O deserto de Uruk, outrora silencioso, tornara-se o palco de uma sinfonia de destruição. Mas, para entender o sangue que agora manchava a areia, era preciso voltar ao silêncio que precedeu a tempestade.
Na noite anterior, o ar na hotelaria estava denso, carregado com o cheiro de incenso de murta e a eletricidade de um destino iminente. Shamhat aproximou-se de Enkidu, seus olhos refletindo a luz das lamparinas de óleo.
— Amanhã, o Rei virá — sussurrou ela, as mãos trêmulas tocando o linho da túnica de Merlin. — Ele não busca o meu coração, apenas a posse do meu corpo. Mas eu... eu não quero ser apenas um troféu na contagem de um tirano. Eu queria que meu despertar fosse com alguém que vê a alma por trás da carne.
Merlin hesitou. Em sua mente, as vozes de seus familiares Gales e Albion ressoavam como sinos de advertência.
“Não se envolva, Merlin. Você é um observador, um tecelão. Se você se entregar à carne novamente, os seus vícios voltaram!”
As cicatrizes de séculos de solidão e conflitos em planos distantes queimaram no peito do mago. Mas ao olhar para Shamhat, Merlin viu uma mulher bela com resiliência que lembrava sua falecida mãe.
A noite que se seguiu foi um borrão de intensidade e magia. Merlin não apenas se entregou a ela, ele a envolveu em um transe onde o tempo não existia. Ao amanhecer, com um beijo na testa, ele sussurrou em seu ouvido.
— Avalon
Shamhat desapareceu em uma névoa de pétalas, enviada para a dimensão segura de Merlin.
— Você está caminhando sobre o fio de uma navalha, Merlin — advertiu Albion, materializando-se nas sombras após o ato. — Não repita o mesmo erro de cair na luxúria. Se você começar a sentir fome, eu não preciso explicar não e!?
Merlin apenas ouviu, um brilho melancólico em seus olhos violetas.
— Eu agradeço a preocupação, porém o seu velho pai não e tão estúpido
No presente, o deserto rugia. Gilgamesh, envolto no Selo de Geena, soltou um grito que não era de dor, mas de uma vontade que desafiava a própria realidade. Seu Prana dourado expandiu-se em uma explosão sônica, extinguindo as chamas rúnicas de Merlin.
— Você brincou com o meu tédio, viajante! — rugiu Gilgamesh. — Agora, contemple o poder que governa os céus!
Gilgamesh estendeu o braço, e o ar se solidificou. Uma luz estelar condensou-se na forma de um arco colossal, entalhado em marfim celestial e ossos de deuses!
Arco Arishen.
— Fúria dos Céus! — gritou o Rei.
Ao puxar a corda gravitacional, uma única flecha de luz foi disparada, mas no meio do trajeto, ela se multiplicou. De uma, fizeram-se cem de cem, dez mil. O céu foi obscurecido por uma tapeçaria de projéteis estelares que buscavam o coração de Merlin.
Merlin convocou o escudo Pridwen, uma barreira de luz sólida decorada com o rosto de uma mulher sagrada. As flechas colidiam contra o escudo com o som de sinos gigantes sendo martelados.
— É tudo o que tem, Rei de Uruk? — provocou Merlin, sua voz ecoando por entre as explosões. — Use suas mãos! Mostre-me o homem por trás do arco!
Gilgamesh descartou Arishen e avançou como um meteoro. O combate corpo a corpo começou com uma violência que nivelou as dunas ao redor. Cada soco de Gilgamesh carregava o peso de uma montanha. Merlin bloqueava e contra-atacava com precisão cirúrgica, mas a força física do semideus era avassaladora.
Gilgamesh esquivou de um golpe e desferiu um uppercut poderoso revestido de prana, atingindo Merlin diretamente no peito. O som de costelas quebrando foi nítido. Antes que o mago pudesse se recuperar, Gilgamesh girou e o atingiu com um chute lateral no pescoço, arremessando Merlin centenas de metros para o alto.
No ar, cuspindo sangue, Merlin recuperou o equilíbrio.
— Lâminas do Éter: Ruptura Espacial!
Ele estendeu as mãos, criando fendas no espaço que se projetavam como lâminas invisíveis e cortantes, capazes de separar a matéria em nível atômico. Gilgamesh, contudo, não recuou. Ele rugiu, seus músculos inchando com Prana puro, e destruiu as lâminas espaciais com as próprias mãos, rasgando a magia de Merlin como se fosse papel velho.
Gilgamesh encurtou a distância em um piscar de olhos. Em sua mão direita, materializou-se sua espada mais sagrada, Ur-Kalamma, a Lâmina das Fundações.
— O seu espetáculo acabou, Mago — sibilou Gilgamesh.
Com um movimento circular perfeito, a lâmina de Gilgamesh cortou o ar. O aço divino atravessou o pescoço de Merlin com uma facilidade aterrorizante. A cabeça do mago desprendeu-se do corpo, flutuando por um instante no céu tingido de vermelho, antes que o corpo de Enkidu começasse a cair em direção às areias.
Gilgamesh pousou, ofegante, o sangue de Merlin manchando sua mão. Ele vencera, mas o silêncio que se seguiu não trazia a satisfação da vitória, apenas o presságio de que algo muito mais sombrio estava para começar.