
O Abismo de Om.
Prólogo.
O espelho é o abismo do mundo?
Na verdade, essas palavras não me pertencem. Elas ecoam algo maior, completo, perfeito. A criação é onde todos habitamos. Somos espectadores que narram o percurso da forma.
A magia é o tecido da consciência e da vida. Surge da singularidade e por ela se desdobra. Estamos vivos durante toda a eternidade. No fundo do abismo, encontro-me. Sou a voz que desvela a história.
O futuro rei estava de joelhos. À sua frente, o colossal réptil se arrastava. Estava ferido, mortalmente refém do destino. O futuro rei, por sua vez, acreditava que a morte era uma ilusão, um delírio de quem escolhe abandonar a luta. Ele se levantou, cambaleou alguns passos em direção à besta, tropeçou e caiu como uma pedra impotente. O impacto coroou sua face com mais um corte.
Apoiou o peso do corpo nos braços, arrastou-se alguns metros, e nesse instante sua mentira começou a ruir, assim como a chama de sua vida.
O fôlego no limite. Os pensamentos difusos. Seus sentidos começaram a falhar, e até mesmo a dor aguda deu uma trégua. O torso perfurado, ossos fraturados e uma vontade em inércia que avança.
A besta o observou, ignorou a precariedade de seu próprio corpo, o qual estava em estado ainda mais lastimável do que o do homem. Movida por simpatia, reconhecimento e uma pitada de afeto que jamais assumiria, seu corpo — sincero e contrário ao seu orgulho — moveu-se atraído pela figura moribunda.
Por um instante seus olhos se encontraram. Os algozes que antes brandiam golpes assassinos estavam agora abraçados pelas consequências de seus atos. Ambos à beira do inevitável fim.
O futuro rei ainda era jovem, um guerreiro de renomada habilidade, herdeiro de uma aldeia nômade de caçadores. Estavam em guerra, como sempre, mas a novidade do combate não era o fato de enfrentarem um inimigo semelhante, sobrepujá-lo a qualquer custo, mas sim o azar de compartilhar o campo de batalha de uma guerra alheia. Os dragões em ímpeto. E ao lado, os humanos em fúria.
A razão dos dragões era simples, território. A dos humanos mais simples ainda, ódio. Os corpos amontoados na campina gélida descreviam o impasse. Durante o combate, flechas, lâminas, pedras, lanças, rajadas de fogo, garras e insanidade, quem atrapalhava merecia ser obliterado. Ambos atrapalharam.
O guerreiro liderou os seus em busca de sangue, o réptil, em busca de glória. Em um momento de plena intensidade, perceberam-se face a face, e como um casamento fulminante, abraçaram uma luta de desfecho.
Ambos sangrando, o dragão eriçou o vermelho de suas escamas e sugou o ar para uma baforada. O homem, por sua vez, arremessou uma rede entrelaçando a cabeça do réptil, e com êxito, se aproximou de uma ferida já aberta sobre o estômago da besta. A estocada foi profunda, mas seu corpo não tardou a voar metros de distância ao ser repelido pelo contra-ataque iminente. Despencou contra uma rocha rompendo a couraça de camadas que lhe protegia. Despido da sorte, avançou novamente, gingando ao evitar as garras. O dragão abriu as asas e indicou levantar voo, mas com as costas desprotegidas, outra besta de porte semelhante e escamas prateadas, escalou-lhe o corpo, garras que fincaram a dor e rasgaram a carne.
O homem, ofendido pela atrevida intromissão, partiu para cima do agressor, e em movimentos sincronizados, o futuro rei estocou a espada na garganta do réptil prateado, enquanto a besta vermelha a rendeu, com as presas dilacerando o vulnerável pescoço.
Não muito longe, estirado sobre a campina, um jovem inimigo sangrava em agonia. Não muito tempo depois, a besta prateada sangrou ao seu lado. Ninguém percebeu.
Naquele dia, há mais de 15 mil anos, algo que nunca imaginaram que seria possível aconteceu. Um pacto de vida e de morte, o primeiro rei dragão nasceu.