O choque inicial não foi um som, mas um vácuo. Quando a Lâmina das Fundações, Ur-Kalamma, colidiu com a Espada da Vitória, Excalibur, a realidade ao redor deles se estilhaçou como vidro. O deserto de Uruk foi varrido por uma onda de choque que transformou dunas em crateras de vidro fundido em um piscar de olhos.
Gilgamesh sentiu seus braços vibrarem até os ossos. O peso de Merlin naquela forma era diferente de tudo o que ele já enfrentara. Era o peso de uma era que se recusava a morrer.
— Você fala de decadência, viajante, mas empunha a luz com uma fome de tirano! — Gilgamesh rugiu, forçando a lâmina contra a de Merlin. Com um grito de esforço puro, ele liberou uma pulsação de Prana dourado que empurrou o Nephilim para trás.
Sem dar um segundo de fôlego, Gilgamesh saltou para o alto, seu braço estendido evocando o Arco Arishen. Ele não disparou flechas, ele disparou julgamentos.
— Extinção de Estrelas Cadentes!
Uma saraivada de projéteis de luz estelar riscou o céu, multiplicando-se em trajetórias impossíveis. Merlin recuava, sua capa de asas de luz e sombra tecendo uma dança defensiva enquanto ele bloqueava as flechas com Excalibur, cada impacto abrindo fissuras no firmamento. A terra abaixo deles simplesmente deixou de existir, sobrando apenas um abismo de rocha exposta.
— Ele é rápido... mas está lutando com o desespero de quem tem algo a provar — pensou Merlin, seus olhos processando a trajetória de cada fóton. — É hora de lembrá-lo do que acontece quando o céu realmente se abre.
Merlin parou no ar e fincou o punho no vazio. O céu acima de Uruk girou. As nuvens foram dissipadas por um redemoinho cósmico enquanto Merlin rompia as camadas da atmosfera.
— Contemple a luz que existia antes dos seus deuses nascerem, Gilgamesh! — Merlin bradou. — Alpha Centurion!
Um rasgo dimensional abriu-se no topo da abóbada celeste, revelando o brilho frio e absoluto de uma estrela distante. Um feixe de energia concentrada, branco e denso como uma coluna de mármore divino, desceu dos céus. O calor era tamanho que o ar ao redor entrou em combustão espontânea.
Gilgamesh arregalou os olhos. Ele girou no ar, o feixe incinerando a ponta de sua capa real enquanto ele escapava por milímetros. O impacto do raio no solo criou uma explosão que poderia ser vista do espaço.
— VOCÊ É UM LOUCO! — Gilgamesh gritou, surgindo por entre a fumaça com Ur-Kalamma brilhando com uma luz dourada frenética. — VAI REDUZIR O MUNDO A CINZAS PARA ME DAR UMA LIÇÃO?
Ele colidiu novamente contra Merlin. O choque das espadas desta vez os lançou para fora da costa, em direção ao Grande Oceano. Eles se moviam em velocidades que desafiavam a percepção humana, transformando a superfície da água em uma estrada de vidro e vapor sob seus pés.
— O mundo é resiliente, Gilgamesh! — Merlin rebateu, sua voz calma em meio ao caos, bloqueando uma estocada mortal. — Você é quem é frágil!
A batalha sobre o mar atingiu um novo patamar de absurdo. A água fervia onde eles pisavam. Merlin girou o cajado e a espada em sincronia, invocando as energias polares do éter.
— Dragão do Zero Absoluto
Das águas revoltas, um dragão de gelo colossal, cujas escamas eram feitas de cristais de Prana congelado, ergueu-se e rugiu, lançando-se contra o Rei de Uruk. O frio que emanava da besta era tão intenso que as ondas ao redor pararam de se mover, congelando-se instantaneamente em estátuas de cristal.
Gilgamesh não recuou. Ele sorriu, um sorriso selvagem e genuíno. Pela primeira vez em décadas, ele não estava entediado. Ele estava vivo.
— EU SOU O REI! A NATUREZA SE CURVA A MIM, NÃO O CONTRÁRIO!
Ele investiu contra as mandíbulas da besta de gelo, partindo o dragão ao meio com um corte vertical de Ur-Kalamma. O impacto foi tão colossal que a energia de gelo liberada não se dissipou. Ela se expandiu em uma onda de choque criogênica que varreu o horizonte sul.
O oceano sob eles e por milhares de milhas atrás de Gilgamesh congelou até o leito marinho, erguendo montanhas de gelo eterno onde antes havia apenas água. Naquele momento, sob o peso do duelo entre um Nephilim antigo e um novo, nascia o deserto branco da Antártica.
Eles pousaram sobre o novo continente de gelo, ofegantes, a fumaça saindo de seus corpos quentes em contato com o ar gélido.
— Belo truque, viajante — Gilgamesh riu, limpando o suor com o dorso da mão. — Criou um túmulo de gelo para nós dois. Mas eu ainda estou de pé.
— O gelo apenas conserva o inevitável, Gilgamesh — Merlin ergueu Excalibur, a lâmina brilhando com o reflexo da aurora boreal que agora dançava acima deles. — assim como a sua inevitável derrota