Em um sono profundo, um garoto de olhos vermelhos que contrastavam com sua pele morena, estava diante de um espaço completamente vazio onde a única coisa que estava diante dele, era um homem de costas. O que chamava sua atenção era, além dos troncos largos, a capa branca que se estendia até seus pés.
Antes de qualquer reação do jovem, um barulho ensurdecedor de um exército marchando perturbou seus ouvidos, obrigando-o a tampa-los. Mesmo assim o som permanecia crescente, junto com um chamado pelo seu nome:
— Yanaho!
O chamado fazia ele olhar ao redor, notando uma cortina vermelha que se estendia infinitamente tanto na vertical como na horizontal atrás dele. O homem da capa branca ameaçou se virar, quando as marchas combinaram com o som de batimentos cardíacos, o garoto sentiu seu coração saltar quando…
— Yanaho, acorde! — seu pai o balançou na cama.
Saltando da cama, o jovem tinha seu coração disparando arregalando seus olhos para seu humilde pai espantado:
— Tá tudo bem, foi só um sonho.
— Está suando frio — abraçou seu filho, — foi com o homem da capa branca de novo?
Yanaho apenas assentiu suspirando fundo. Yoroho pegou em seus ombros concluindo:
— Volte a dormir, está muito cedo ainda e hoje é um dia especial.
— Não tem problema — se levantou, surpreendendo seu pai, — vou aproveitar para te ajudar pelo resto do dia.
Yoroho sorriu com a atitude do filho, observando o garoto sair do pequeno cômodo da casa. Yanaho se aproximou do celeiro da fazenda, pegando um dos baldes vazios notava o céu ficando cada vez mais claro, indicando o alvorecer. Levou o balde até um poço ao lado, com auxílio de uma corda puxou a água de baixo com muito esforço.
Se desfazendo de suas roupas, carregou o balde cheio para o lugar reservado ao lado do celeiro. Seus músculos já tremiam antes mesmo de derramar a água gelada sob seu corpo. Com auxílio de um pano seco, ele se secava e definitivamente despertava para mais um dia, observando o sol raiar no horizonte.
Voltando para os arredores do que chamava de casa, pode ver pelas falhas em uma das paredes de madeira, seu pai conversando com uma figura inoportuna. Se aproximando da porta, pode ouvir apenas a despedida dos dois com o dizer:
— Eu sinto muito, Yoroho.
Logo a porta se abriu, Yanaho em um reflexo se afastou trocando olhares com o homem de bigode grosso e olhos desconfiados de sempre. O fazendeiro Akemi partiu sem ao menos cumprimentar o jovem.
— Ei, pai — entrou na casa — o que Akemi queria?
— Já conversamos sobre isso — escondeu um envelope em suas costas, — é senhor Akemi. E n-não é nada demais.
— Então por que está tremendo? — estranhou.
— Sempre sinto frio pela manhã, não se preocupe — guardava o documento em uma gaveta, vestindo meias logo depois. — Deveríamos estar falando de você, não de mim. De pé tão cedo e já de banho tomado.
— Pensei em já adiantar as coisas pra ter mais tempo pra te ajudar. Foi meio complicado puxar a água do poço mas…
— Continue assim — interrompeu Yoroho, abraçando-o — Venha, você ainda nem comeu. Estava esperando por você.
O pai levou o filho para uma mesa com legumes e frutas, onde se sentou, enquanto o jovem permaneceu em pé. Seu pai aproveitou a deixa para continuar o assunto:
— E então, não falar nada sobre o seu sonho dessa vez? Devia contar sobre o homem da capa pro seu tio.
— Ele tem mais com o que se preocupar do que com os sonhos de um camponês — pegava uma fruta, ameaçando levar a boca.
— Não quando se trata de família. Sonhos repentinos como esses podem indicar algo importante. — cortava os alimentos — Já te disse meu filho, não deve se importar com de onde você veio.
— Eu não poderia me importar menos — se desfez da fruta, se encaminhando a saída, — mas vou pensar sobre isso depois que te ajudar no trabalho.
— Yanaho, espera — se lançou da mesa, segurando seu braço — Feliz aniversário, meu filho!
— Já é hoje? Sério? — coçou a cabeça — O-Obrigado, pai.
— Eu até queria te presentear como no ano passado, mas não consegui — balançou seu cabelo. — Encare isso como se você já estivesse ficando grandinho.
— Tá tudo bem, eu entendo.
— Essa sua cara — erguia o rosto do garoto com um toque em seu queixo, — é por conta da sua mãe de novo? Por favor, meu filho. Nós já…
— Eu já te disse que não posso ignorar isso, Pai. Hoje também é o dia em que ela se foi — afirmou atravessando a porta.
— Sua mãe não gostaria que vivesse todos seus aniversários pensando isso, tenho certeza que sua mãe já se orgulha de quem você está se tornando.
— Você sabe que não tem muito o que ser comemorado. Se eu apenas viver, o que vai valer a morte dela?
— Tudo bem, se é dever que você quer — tirou dos bolsos, as moedas — O senhor Akemi quer instrumentos para a capinagem. Vá até o comércio de materiais, e volte depressa para me ajudar.
Yanaho sorriu pela primeira vez no dia estendendo o polegar para seu Yoroho:
— Obrigado, pai.
Yanaho caminhou pelas ruas estreitas do vilarejo ainda úmidas pela garoa da madrugada. O comércio de materiais era conhecido pelo cheiro de madeira recém-cortada e ferro aquecido.
Dentro da loja, ferramentas de agricultura repousavam alinhadas nas paredes: enxadas, foices curtas, ancinhos e pás gastas pelo uso constante dos camponeses locais. O velho comerciante entregou a Yanaho duas enxadas leves e uma foice de cabo curto após algumas moedas trocadas sobre o balcão de madeira.
Carregando os instrumentos apoiados nos ombros, voltou à fazenda apenas para encontrar seu pai ajoelhado entre o mato alto que cercava a plantação esquecida pelos últimos dias de chuva.
Sem dizer muito, Yanaho deixou as ferramentas no chão de terra seca e começou a arrancar os tufos mais grossos com golpes firmes da enxada. Pai e filho aos poucos faziam o terreno voltar a revelar a terra escura e fértil, escondida pela mata espessa.
Horas passaram quando a batalha dos dois contra o solo terminou, e foi então que eles foram surpreendidos com mais uma visita do fazendeiro.
— Senhor Akemi, — tomou à frente Yoroho temendo o assunto, — não precisamos falar sobre isso ago…
— Não é com você dessa vez, mas sim com seu filho — apontou para Yanaho, — o tio dele quer vê lo.
O jovem apenas lavou suas mãos e rosto, sem se preocupar com imundice da atividade se apresentou diante de seu tio do lado de fora. Kenichi por sua vez estava perfumado e modestamente vestido como sempre, olhando o menino de baixo para cima antes de cruzar os braços.
— Até tive o bom senso de vir te parabenizar, mas vendo seu estado dá até um desânimo.
— Estava ajudando meu pai a capinar — desviou o olhar, — fala logo o que quer, tenho mais o que fazer.
— Olha só, o compromissado — sorriu sarcasticamente, — já esqueceu o que fez a alguns dias atrás? Entendeu as consequências?
— É justamente por isso que…
— Venha comigo, agora — interrompeu Kenichi, chamando pelo garoto, que não teve escolha a não ser segui-lo.

O passeio dos dois, teve destino em uma zona remota nos limites da vila, mais próximo do centro do território. Lá o garoto encontrou vários outros homens vestidos de maneira semelhante ao seu tio.
Kenichi e seu sobrinho sentaram numa espécie de arquibancada, e acompanharam uma disputa corpo a corpo de dois homens com espadas de madeira espalhadas pelo ginásio.
— Isso é… — os olhos de Yanaho saltavam. — Uma luta.
— Esses dois, são Senshis que estão aperfeiçoando suas habilidades — apontou Kenichi. — Regulando suas Praticidades, polindo suas auras e aprendendo novas técnicas.
— Prati o que?
— É o conceito que desenvolve a Energia Iro dentro de nós. A prática leva a constância, e sua energia se adapta ao ciclo de rotina de acordo com seu desgaste. É como soprar para encher uma bexiga dia após dia. Se parar de soprar, ela esvazia completamente. Cada estímulo da energia iro é um sopro, e a Praticidade é o nó para manter a bexiga cheia.
— Eu gasto mais energia para ficar mais disposto?
— A energia iro nos envolve. A cada movimento ou desgaste, ela se compromete em te manter vivo e estável. Quando se tem aura, se entende melhor isso.
Yanaho se distraia com um brilho vermelho reluzente no punho de um lutador. Ao acertar o estômago do oponente, todos assistiram ele dar dois mortais para trás antes de cair no ginásio.
— E como eu posso aprender isso — os olhos de Yanaho cresciam.
— Garoto, quero que me responda: o que você é para o mundo hoje? — perguntou, olhando o menino de cima para baixo.
— Um cidadão, tio.
— Um cidadão com duas passagens por rebeldia, e até ameaça de morte. Isso pra mim tá mais para um possível criminoso. Esses homens usam espadas de madeira para não ameaçar a vida de um aliado Aka — dizia Kenichi, — ouvi dizer sobre o que fez com a sua.
— Eu não queria machucar ninguém… eu juro!
— Mesmo assim, terá que encarar as consequências dos seus atos. — Levou uma mão na testa — Só é uma pena que seu pai tenha que pagar por isso.
— O que?! — puxou o ombro do tio.
— Ele não te contou — suspirou fundo, — Você foi condenado por desacato e ameaça de morte a um militar. Com outras passagens que ele teve com essa idade, mesmo com o meu apelo como Senshi Titular da região, não consegui livrar seu pai da punição.
— Mas por que? Ele não fez nada!
— Fez sim, ele te criou, é seu responsável direto. Ele não poderá arcar com a multa, então terá que compensar com um acordo de submissão de serviços militares — encarou o garoto.
— Não… isso é um erro!
— Devia ter pensado nisso antes — cruzou os braços.
— Mas tio, sei que não deve entender — ergueu seus braços — mas eu preciso fazer minha vida valer a pena. Minha mãe e meu pai, me encarregaram disso. Eu me sinto só como um camponês que não tem possibilidade nenhuma de treino.
— Antes disso, como um cidadão — dizia de forma sarcástica, — devia se submeter a lei, independente se sente injustiçado ou não.
— Eu só quero ser alguém nesse mundo. Eu sei que poderia ser só como as outras pessoas, como meu pai, mas… eu sinto que depois do que aconteceu com minha mãe, eu tenho que fazer a diferença. Então… eu só queria ter uma oportunidade.
— Eu entendo isso — se levantou, — agora, vamos.
— Entende mesmo? — Ia atrás dele.
— Também já fui um garoto e cidadão como você, na sua idade sempre me colocava à disposição de seu avô para o que ele precisava. Mesmo com pouco, me tornei um Senshi, tendo a lei como minha aliada — abraçou o garoto pelo ombro. — Ela devia ser a sua também.
— Você tem razão — ele balbucia, inclinando a cabeça.
— Bom, eu ainda não te dei seu Presente, pelo menos não todo. Se seu caso é só falta de oportunidade, eu quero por isso a prova.
— Do que está falando? — se colocou na frente do tio.
— Você já ouviu falar da Cidadela Restrita no território Shiro? — se aproximou dele.
— Só do antigo reino Shiro, mas qual é dessa Cidadela?
— Um lugar secreto que guarda um grande poder — Kenichi sussurrou, se levantando logo depois — se você se comportar e agir como cidadão que diz ser, posso falar mais sobre. Aproveite o tempo e coloque sua Energia Iro em ciclo, estimule a Praticidade.
“O que deu no tio Kenichi?”, pensou vendo o homem andando de costas. “Por que ele falaria algo assim pra mim?”, sorriu seguindo o tio.
Os dois voltaram a caminhar até a fazenda, Yanaho teve um olhar diferente de seu tio, que apesar de revelar uma notícia devastadora em relação ao seu pai, lhe deu pela primeira vez algo parecido como um presente de aniversário.
Após deixar seu sobrinho na fazenda, Kenichi voltava aos prédios centrais da vila da Providência. Quando subiu o último andar, notava a sala quieta porém pela janela percebia a movimentação diferente da árvore que dava altura até o andar da sala reservada do Senshi Titular que chamou:
— Sei que está aí, Onochi.
— Já faz um tempo, uns seis, sete meses? — dizia sem descer da árvore. — Como está o garoto, ainda arrumando encrencas? — completou com a boca cheia.
— Você aparece em todo aniversário dele, por que de tantos garotos você pergunta logo do meu sobrinho?!
— Eu já te disse, ele não é qualquer garoto — o sujeito arremessou as sementes que restaram da maçã que acabara de devorar.
— Estou farto disso, considero passar isso para as autoridades — franziu as sobrancelhas.
— Pode passar, eles não vão te levar a sério — ria Onochi.
— Nada disso é sério, o garoto só arruma problema — foi na direção da janela, — se tratasse com seriedade, você mesmo já teria ido pessoalmente conhecer ele.
Ao olhar para a árvore o sujeito que conversava havia sumido, ao olhar para baixo notou Onochi com suas vestes brancas de costa, exalando uma capa da mesma cor, ressaltando:
— Quando for a hora, irá acontecer.
Um vendaval partiu de sua posição chacoalhando todo o redor, Kenichi protegeu seu rosto e quando olhou novamente Onochi havia sumido sem mais nem menos.
— Já chega!