
Capítulo 1.
O enigma da Sombra.
Quando acordou, o rapaz lembrou-se de seu nome, mas não reconheceu aquele cenário estranho.
Leonel estava deitado no meio da rua. Ao lado, construções indistintas — algumas de pedra, outras de madeira — nenhuma delas vista antes.
Estava nu, e imediatamente a vergonha lhe subiu à consciência. Onde estou? Foi sua primeira pergunta.
O ar noturno estava morno. Não sentia frio — apenas o ímpeto de se esconder em algum lugar. Foi o que fez. Adentrou a ruela mais próxima, pulou uma cerca e invadiu um jardim. A casa estava silenciosa, sua presença não foi notada.
Olhou ao redor em busca de qualquer pano ou tecido, mas não encontrou nada.
Sorrateiramente continuou sua busca, de quintal em quintal. Finalmente viu uma oportunidade. Roupas. O problema é que estavam do outro lado de uma janela trancada.
Ponderou se arrombar seria o caminho. Será que seria percebido? O barulho poderia despertar o dono da casa.
Escolheu. Melhor não!
No instante em que virou as costas, ouviu o estrondo de vidro estilhaçado. Sem entender, direcionou a atenção para o evento e, absolutamente aterrorizado, se deparou com uma entidade de completa escuridão.
Mesmo no breu da noite, a figura se destacava por não apresentar qualquer contraste nem opacidade. Era apenas a pura e completa ausência de luz.
Justamente por suas características únicas, a forma e o contorno da figura eram nítidos. Um corpo, as nuances de uma identidade em molde humano.
O rapaz se preparou para ser atacado, cético quanto à possibilidade de agir ou se defender de algum modo. Encarou o destino impotente.
A sombra se adensou, ganhou volume e profundidade. Esticou os braços em direção à janela despedaçada, impulsionou-se para dentro da residência e a invadiu.
A poucos passos no interior do cômodo, sobre um varal improvisado, estavam estendidas algumas peças de roupa. Camisas, calça, meias, um casaco. A sombra, com maestria, recolheu o que lhe interessava e retornou pela mesma janela que havia quebrado.
Ainda paralisado, Leonel não reagiu, não entendeu, não questionou.
No interior da residência, novos sons surgiram: passos. Alguém desperto — provavelmente confuso e certamente inquieto — que em instantes demonstraria o que se entende por raiva.
O jovem, receoso, correu pelo espaço em frente à casa com toda velocidade que a fuga exigia. Atrás de Leonel, uma entidade o perseguia. Uma sombra de puro vazio que segurava peças de roupa roubadas sob os braços.
...
Minutos depois, a fadiga penetrou seus músculos. O perseguidor não apresentava qualquer sinal de cansaço. — Onde estou? perguntou à entidade. Que lugar é esse?
Sua consciência não conseguia concatenar as ideias. Um grande vazio de ecos preenchia a cabeça onde a razão deveria habitar.
A sombra estendeu em sua direção as roupas que carregava consigo.
Observou a umbra, ainda confuso, inseguro e, honestamente, apavorado.
Ele desistiu. Aceitou. Roupas. Qual o sentido em usar roupas? Por algum motivo era impelido a sentir vergonha de estar nu.
— Estão largas demais — murmurou.
A sombra não se movia. Não era possível distinguir qualquer traço ou particularidade frente à sua imutabilidade, mas uma coisa lhe chamou a atenção.
Ela agora parecia usar roupas. O rapaz franziu a testa, já cansado de tantas inquietações.
Leonel — se é que ainda era esse o seu nome — sentou-se sobre o gramado, na beira de uma esquina. A região desconhecida parecia ser um bairro, ou algo assim, mas estava escuro demais para distinguir qualquer coisa.
Estava sozinho. Ou melhor dizendo: aquilo próximo a ele não emanava presença alguma. Era como se nem estivesse ali — sua existência só se manifestava. Como quem arromba a percepção alheia, sem se preocupar se o indivíduo tem ou não a capacidade para entender o que os olhos veem.
Levantou-se, esticou o corpo dolorido e olhou ao redor, em busca de algum lugar mais isolado. Andou alguns passos sem rumo, descalço e sentindo as solas dos pés moldarem o solo desconhecido.
A barra da calça beliscava seus pés, mas o maior incômodo era a companhia de seu mais novo amigo. A cada passo que Leonel dava, a sombra o seguia.
Por mais escura que a noite fosse, ao se olhar para cima, por detrás de espessas nuvens, uma fraca luminosidade se apresentava. Era o suficiente para se orientar entre formas pouco definidas e evitar obstáculos não tão óbvios. Avançar assim, sem rumo, parecia perda de tempo.
— Melhor esperar por condições melhores — o rapaz disse para si mesmo.
Avançou em direção ao que lhe pareceu ser uma árvore. Um apoio emocional. Sentou em sua base e fechou os olhos. A noite sem vento, com ruídos dispersos de insetos e atmosfera neutra, envolveu Leonel em sono.
...
Junto com os primeiros raios de sol, os habitantes do vilarejo já moviam a roda da sociedade. A rua estava efervescente.
Ao abrir os olhos, o jovem despertou. Mas, ao se deparar com a sombra ao seu lado, ele definitivamente acordou. Agora podia determinar com nitidez a face, ou o que quer que aquilo fosse, da figura umbral.
Ela possuía traços plácidos e parecia encará-lo de volta. Com certo receio, dirigiu sua atenção para o ambiente ao redor. Estavam à margem de uma região arborizada, fora do campo de visão das pessoas na rua próxima.
Levantou-se curioso e, com cautela, observou pelo canto da árvore.
Homens caminhavam com enxadas em punho; uma carroça guiada por um animal marrom de médio porte; uma mulher de vestido longo caminhava com velocidade rumo ao seu objetivo. Uma manhã como outra qualquer.
Em sua mente, formularam-se algumas indagações.
Não sabia onde ou por que estava ali. Não sabia quem era. Não sabia o que fazer, mas sabia que tinha que fazer alguma coisa.
Direcionou sua atenção para a entidade ao seu lado.
— Quem é você?
Ela nada disse.
— O que você quer? — nenhuma reação.
Ah... o que deveria fazer?
Movido pela irritação, o rapaz saiu de seu esconderijo e imediatamente notou que a sombra continuava a segui-lo.
— NÃO! — disse em tom ríspido.
— Por que está me seguindo? — caminhou mais alguns passos e olhou para trás, aquilo ainda estava em seu encalço.
O pior agora nem era o medo que sentia da entidade. O que o incomodava era o comportamento dela.
— Fique longe! Ou melhor, vá embora! — ordenou o rapaz.
Conforme seguia em direção à rua, Leonel, ainda perturbado pela sombra, virou e olhou para trás. Dessa vez, ela não se moveu.
Com um sentimento efêmero de alívio, continuou, agora já em pavimento de pedras.
Conferiu mais uma vez: sim, a sombra ainda estava lá. Na orla próxima à árvore, estática. A figura humanoide rasgava a noção de realidade como um abismo negro.
Livre. Era assim que o ar fluía de seus pulmões.
Avançou por mais alguns metros rua adentro e caminhou até o momento em que o corpo travou.
Leonel sentiu uma resistência, como se o ar tivesse se solidificado em torno de seu peito. Cada passo agora parecia custar um esforço extra, o dobro do que deveria custar.
Não havia corda, não existia corrente, nada fisicamente o prendia.
Mudou um pouco de ângulo, a tensão era a mesma.
Inquieto, olhou para trás: a sombra continuava no mesmo lugar, inalterada.
Ele tentou avançar e, novamente, algo o bloqueou. Não um completo impedimento, mas uma barreira elástica.
Um dos passantes observou a cena.
— O quê? Uma atuação? Tem festa hoje? — perguntou-se.
O rapaz continuou forçando o rumo, passo a passo, com esforço evidente.
— O que é essa coisa? — gritou uma senhora às costas de Leonel. Ele não entendeu as palavras, mas ouviu o pavor no tom do grito.
Girou a cabeça e observou, de relance, o rosto de uma mulher em completa confusão e temor.
A sombra aos poucos deslizava, sendo arrastada por uma força invisível, um passo de cada vez.
O grito que chamou a atenção de Leonel também alertou outras pessoas — algumas delas já seguiam em direção ao local.
A agitação tomou conta da rua. Alguns se aproximavam, outros mantinham distância. Burburinhos de espanto. Comentários eufóricos.
— Uma coisa está deslizando pela rua — foi a frase repetida pelos arredores.
O rapaz, culpando-se pela repentina comoção, pensou: fuja daí! E no instante seguinte a resistência que sentia duplicou.
Seus pés descalços perderam o contato com o chão. Seu corpo, agora estatelado no solo, começou a ser puxado. Um arraste contínuo que nunca tinha vivenciado antes.
A cena, que já era inusitada, agora ganhava ares de apreensão.
A sombra fugia em direção à mata. Leonel, atônito, deslizava pela rua como se uma força invisível o puxasse.
A entidade sugava os olhares, mas, dentre os presentes, alguns atentaram para um jovem que estava sendo arrastado.
Uma mão bondosa se estendeu, e Leonel, por reflexo, a apertou com gratidão. O homem de meia-idade sentiu um puxão no braço.
— O que é isso? — perguntou.
Mas o rapaz não entendeu.
Instantes depois, o homem começou a ser puxado, como em um cabo de guerra, enquanto tentava resgatar Leonel.
A situação, meio cômica, chamou a atenção de outro homem, que também agarrou o braço do rapaz. Agora, dois homens e um rapaz eram lentamente arrastados pelo pavimento de rochas da rua.
Intuitivamente, aquilo foi o suficiente.
— Pare! — ordenou Leonel.
A sombra parou.