen, sua dignidade. Cada impacto era uma pontuação de dor em uma sentença de morte não escrita.
— Por favor... — ele tentou balbuciar, mas a palavra morreu em um engasgo de sangue.
— Parem! — A voz de Joram, fria como o mármore, cortou a algazarra dos guardas.
O oficial se aproximou, sua sombra cobrindo o corpo retorcido de Adonias. Joram exalava o aroma opulento de vinho de tâmara e mirra, um contraste obsceno com o cheiro de urina e medo que emanava do prisioneiro.
— Você queria carne, não é, animal? — Joram inclinou-se, os olhos brilhando com uma crueldade refinada. — A fome o tornou audaz, mas a audácia em um rato é apenas um convite para a armadilha. Levem-no. Se ele quer carne, que pague com a sua própria.
Os guardas o arrastaram. Os pés de Adonias sulcavam a terra, deixando dois rastros paralelos de desespero. Eles o jogaram contra o tronco de carvalho no centro do pátio, um poste envelhecido pelo sangue de muitos outros que ousaram desafiar a ordem de ferro de Judá.
Suas mãos foram atadas acima da cabeça. O estiramento dos tendões foi uma nova agonia. Adonias sentiu seus ombros gritarem, as articulações quase cedendo sob o peso de seu próprio corpo suspenso.
— NÃO! POR DEUS, NÃO! — Adonias gritou, a voz falhando, enquanto via o carrasco desenrolar o chicote. O instrumento era uma abominação: tiras de couro trançadas com fragmentos de ossos de ovelha e pontas de chumbo.
O primeiro golpe não apenas cortou, ele explodiu na carne de Adonias.
— AAAAAAARGH! — O grito de Adonias não foi humano. Foi o som de um animal sendo estripado vivo. A sensação era de que uma corrente de fogo derretido fora chicoteada contra suas costas, arrancando não apenas a pele, mas camadas de sua própria alma.
— Um! — gritou o carrasco.
— DEUS! ONDE ESTÁS?! AAAH! — A cada número, o mundo de Adonias se tornava mais vermelho.
Ao décimo golpe, o som dos gritos mudou. Já não eram articulações de protesto, mas gemidos rítmicos, gorgolejos de alguém que cruzava a fronteira da sanidade. A dor era tanta que o cérebro, em um ato de misericórdia biológica, começou a fragmentar a realidade.
Ele viu, por um segundo, os campos de trigo de sua infância. Viu o rosto de Mara, sua esposa, sob a luz de um sábado que nunca mais voltaria. Sentiu o cheiro do pão fresco, um fantasma cruel que zombava de suas entranhas vazias.
— Vinte! — O carrasco parou. O chicote gotejava uma substância espessa e escura.
As costas de Adonias eram agora um mapa de geografia sangrenta, uma massa de carne viva onde as moscas já começavam a se banquetear. Joram aproximou-se, limpando uma mancha imaginária em sua túnica.
— Levem essa carniça para o Poço — ordenou Joram. — Se ele sobreviver à infecção, o magistrado decidirá seu destino.
Adonias foi arrastado e jogado. O impacto contra o chão de pedra úmida do poço enviou uma nova descarga de eletricidade por seus nervos rompidos. Ele soltou um suspiro longo, um chiado de ar escapando de um fole quebrado, e mergulhou na inconsciência.
Quando acordou, a escuridão era tão absoluta que ele pensou ter ficado cego. O ar fedia a excrementos antigos, mofo e o cheiro doce e enjoativo de carne em putrefação — sua própria carne.
— M-Mara... — ele sussurrou. Sua voz era um rastro de fumaça. — Sara... me perdoem...
Ele tentou se mover para longe de uma goteira que caía sobre sua ferida, mas o movimento fez sua espinha arder como se estivesse sendo serrada.
— AAH! MALDITO SEJA! — Ele socou o chão de pedra com a mão que ainda tinha forças. — Maldito seja o dia em que nasci! Maldito seja o Deus que assiste do alto enquanto os lobos devoram as suas ovelhas!
O silêncio da cela era a sua única resposta. O gotejar constante — ploc, ploc, ploc — marcava o tempo que ele não possuía mais. Ele se lembrou da promessa que fizera a Sara antes de sair naquela noite fatal.
— Papai vai trazer o jantar, pequena. Deus vai prover através das minhas mãos.
A lembrança era como uma adaga em seu coração.
Ele falhou
Ele não era um provedor, era um farrapo humano apodrecendo em um buraco. Ele imaginou Mara explicando para a filha por que o pai não voltara. Diria ela que ele era um ladrão? Ou diria que o deserto o engolira?
— Se Tu és o Senhor de Judá... — Adonias balbuciou, a cabeça encostada na parede fria, enquanto uma ratazana passava por cima de suas pernas imóveis. — Por que o palácio de Eliasib é feito de cedro e o meu é de fezes e pedra? Por que o chicote de Joram tem autoridade e a minha oração é apenas barulho?
Ele estava no fundo do abismo. Suas mãos estavam sujas pela intenção do roubo, suas costas estavam marcadas pela justiça dos homens, e seu espírito estava em frangalhos.