—Edi, corre! —gritou Taly, a voz carregada de urgência.
Edi voltou a si, segurando a espada com firmeza, enquanto Taly avançava à sua frente. Seus passos eram rápidos, quase sincronizados com os batimentos acelerados do coração de Edi. Mas, no instante em que ele se virou, uma sombra passou correndo diante de seus olhos, derrubando-o com força.
Quando levantou a cabeça, Taly havia desaparecido.
O medo tentou dominá-lo, mas ele o ignorou. Sem hesitar, Edi correu pela floresta, gritando pelo nome de Taly, cada passo ecoando no silêncio pesado da noite.
No acampamento, Torki ouviu os gritos. Um frio percorreu sua espinha. Ele saiu da tenda, assustado, e percebeu que a noite caíra de repente, envolta em trevas sufocantes. Lembrar das palavras de Loran fez seu peito apertar: “Aqui o bem se tornará presa do mal.”
Mesmo sem armadura ou arma, Torki correu, chamando por sua filha. A escuridão parecia engolir tudo ao redor. Um por um, os membros do grupo de Joran saíram das tendas, confusos e temerosos. Eles também ouviram os gritos, agora misturados, de Edi e Torki, ecoando pela floresta.
—Pai, me ajuda! —a voz de Taly cortou a noite, desesperada.
O coração de Torki se fechou em desespero; lágrimas escorreram por seu rosto. Ele avançava, tropeçando sobre raízes e pedras, destruindo tudo em seu caminho, guiado apenas pelo chamado de sua filha.
Joran corria atrás, seguindo a trilha de gritos. Aos poucos, o cheiro de vinho que antes pairava no ar desapareceu, substituído por algo muito pior: a morte. Um odor de podridão tão intenso que parecia rasgar os pulmões daqueles que respiravam.
Finalmente, Joran chegou ao ponto de origem da voz. Mas o que encontrou ali era impossível de ignorar: uma cena terrível que congelaria qualquer coração. O príncipe Edi jazia no chão, uma lança atravessando seu olho direito.
—Mylorde! —gritou Joran, ajoelhando-se, incapaz de acreditar no que via.
No silêncio sufocante que se seguiu, não havia mais esperança.
Edi Slove, o príncipe, havia caído, morto em terras desconhecidas, e a escuridão parecia rir sobre aqueles que restaram.
Torki corria pela floresta, os gritos rasgando a noite.
—Taly! Onde você está? —Sua voz tremia em desespero, quase se perdendo entre as árvores.
O medo fazia suas mãos tremerem; cada pensamento sobre o que poderia ter acontecido com sua filha apertava seu peito. Então, um grito familiar atravessou a escuridão:
—Pai! Onde você está?
O coração de Torki disparou. Sem hesitar, ele avançou em direção à voz, atravessando galhos e pedras, caindo mais de uma vez, mas sempre se levantando. A respiração era pesada, mas ele continuava a correr. Aos poucos, o cheiro de vinho que antes pairava no ar desapareceu, substituído por algo muito pior: a podridão da morte. Um odor tão intenso que parecia rasgar os pulmões de quem ousasse respirar.
Ao atravessar uma grande moita, Torki encontrou uma criança. Uma garotinha de cabelos curtos e negros, vestida com uma blusa longa que cobria seu corpo inteiro. Ela chorava silenciosa, solitária, e por um instante, Torki sentiu um fio de esperança: poderia ser Taly.
—Garota, onde estão seus pais? —perguntou ele, abaixando-se.
Ela não respondeu. Apenas continuou a chorar.
—Ignorou sua mãe? —Torki tentou novamente, confuso e perdido nos próprios pensamentos. Ele sabia que encontrar Taly ainda era importante, mas jamais abandonaria uma criança à própria sorte na floresta. Estendeu a mão para ela, pronto para levá-la consigo.
Então, algo aconteceu. A criança começou a cantar. Um coro demoníaco, repetindo os nomes deles.
—Edi… Slove… Joran… Golty… Taly… Slove… Loran… Golty… Torki… Slove…
De sua boca, parecia emergir um exército de vozes infantis, rindo e chorando ao mesmo tempo. Por um instante, Torki fechou os olhos. Ao abri-los, a criança havia desaparecido, mas o coro continuava, ecoando na floresta.
Quando olhou para trás, o que viu fez seu sangue congelar. A menina agora era uma marionete nas mãos de uma aberração. Unhas gigantes surgiam de seus olhos e boca. Um humanoide deformado, com a pele queimada e tomada por vermes, devorava seu próprio braço. Ossos expostos e unhas longas como espadas se projetavam de seu corpo, enquanto sua boca se abria de orelha a orelha, e lamentos infantis ecoavam de seu interior.
—O que é você? —sussurrou Torki, a mão tremendo de puro terror.
—Eu sou… —respondeu a criatura, apontando para ele — você.
Torki tentou fugir, mas a criatura soltou um grunhido ensurdecedor. Suas unhas perfuraram as costas de Torki, dilacerando a carne. Ele tentou revidar, agarrou o braço da criatura, mas foi inútil.
—Onde estão seus modos? Como vai se defender? —a voz rouca da criatura ecoava, cruel.
Em um movimento monstruoso, a criatura abaixou-se, puxou uma raiz do chão e a transformou em um machado ensanguentado. Lançou-o em direção a Torki, que conseguiu segurá-lo e tentou golpear, mas as raízes se enredaram em suas unhas, prendendo sua mão e causando dor excruciante.
—Meu pai era médico… Ele dizia que se algo doía, você arrancava —Torki murmurou para si mesmo, antes que a criatura arrancasse seu antebraço, fazendo o sangue jorrar e formar uma poça ao seu redor.
Ele tentou fugir, mas a criatura atacou novamente, arrancando-lhe uma perna. Torki se arrastava pelo chão, gritando em meio à dor, sangue e horror.
—Acho que terminamos aqui… Mas não se preocupe, talvez sua filha o encontre —a voz da criatura ecoou enquanto se preparava para partir.
De repente, uma corrente voou pelo ar, envolvendo o pescoço da aberração e lançando-a para longe. Ela tentou se levantar, mas um corte arrancou sua mão, e agora era ela quem gritava.
Várias figuras surgiram da escuridão, vestidas com peles de animais, cercando Torki e protegendo-o. Entre elas, uma se destacou. Um jovem de pele clara, olhos heterocromáticos — um azul, outro verde — cabelos negros como a noite, segurando uma espada com um líquido verde que transformava o sangue da criatura no mesmo líquido. Ele era Quintos.
—Maldito! —gritou a criatura, correndo novamente para a escuridão.
Quintos tentou prendê-la com a corrente, mas ela quebrou.
—Mesmo que fuja… já está condenado —disse Quintos, observando a criatura desaparecer.
Ele então se voltou para Torki, coberto de sangue, e ordenou:
—Levem-no.
Quintos manteve o olhar fixo no ponto onde a criatura havia desaparecido entre as árvores. Atrás dele, Torki era amparado pelos homens do grupo, que pressionavam panos contra os ferimentos, tentando conter o sangramento que ainda escorria de seu corpo mutilado.
Por um instante, Quintos pareceu querer persegui-la. Mas então se virou, ajoelhando-se ao lado de Torki para
ajudá-los.
— Não o deixem dormir — ordenou, firme. — Se fechar os olhos, não volta.