Adentraram a residência de estrutura simples — uma casa de poucos móveis e aparência acolhedora. No centro do cômodo havia uma mesa com três cadeiras. Ao fundo à esquerda, perto de uma das duas janelas, uma cama acolchoada por peles de animais ocupava um bom espaço; e, embaixo da outra janela, à direita, encontrava-se um armário repleto de utensílios. E na grande lareira, na parede oposta à porta de entrada, duas panelas eram sustentadas sobre grades.
Dois lugares eram peculiares dentro do local: o piso dava espaço para uma abertura retangular no piso, em uma aresta próxima à porta, à direita, onde a estrutura que chamava a atenção era um balcão de pedra e uma fornalha para cozinhar; e, no canto oposto — também próximo à porta —, outra abertura sobre o piso, dessa vez em escavação arredondada e com boa profundidade, local usado para higiene pessoal e banho.
— Ei, Wood, cortou as árvores do senhor Alguero hoje? — perguntou o pai, puxando uma cadeira para Roset sentar-se.
— As três toras, não é? Sim, e aparei os galhos também. Só falta entregar — respondeu o Rubro enquanto também se sentava do outro lado da mesa.
— Bom, muito bom! E pensar que quando usou o machado pela primeira vez, a única coisa que conseguiu foi quebrar o cabo do coitado — divertiu-se Bart, enquanto batia duas pedras para acender o fogo.
— Quebrou? — perguntou Roset, em voz alta, sem perceber.
— Sim, quebrou! — empolgou-se o homem. — Imagine um garoto que mal tinha a altura desta mesa, segurando um machado um pouco menor que ele. Brincando de matar ursos-pardos, só podia dar desgraça.
A moça sorriu cobrindo a boca com a mão.
— Eu nunca vi um antes. Vocês já viram? — perguntou, descontraindo-se.
— Urso-pardo, é o que mais tem aqui na parte alta. Filho, você já fugiu deles quantas vezes? E dos dragões, esses você nunca viu, certo?
Wood fechou o punho, mas não respondeu à pergunta.
— Acredita, Roset, com dragões em todos os cantos da montanha, voando pra lá e pra cá, escavando túneis ao nosso redor, e ele nunca viu um? — provocou o pai.
— Eu só vi algumas vezes — confessou a moça — e em todas elas estavam voando no céu. É perigoso encontrar um de frente, não é?
— Grande coisa, dragões… Como se isso importasse — resmungou Wood para ninguém em particular.
— É bem perigoso, sim, mas depende da espécie, sabe. Os Cavadores são mansos, e são raros os casos de morte devido a eles — tanto que são muito caçados por não causarem tanto medo nas pessoas. Já aqueles de várias asas, não sei se você sabe, mas eles costumam morar nos topos das montanhas; chegar perto deles é muito difícil por isso.
Bart não era um grande conhecedor de dragões, mas conhecia muitas histórias sobre eles.
— Os que eu vi são esses de quatro asas. Eles cruzam o céu da cidade voando bem alto. Queria ver um de perto um dia — ao confessar seu desejo, era evidente a expectativa da jovem de realizá-lo.
Bart, que finalmente conseguiu acender o fogo, puxou uma cadeira e sentou-se ao lado do filho.
— Conheço uma caverna feita por um desses que te falei. Infelizmente, não tem nenhum deles morando por lá — é só uma caverna abandonada mesmo —, mas, se quiser, te levo pra conhecer.
— Sério? Eu quero... Quer dizer, não tem problema?
— Eu levo você!
— É só uma caverna qualquer — resmungou Wood.
— Não foi isso o que disse quando fomos lá. Se me lembro bem, exploramos o lugar o dia inteiro — contrariou o pai.
O Rubro levantou-se.
— Vou buscar as malas na carroça — disse, e saiu.
— É um bom rapaz. Meio teimoso, mas é boa pessoa. Pouco mais novo que você, Roset.
— Hum...
— Espero que se deem bem, é importante nos darmos bem. Na maioria das vezes — sorriu o homem de forma calorosa.
— Acho que sim — confirmou a moça. E concentrou-se nas unhas bem cuidadas. Bart observou os cabelos ondulados penderem, cobrindo-lhe parte do rosto. Um silêncio ritmado pelo crepitar da lareira e preenchido pelo cheiro de carne cozida ocupou a atmosfera do local.
A porta abriu-se e Wood entrou, carregando duas malas de couro gasto.
— Acho que vamos precisar construir mais uma cômoda, pai — afirmou, fechando a porta.
— Então construímos.
— Precisa de mais lenha? — perguntou, ajeitando a bagagem perto da cama no fundo do cômodo.
— Não, essa deve bastar. É só pra esquentar a comida, então...
— Roset! — Bart requisitou sua atenção. — Esqueci de perguntar: você gosta de carne de cervo e grãos cozidos? E tem também ensopado de raiz de gof — explicou. — Esqueci mesmo, me desculpe por isso.
— Não, tudo bem, eu como, quer dizer, eu gosto... É, não tem problema... — Atrapalhou-se a jovem, sem saber o que dizer.
— Trouxe chá do vilarejo? — indagou Wood e voltou a sentar-se à mesa.
— Não, ainda tem um pouco no seu quarto, não tem?
— Meio barril.
— Na próxima vez que voltar ao vilarejo, eu trago.
— Tudo bem.
— Você gosta de chá de Finsy, Roset? — perguntou o homem, e logo depois olhou para trás e checou a comida.
A moça sentiu involuntariamente o gosto da bebida na memória da boca. — É muito amargo!
— Concordo, o Wood adora, nem sei por que, mas desde pequeno sempre pede chá de Finsy.
— Não é tão amargo assim.
— Quando ele era pequeno, nos tempos de frio, eu costumava encher sacos de couro e estômagos de cabra, daqueles que usam como cantis. Daí enrolava em pedaços de panos e colocava junto dele, para esquentá-lo na cama — lembrou-se Bart.
A moça endireitou-se na cadeira, olhou para os dois à sua frente e disse: — Tem roupas de inverno feitas de modo especial e preenchidas com esse chá, mesmo no mais intenso inverno elas continuam aquecendo. Pelo menos, foi o que eu ouvi dizer.
— Ouvi o mesmo — comentou o homem.
— Chá de Finsy é bem caro, não é? — perguntou Roset.
— Se você pode pagar, aquilo te pertence — entoaram pai e filho ao mesmo tempo. E caíram na gargalhada logo depois.
— O que é isso? — A moça fitou-os, intrigada, sorrindo por inércia.
— Não é nada, é só uma coisa nossa — respondeu Bart, dando as costas à mesa e retirando o almoço do fogo. — Hora de comer, gente. Ponha os pratos à mesa, filho, por favor.
O jovem levantou-se, abriu as gavetas do armário próximo à janela e, pouco depois, pratos e talheres encontravam-se à frente de cada um. Bart colocou, sobre um apoio no centro da mesa, duas panelas velhas de metal gasto, e começou a servi-los.
Todos os três pratos eram entalhados em madeira, os talheres, por sua vez, eram de metal.
— Espero que a comida esteja boa — disse Bart, com certo receio de desagradar a mulher.
Roset mastigou um naco de carne de cervo. Não estava ruim. Misturou com a raiz de gof e a sopa que acompanhava ambos; na verdade estava... — Está ótima — concluiu.
— Não sei… O que costuma beber, Roset? — questionou o homem.
— Qualquer coisa está bom!
— Chá? — convidou Wood.
— Chá?
— Chá de Finsy? O que acha? — Uma expressão de desafio transpassou de leve o rosto do rapaz.
— Tudo... Bem! — decidiu a moça.
Pela primeira vez desde que chegara, Wood percebeu o quanto a voz de Roset era suave e agradável. Isso o incomodou por um instante.
— Vou buscar — avisou o rapaz e saiu.
Os dois candidatos a cônjuges mais uma vez estavam a sós. Durante o percurso realizado do vilarejo até a cabana de Bart, eles mal haviam trocado palavras.
— Posso perguntar uma coisa? — pediu Roset, tentando não parecer curiosa — e falhando.
— Pode, o que você quiser.
— É... O Wood é mesmo seu filho? Vocês são tão diferentes. — A voz dela soou baixa e constrangida.
— Somos diferentes mesmo. Na verdade, ele não é meu filho — eu o adotei quando era apenas um bebê recém-nascido — explicou o lenhador. — Mas o criei como se fosse meu próprio filho, sabe, então o vejo como meu filho. Pode ser meio confuso de entender. — Ele tamborilou os dedos na mesa pensativo.
— Acho que entendo.
— É por isso que você nunca se casou, certo? A lei... Aquela...
— Aquela que proíbe pais viúvos de casarem até que seus filhos tenham atingido a maioridade — completou Bart.
— Sim, e o engraçado nessa história toda é que nunca fui viúvo — riu sonoramente o homem.
— Sei... — Roset resolveu concentrar-se em saciar sua fome. Bart respeitou sua vontade. Esta era uma casa bem diferente da dela — menor e mais rústica, com um único cômodo. Já sua casa possuía divisões de cômodos: quartos, cozinha e sala de visitas; não era espalhafatosa de maneira nenhuma. A família de Roset tinha uma origem simples: seu pai estabelecera-se na vila como comerciante, vendia alimentos e outras utilidades; sua mãe o ajudava em todas as tarefas; e sua irmã mais nova pulava de um lado para o outro em seu próprio universo. Estava sentindo falta deles, mesmo que estivessem separados por menos de um dia.
A porta se abriu e Wood entrou, trazendo o pequeno barril de chá. Colocou-o na mesa, procurou na estante por copos, encheu-os e os distribuiu.
Bart, que praticamente terminara o almoço, firmou os dedos ao redor do copo, levou-o à boca e, de um só gole, entornou o líquido. O chá era muito amargo e uma expressão de vitória circundou sua face barbuda ao devolver o copo à mesa. Porém, na realidade, era a voz da experiência que lhe dizia como beber esse chá. Quanto mais rápido se bebia, menos se sentia o gosto. Wood sabia disso; sua atenção estava voltada para Roset e seu dilema.
A jovem mastigava lentamente enquanto forçava a mente em uma direção feliz: lembranças doces da infância e o céu azul na estação das flores. No fundo, sabia que nada disso adiantava e que, quando colocasse aquilo na boca, teria um problema.
Com a mão trêmula, segurou a outra mão — também trêmula. Encontrou os olhos compassivos de Bart, que a fitava enquanto amparava o pulso da garota.
— Não precisa — disse ele.
Aquilo a acalmou. O medo dissipou-se, e um sorriso ganhou seus lábios.
— Tá tudo bem! — afirmou, erguendo o copo e tomando um gole. Wood virou o rosto. Todos os nervos da coluna de Roset se contorceram, sua língua pareceu borbulhar e, ao engolir, aquilo queimou como ferro derretido por todo o caminho até o estômago; sua expressão, porém, não apresentou uma ruga sequer.
Desceu o copo, respirou fundo duas vezes e voltou a comer. Não tocou mais no copo e fingiu que ele nem estava ali. Ninguém reclamou. Wood, acostumado e particularmente apreciador da bebida, a tomava naturalmente.
Bart levantou-se perante a mesa e recolheu os pratos.
Roset e Wood também levantaram-se. Fitavam um ao outro. Wood demarcava em sua mente as características faciais da suposta madrasta e, como possuía pouca experiência em interagir com mulheres, não sabia descrever o que determinava uma boa aparência, mas, se soubesse usar as palavras, diria que os longos cabelos castanhos ornavam suavemente os delicados ombros de uma jovem que, cautelosamente, evitava contato visual — apesar de os expressivos olhos castanhos delinearem harmonicamente o contorno que desvelava vívidas bochechas avermelhadas, um pequeno nariz amparado por lábios vermelhos, tenros e expressivos.
Já Roset, de soslaio, reconhecia um enteado alto e de postura firme, com olhos amplos e as pupilas negras que reforçavam a expressão acolhedora. A pele escura contrastava com seus lábios claros e volumosos; o cabelo curto e crespo coroava um rosto forte, de maxilar sólido. Os músculos não eram tão chamativos como os de seu pai, mas a distribuição pelo corpo jovial e magro oferecia melhor equilíbrio.
A pressão interna do cômodo adensou-se; uma brisa percorreu com ímpeto o ar, e um calafrio subiu pela nuca de Bart, que manuseava um prato entre as mãos. Ao virar-se, encontrou Wood paralisado: o olhar estava distante, mas focado no rosto da mulher à sua frente.
Roset, com a mão esticada, repousava um toque suave sobre o braço do rapaz, enquanto os olhos compenetrados da moça adentravam as pupilas dilatadas de Wood.
Bart abriu a boca para perguntar o que estava acontecendo, mas, no mesmo instante, a mulher, com gentileza, pousou os dedos sobre o antebraço do pretendente. Deslizando a atenção, ela focou os olhos castanhos — que agora fulguravam levemente — sobre os seus.
Da boca de Roset, após segundos jamais cronometrados, sobressaiu apenas a palavra:
— Certo.
