Na manhã seguinte, Munny se erguia para apagar a fogueira, mas Suzaki já estava de pé, cuidando das feridas ao lado de brasas mortas.
— Ei, espertinho, esse inchaço não parece nada bom.
— Não se preocupe — respondeu, levantando-se — não vai precisar me carregar.
— É o que vamos ver — disse vestindo um manto de pele.
Seguindo para fora da caverna, a estrada até a encruzilhada era tranquila, embora longa. Munny interrompeu a viagem para abater um animal, e Suzaki parou ao meio-dia para trocar novamente os curativos.
Os ventos cresciam em intensidade, e o solo tornava-se mais empobrecido à medida que se aproximavam do destino.
Quando se depararam com uma bifurcação na estrada, o jovem príncipe notou um caminho bloqueado por troncos caídos e uma carruagem virada. Pegou seu mapa para comparar com o que lembrava, sendo advertido por Munny.
— Esse não é o caminho, garoto. Kiiro fica mais à frente. Não dá para ficar enrolando nesse lugar.
— Estranho, essa estrada não está bloqueada no mapa. Um caminho para o Reino Aka circundando o deserto… — Suzaki então se lembrou. — Pode ter sido por aqui que eles vieram.
— Essa estrada está bloqueada há quase um ano.
— Então os homens que estão por aqui…
— Sim. Um grupo de vermelhos marginais ocupou a região. Os mesmos que vimos ontem.
— Você tem razão, precisamos nos apressar.
Suzaki guardava o mapa quando ouviu um rosnado atrás de si. Puxou a lâmina no instante em que um cão saltou contra seu braço. Munny apanhou a lança, mas foi atingido por uma flecha.
Três sujeitos surgiram com vestes vermelhas. Um empunhava um arco; dois, espadas, sendo um deles um pouco mais velho que o príncipe que gritou soltando a coleira de outro animal:
— Anda, pega, pega!
— Me entrega tudo, caçador — os outros cercaram Munny.
— Aquela caça era minha — Munny tomou uma de suas lanças para se defender. — Se quiserem roubar minha comida de novo…
— Seria muito fácil se a sua caça fosse tudo que a gente quisesse. E o pirralho? Onde conseguiu?
— Chega! É a mim que você quer. Deixe-o ir! — gritou Suzaki, arremessando um dos cães para o lado.
— Ninguém quer um imprestável como você! — apontou o adolescente do grupo. — Ainda mais um azul!
Enquanto um dos cães, ferido, corria mata adentro, Suzaki agarrou o outro e o lançou contra o arqueiro, que caiu e soltou o arco. O príncipe o chutou no chão e tomou suas posses.
Os subordinados tentaram impedi-lo de ajudar Munny, balançando as espadas contra ele, sem sucesso. Com sua baixa estatura, Suzaki desviou do primeiro ataque e defendeu o segundo com a própria lâmina. Em seguida, girou o corpo e abriu um corte no abdômen do primeiro agressor, que caiu incapacitado.
— Você vai ver só, garoto! Eu vou te esfolar! — o homem caiu, pressionando a mão na ferida.
Munny estava rendido pelos outros dois, quando um movimento de Suzaki reabriu a ferida em sua perna, e o sangue escorreu. O jovem puxou uma flecha caída e respirou fundo.
— Você é mais do que um rostinho de bebê. Mas essa sua exibição acaba agora — o jovem apontava a arma para Munny. — Qual é a sua com esse velho?
— Eu que devia fazer essa pergunta — Suzaki rangeu os dentes.
— Não dá para deixar pontas soltas. Roubou de nós, vai ter que pagar.
— Eu nem tenho mais aquela caça. Está aqui por nada, moleque — debochou Munny.
— Moleque? Pra você é, Sota Kasuko — o agressor socou seu rosto. — Devolve o arco e essas flechas, cara de bebê!
— Como quiser.
Suzaki relaxou os músculos e disparou contra Sota. A ponta da flecha mirou o antebraço que segurava a faca contra o caçador. Ele desviou mas logo foi surpreendido pela rapidez do príncipe que já havia atirado outro projétil que atingiu em cheio seu ombro.
Indefeso, o assaltante tentou rastejar, mas um pontapé de Munny o desacordou. Suzaki voltou-se e percebeu que o homem ferido anteriormente desmaiou com a perda de sangue. Correu para estancar o ferimento enquanto Munny amarrava os homens às árvores à beira da estrada.
— Desculpa, fiz uma bagunça e tanto.
— Eles estavam atrás de mim, não de você.
— É que eles mencionaram ontem estarem atrás de uma criança da… Enfim, eu pensei que fosse eu.
— Entrei nisso para me livrar deles, e quem vai pagar por tudo isso sou eu. Que ironia isso acontecer de novo…
— Do que está falando?
— Ficou bem falante de repente. Vai abrir a boca sobre onde conseguiu essa espada e como aprendeu a lutar? — Suzaki permaneceu em silêncio a pergunta. — Então não queira saber demais sobre mim.
— Sinto muito. Eu juro que vou te compensar algum dia.
— Como pretende fazer isso? Quando encontrarem esses homens, não vão parar até me matarem.
Munny se aproximou de um dos criminosos desacordados com a lança em mãos.
— O que está fazendo? Não se atreva! — Suzaki saltou à frente. — Eles tiveram a chance, e não te mataram.
— Ele estava na sua mira me usando como refém para escapar — aproximou a lança. — não seja inocente.
Suzaki colocou sua lâmina entre a arma de Munny e o corpo estirado:
— Não devemos derramar o sangue de todos com quem travamos combate.
— O que muda na sua vida se esse cara morrer ou não?
— Não podemos matá-los. É errado. Pode não mudar na minha, mas e se houver alguém esperando por eles?
— Hm, que seja! — recuou o caçador, guardando sua lança. — A estrada à frente leva a Kiiro. Ninguém vai atrás de você depois disso.
Munny tomou o caminho oposto, sem sequer se despedir, prestes a se camuflar entre os arbustos.
— Para onde vai? — perguntou Suzaki.
— Essa floresta não é mais lugar para mim, espertinho. Vou encontrar outro canto, um onde não me encham mais a paciência.
— Obrigado, Munny — disse o príncipe, observando-o partir.
De costas um para o outro. Suzaki foi deixado à própria sorte, seguindo pelo caminho apontado com um dos cavalos dos bandidos que havia derrotado. Não demorou para o solo de terra se misturar com a areia, a cada galope para fora da Floresta Negra, a noite se transformava em dia.
Foi a partir do brilho da areia em reflexo com o sol escaldante que o príncipe percebeu que já havia amanhecido há mais horas do que imaginava.
Seguindo a trilha o garoto foi engolido pelo deserto, sendo sufocado pelo calor intenso. Caminhava pelas dunas quase sem conseguir manter os olhos abertos — a areia batia contra seu rosto. — Parava, olhava ao redor, mas encontrava apenas mais grãos e mais temperatura.
“Minha água acabou… se eu não encontrar abrigo logo…”
Algumas pegadas no solo apontavam para o horizonte. Suzaki seguiu naquela direção, como se seu destino fosse o próprio sol.
“Preciso continuar… preciso… voltar para casa…”
O delírio tomava espaço em sua consciência quando avistou, a oeste, pequenas construções. O alívio se misturou com o desespero, quando o animal desabafa a algumas centenas de metros do local avistado.
Suzaki precisou terminar o trajeto sozinho, lutando com a dor do ferimento na coxa, a desidratação e sua consciência se esvaindo. Sua luta terminou em derrota, deitado nas areias quentes. Onde um homem de vestes pesadas aproximou-se, descendo de seu camelo para socorrê-lo.
— Ei, jovem, está tudo bem agora.
Molhou a boca e o rosto do garoto, que contemplou o semblante moreno e os olhos amarelos do salvador antes de desmaiar por completo.

Quando seus sentidos retornaram, abriu os olhos e, em vez de encarar a areia, viu um teto. Uma sinfonia desafinada vinha do mesmo cômodo. Uma melodia incerta mas familiar para o dono do instrumento.
“Onde estou?”
Virou a cabeça e avistou uma criança que repetiu o movimento com os olhos amarelos arregalados. Dando um último sopro na ocarina, no chão do canto do quarto.
Num impulso, saltou da cama, lançou-se sobre o menino, tapou-lhe a boca e tomou o instrumento à força, imobilizando a criança enquanto examinava o quarto. Era menor que seu banheiro imperial, contando apenas com um móvel de madeira aos pedaços e uma cama, no qual ele havia levantado.
“Se o menino está com a ocarina… onde está minha arma?”
A criança começou a chorar. Um casal entrou no quarto e deparou-se com a cena.
— Minha nossa, por favor, não machuque nosso filho! — implorou a mãe.
— Seu filho? — Suzaki soltou o menino. — Não… eu não queria machucá-lo.
A criança correu para os braços da mãe.
— O que estava pensando? Quantos anos tem?
O homem que o questionava se assemelhava com a última lembrança do príncipe no deserto:
— Não quero confusão, mas também não posso dar explicações. Só me dê minhas coisas e vou embora sem causar transtornos.
— Estão nos fundos. Aquela sua arma é pesada demais para alguém da sua idade. Como consegue carregar aquilo e ainda outra bolsa? — dizia a mulher, acariciando a criança.
— Como vim parar aqui?
— Fui eu quem te trouxe — disse o pai da família. — Você desmaiou no deserto, perto daqui.
— Eu não precisava, mas obrigado — Suzaki atravessou o quarto até a saída dos fundos, passando pela família.
— Para onde vai? — se espantou a mulher.
Suzaki seguiu para a primeira porta que encontrará, ao atravessar se deparou com o lado de fora. Uma vila modesta à beira de um rio raso. A geografia que contemplava não o deixava enganar, havia alcançado seu destino.
— Está fraco. Do lugar que veio, é um milagre ter sobrevivido — insistiu o homem indo atrás dele. — Só queremos ajudar. Não se sinta envergonhado pelo que aconteceu.
Suzaki se virou e encontrou o sujeito que o resgatou já com suas coisas nas mãos, para entregar:
— Não temos muito a oferecer, mas se quiser passar o dia aqui não tem problema.
— Não precisa se dispor — recuperou seus pertences.
— Você é jovem demais para sair por aí assim — dizia a mulher se juntando ao marido.
Suzaki ignorou as súplicas. Vestindo a jaqueta, ajustou a arma às costas e afastou-se. Caminhava pela margem do rio, estando mais distante da família que o encontrou, abriu a mochila para conferir seus pertences.
Não podia ficar mais impressionado, ao notar que não só todas as suas coisas estavam intactas, como havia um cantil cheio de água e uma túnica branca de tecido robusto para suportar o deserto.
O príncipe voltou seus olhos para a base da duna onde estava a casa, quando se distraiu com uma lápide solitária contra a luz do sol no topo do morro.
Na trilha do rio, não demorou para encontrar um transporte prestes a partir para o oeste. Averiguando o mapa, constatou que a rota não poderia ser outra, senão a capital do território dos amarelos.
Suzaki utilizou a túnica deixada pela família, não só pelo calor mas para seu disfarce, cobrindo sua longa arma e todas suas vestes, subindo o tecido até a cabeça, formando um capuz.
Pagou a passagem como todos os outros, e viajou como qualquer um, desembarcando ao sudeste de uma cidade movimentada naquela tarde, Suzaki percebia os portões fortificados.
A rigidez dos guardas que faziam a recepção. Com armaduras e lanças, cobraram documentos do cocheiro para liberá-lo junto com os clientes. O príncipe adentrava camuflado pela carruagem, descendo logo depois.
Notou uma cidade semelhante ao que reconhecia de sua casa, com construções robustas com as areias do deserto completamente invadidas pelos concretos e comércios.
“Sem dúvidas essa é a Capital Oásis”, ajustava seu capuz, escondendo seus olhos. “Como planejado pela Tia Rhea, os transportes vindos das vilas desérticas poucos são supervisionados pelos nativos, justamente por sua pobreza”.
Virou-se de costas por um momento, mas manteve seus passos firmes em frente em sua jornada.