#Durante o Século Sombrio
Nas antigas Ruínas de Blasfêmo, no extremo sul de Aldernys, a terra havia desistido de viver. Nada nascia ali. O solo apodrecia lentamente, rachado, negro, como carne morta. No centro das ruínas, um abismo colossal se abria no chão, profundo demais para que a luz alcançasse o fundo.
De dentro dele vinham gritos.
Gritos intermináveis, ecoando sob a terra.
Uma massa informe de sangue-sugas rastejava pelas paredes da cratera, corpos retorcidos, unhas cravadas na pedra, bocas famintas se abrindo e fechando sem cessar. Elas se acumulavam à beira do buraco como uma maré viva, pulsante.
À margem do abismo, duas criaturas demoníacas observavam. Usavam roupas rasgadas, como se ainda tentassem imitar a forma humana. Em seus rostos deformados, restos de pele humana ainda se mantinham presos, esticados de maneira grotesca.
— Quantos tem aí embaixo? — perguntou uma delas, a voz áspera.
— Muitos — respondeu a outra, em tom grave.
— Disseram-me que são mais numerosos que todos os humanos que existem.
A criatura suspirou lentamente.
— E são. Muito mais numerosos que os Trones.
A outra inclinou a cabeça, curiosa.
— Por que você chama os humanos de Trones?
Ela não teve tempo de ouvir a resposta.
Uma espada atravessou seu peito por trás, rasgando carne, ossos e palavras. O demônio arfou, os olhos arregalados, antes de cair de joelhos.
O segundo se virou instintivamente para atacar, mas a figura encapuzada já estava em movimento. Uma adaga presa a uma corrente foi lançada com precisão brutal, perfurando-lhe o olho. A criatura gritou, tropeçou para trás, e Quintos puxou a corrente com força.
O corpo caiu na cratera.
As sangue-sugas o alcançaram antes mesmo que tocasse o fundo.
O primeiro demônio, ainda vivo, cambaleou, tentando entender o que acontecia.
— Quem… quem é você? — conseguiu perguntar, a voz falhando.
A figura então retirou o capuz.
Era Quintos.
— Você não precisa saber.
Num movimento seco, ele cortou a garganta da criatura com a adaga e empurrou o corpo para o abismo. O sangue escorreu abundante — mas algo estava errado.
As sangue-sugas começaram a sangrar pela boca.
Seus corpos se contorceram. O sangue que bebiam se transformava em veneno. Uma a uma, elas atacaram aquelas que já estavam morrendo. As mordidas espalharam o veneno rapidamente. Em instantes, o enxame se voltou contra si mesmo.
Gritos. Convulsões. Carne se dissolvendo.
As criaturas se destruíram mutuamente até que restasse apenas silêncio… e corpos apodrecendo no fundo da cratera.
Quintos observou a cena por um momento, satisfeito.
Então virou-se e partiu, deixando para trás apenas morte e um abismo ainda faminto.
#Em Divisa
Torki despertou sob um teto que não reconhecia.
O corpo não lhe obedecia. A dor vinha em ondas lentas e profundas, como se cada batida do coração lembrasse o que havia sido arrancado dele. O olho esquerdo não estava mais lá. A perna, ausente. A mão, também. O ar entrava com dificuldade nos pulmões, curto, pesado.
Levou a mão restante à cabeça, tentando se agarrar às memórias.
Então ouviu a voz.
A voz da criatura.
O som ecoou em sua mente como um sussurro enterrado no osso. O coração disparou. Os dedos começaram a tremer de forma incontrolável.
— Você finalmente acordou — disse uma voz feminina.
Torki virou o rosto com dificuldade.
Uma jovem entrou no quarto. Tinha cabelos negros, longos, olhos vermelhos atentos e uma pele pálida que contrastava com as sombras do aposento. Era baixa, mas sua presença ocupava o espaço com naturalidade.
— Quem é você…? Onde eu estou? — perguntou ele, tentando esconder o medo.
Ela inclinou a cabeça em reverência.
— Meu nome é Alby Stan.
Torki tentou se levantar de súbito.
A dor atravessou seu abdômen como uma lâmina.
— É melhor não se mover — disse Alby, aproximando-se para ajudá-lo a deitar novamente. — O senhor ainda não está curado.
Ele respirou fundo, forçando a calma.
— Voltamos para Maryd?
— Não — respondeu ela. — Estamos em Marvet.
Torki franziu o cenho.
— Nunca ouvi falar.
Alby sorriu de leve.
— Não me surpreende. Fomos esquecidos com o tempo… mas, no passado, nossos ancestrais já se conheceram.
A confusão cresceu.
— Se estamos em outra nação — disse ele — como você fala a língua de Maryd?
O sorriso de Alby se ampliou um pouco.
— Gosto de absorver conhecimento. Só isso.
A resposta não esclareceu nada.
Então a lembrança veio como um golpe.
Taly.
— Onde está minha filha?! — gritou Torki, tentando se erguer novamente.
— Por favor — disse Alby, firme, mas gentil, ajudando-o a se deitar outra vez. — Não se mova. Joran a encontrou perto dos Muros da Sombra.
Ao ouvir aquilo, Torki relaxou. O ar finalmente entrou nos pulmões.
— Loran… — murmurou. — Tem mesmo um filho de ouro.
As pálpebras ficaram pesadas.
Uma fumaça suave começou a se espalhar pelo quarto.
Alby havia acendido uma erva do sono — suficiente para derrubar qualquer humano comum. Torki apagou lentamente, o corpo rendendo-se ao descanso forçado.
Ela apagou a erva e saiu do quarto.
Quintos a esperava do lado de fora, encostado na parede ao lado da porta.
— Como ele está? — perguntou.
— Forte — respondeu Alby. — Nenhum humano normal teria sobrevivido àquilo.
— Coloque mais guardas no quarto — disse Quintos.
Ela assentiu, mas antes de sair, perguntou:
— E aquela criatura… já encontrou os restos?
— Não — respondeu Quintos. — Mas certamente está morta.
Alby riu baixo.
Levou a mão até a adaga presa ao peito e a puxou de repente. Quintos se sobressaltou.
Ela cortou a própria mão sem hesitar. O sangue escorreu e com ele, o veneno.
Nada aconteceu.
— Esse veneno é letal — disse ela, observando a ferida com curiosidade. — Mas se eu consigo um antídoto… o que impede eles de conseguirem também?
O sorriso em seus lábios era perigoso.
Quintos suspirou e tomou a adaga da mão dela.
— A diferença — disse ele — é que eles não são você.
Alby sorriu.
Quintos se afastou da porta.
Ao longe, Joran observava em silêncio o quarto onde Torki dormia.
Então se virou.
Viu Taly, filha de Torki, se aproximando.
Taly parou diante da porta.
A mão ergueu-se, mas não teve coragem de tocar a madeira. Seus olhos estavam vermelhos, pesados, e as lágrimas escorriam em silêncio antes mesmo que ela percebesse. Respirou fundo. Uma vez. Duas.
Então entrou.
O quarto estava em silêncio. O cheiro de ervas ainda pairava no ar. Torki dormia, imóvel demais para alguém que sempre parecera indestrutível. O corpo mutilado, envolto em faixas, parecia menor do que ela lembrava.
Ao vê-lo assim, Taly sentiu o mundo ceder.
Caiu de joelhos ao lado da cama, cobrindo o rosto com as mãos. O choro veio sem som, sufocado, carregado de culpa. Tudo aquilo a dor, a guerra, o sangue parecia pesar sobre ela.
— O que você está fazendo?
A voz ecoou pelo quarto.
Taly se virou bruscamente. Joran estava à porta, a expressão dura, os olhos frios. Não parecia surpreso.
— Você não precisa saber — respondeu ela, a voz tremendo de raiva e medo ao mesmo tempo.
Joran deu alguns passos para dentro.
— Não diga nada dos nossos planos a eles — disse, em tom baixo e firme. — Lembre-se: você também está envolvida no assassinato do seu primo.
As palavras caíram como lâminas.
Sem esperar resposta, ele se virou, saiu do quarto e bateu a porta com força.
O som ecoou.
Taly permaneceu ali, sozinha, chorando perguntando a si mesma se havia feito a escolha certa… ou se já era tarde demais para voltar atrás