O vento polar uivava entre as fendas do gelo que eles mesmos haviam criado, mas o som agora parecia menos uma ameaça e mais um pano de fundo para a estranha trégua que se estabelecia. Fausto e Gilgamesh caminhavam lado a lado, dois titãs feridos, deixando um rastro de sangue misturado à neve.
— Então você quer ser chamado de Enkidu? — Gilgamesh quebrou o silêncio, sua voz ainda rouca, mas com o tom de autoridade natural retornando. — É um nome humilde para quem quase partiu o mundo ao meio.
— Fausto é um nome que carrega fantasmas demais, Gilgamesh — respondeu o mago, apoiando-se no cajado com um suspiro cansado. — Enkidu é o que eu sou agora. O amigo que a terra enviou para impedir que o céu caísse sobre sua cabeça. Mantenha meu verdadeiro nome sob o selo de sua língua.
— Como desejar, Enkidu. Guardarei seu segredo, não por medo, mas porque nomes são moedas de poder, e você provou que a sua vale mais do que qualquer ouro do mundo — o rei deu um sorriso de canto, limpando o sangue do lábio.
A conversa, contudo, foi cortada por uma mudança súbita na pressão atmosférica. O ar tornou-se denso, com cheiro de almíscar e incenso real. Diante deles, sobre um pináculo de gelo que brilhava como obsidiana, uma mulher materializou-se. Suas vestes eram de uma seda negra que parecia viva, e seus olhos carregavam uma luxúria predatória.
— Que cena patética — a voz dela era como veludo sobre giletes. — O maior Rei de Uruk e o Caído, rastejando no gelo como cães famintos.
Fausto parou, seus olhos estreitando-se. — Lilith.
Gilgamesh, porém, deu um passo à frente, seu Prana dourado reagindo instintivamente. — Ishtar. A serva favorita de meu avô. O que a cadela de Ninrode faz tão longe de sua coleira?
Fausto olhou de relance para Gilgamesh. Então ela usava o nome da deusa do amor e da guerra naquela era. Fazia sentido, pois Lilith sempre soube onde o poder era mais fértil.
— Ishtar, Lilith... nomes são apenas máscaras para o meu tédio — ela desceu do pináculo com uma graça sobrenatural. — Ninrode me enviou para ver se um de vocês morreria. Mas ver essa "amizade" nascer é muito mais divertido. É um banquete de traição esperando para acontecer.
— Vá embora, irmã — Fausto disse, a voz gélida. — Você escolheu o lado de Ninrode. Fique com ele na sombra de Babel.
— Oh, eu não estou sozinha, irmãozinho.
O gelo ao redor deles rachou. Dois portais de sombra absoluta abriram-se. Do primeiro, emergiu um homem de meia-idade com o rosto marcado por cicatrizes de queimadura, empunhando uma espada que exalava um ódio palpável.
— Arga... — rosnou Gilgamesh. — Você deveria ter morrido no deserto onde o bani.
— Eu sobrevivi para ver Uruk queimar, sobrinho! — Arga avançou, mas não estava sozinho.
Do segundo portal, saiu um jovem de cabelos loiros e pele bronzeada, cujos olhos vermelhos brilhavam com uma força esmagadora que rivalizava com a de Gilgamesh em seu auge. Ele não disse uma palavra. Apenas avançou. Era Ur-Nungal. Em um movimento que desafiou a percepção de Gilgamesh, o jovem desferiu um soco que rompeu a barreira de som, atingindo o Rei de Uruk e lançando-o através de quilômetros de montanhas congeladas, isolando-o de Fausto.
Arga seguiu o rastro de destruição, rindo com um prazer insano. — O trono será meu, Gilgamesh!
Fausto tentou correr em direção ao amigo, mas Lilith bloqueou seu caminho. Ela não sacou armas. Em vez disso, ela abriu os braços e um nevoeiro cinzento começou a brotar do chão.
— Você fala de guiar Gilgamesh, irmão? — Lilith sorriu, e sua voz tornou-se um coro de acusações. — Como pode guiar alguém se você mesmo é um desertor? Esqueceu daqueles que chamava de irmãos?
Do nevoeiro, quatro figuras começaram a se materializar. Merlin estancou no lugar, sua respiração travando na garganta. Ele reconhecia aquelas armaduras. Aqueles estandartes.
Érimón, Lugh, Gogenar e Ryence.
Eram os Reis de uma era apagada pelo dilúvio. Seus companheiros de mesa e de guerra. Homens que Fausto deveria ter liderado até o fim, mas que ele abandonou quando a dor da morte de sua mãe o levou a se perder em orgias e no isolamento egoísta de sua própria decadência. Seus reinos caíram porque o seu general e rei, Fausto, preferiu o fundo de uma taça à estratégia de defesa.
— Fausto... — a voz de Lugh era um sussurro de sepultura, o rosto pálido e sem olhos. — Por que nos deixou para os corvos enquanto você se escondia em prazeres?
— Não... — Fausto recuou, suas mãos tremendo. — Isso são apenas ilusões!
— São as almas que você traiu, irmão — Lilith sussurrou em seu ouvido, surgindo atrás dele como uma serpente. — Ninrode me deu o poder de trazê-los do volta! Eles não querem o seu perdão. Eles querem o sangue do rei que os vendeu ao esquecimento.
Os quatro reis fantasmas desembainharam suas espadas espectrais, avançando contra um Fausto emocionalmente estilhaçado. Enquanto isso, no horizonte, o som das explosões indicava que Gilgamesh lutava desesperadamente contra a força bruta de Ur-Nungal e o ódio de Arga.
O plano de Ninrode era perfeito eliminando duas ameaças em potencial com duas cajadadas em um só coelho.