#O Grande Salão
O grande salão de Divisa estava vazio, iluminado apenas pela luz que atravessava as altas janelas. Tapetes dourados e vermelhos cobriam o chão de pedra. Nas paredes, pendia a bandeira dos Marvet: uma caveira escura com uma flor nascendo da boca.
No centro, uma longa mesa.
Quintos e Alby sentavam-se frente a frente, servidos por um banquete farto que contrastava com o clima pesado do castelo.
— Aleksandr foi para Barzel Chazak? — perguntou Alby, distraída, enquanto comia.
— Vi ele atravessando Divisa — respondeu Quintos. — Mas não acredito que ficaria em uma nação aliada de Eduart.
— Faz sentido — disse Alby, com um sorriso irônico. — Ele não é idiota… não como você.
Quintos pousou os talheres com calma. Suspirou.
— Tem notícias do seu irmão?
O sorriso de Alby desapareceu.
— Nada — respondeu, cansada. — Já fazem dois anos desde que ele sumiu.
— Alan sabe se cuidar — disse Quintos. — Mas e o outro?
O olhar dela se fechou.
— Antônio? — murmurou. — Ou Kuro, como ele gosta de ser chamado?
— Houve alguma notícia dele?
— Apenas a mesma de três anos atrás — respondeu Alby. — Durante a campanha de extermínio dos Hor.
— Hector não disse nada depois daquele incidente?
— A verdade é que, mesmo sem sangue berserk… Kuro foi capaz de vencer Hector e Alan.
Quintos voltou a comer, pensativo.
— Sim. A campanha falhou por causa dele.
Alby respirou fundo.
— Mas naquele dia… nós soubemos que ele havia retornado.
Quintos ergueu o olhar.
— Inacreditável saber que Blasfêmo estava em Horos.
Ele se levantou da mesa, pegando a espada.
— Vai aonde? — perguntou Alby.
— Vou seguir seu conselho — respondeu ele. — Caçar aquela criatura.
Alby sorriu.
— Eu vou com você. Só vou trocar de roupa… algo mais confortável.
Quintos suspirou.
— Seja rápida.
— Pode me observar, se quiser — disse ela, com um sorriso provocador.
Quintos a olhou de cima a baixo.
— Deixo pra próxima. Quem sabe daqui a cinquenta… ou cem anos. — Fez uma pausa, zombeteiro. — Só não pode continuar desse tamanho.
Alby revirou os olhos, rindo.
E, enquanto se afastavam em direções opostas, o castelo permanecia em silêncio, guardando segredos demais para ruir de uma vez.
#Na Floresta
Quintos e Alby caminhavam sem pressa pelos arredores da floresta. As árvores eram antigas, de troncos largos e raízes expostas, e o som de seus passos se perdia entre o farfalhar das folhas e o canto distante de insetos invisíveis.
— Sentiu falta daquele tempo? — perguntou Alby, quebrando o silêncio.
— Já passei por tantos tempos — respondeu Quintos, sem diminuir o passo.
Ela sorriu de lado.
— Eu me refiro àquela época… você, Aleksandr e Alan.
Quintos demorou a responder.
— Aquele tempo em que tentávamos não nos envolver na Guerra dos Herdeiros — disse por fim. — Eram bons tempos.
Continuaram andando até que a floresta se abriu diante deles.
Um imenso campo surgiu, banhado pela luz suave do fim da tarde. Borboletas coloridas dançavam sobre rosas silvestres, espalhadas como manchas vivas entre a grama alta. O ar era doce, quase embriagante.
Quintos parou por um instante.
— É impressionante — disse, com um leve sorriso. — Andei por quase toda a terra… e ainda assim, lugares como esse conseguem me surpreender.
Eles caminharam até o centro do campo e se sentaram para descansar. Alby se deitou na grama, fechando os olhos, deixando que o perfume das rosas a envolvesse.
— Mesmo um reino como Marvet tem seus charmes — comentou ela.
Quintos também se deitou, as mãos cruzadas sobre o peito, os olhos voltados para o céu que começava a mudar de cor.
— Aliás, Quintos… — disse Alby, após um breve silêncio. — Você tinha família antes de ser amaldiçoado?
Ele virou o rosto apenas o suficiente para olhá-la.
— Por que isso agora?
— Você nunca me contou — respondeu ela, sem abrir os olhos.
Quintos voltou a encarar o céu.
— Eu tinha… acho que cinco irmãos. Ou mais. — Fez uma pausa. — Não me lembro ao certo. Também tinha pai e mãe. Éramos felizes. Todos nós.
— Algo mudou? — perguntou Alby, em tom baixo.
Quintos suspirou.
— Eu descobri que toda família tem seu lado obscuro.
Alby não insistiu. O silêncio se estendeu por alguns instantes. Uma única lágrima escorreu de seu olho, perdendo-se entre a grama.
— Eu também gostaria de ter uma família — disse ela, quase num sussurro.
— Você é jovem demais pra pensar nisso — respondeu Quintos. — Ainda tem que crescer muito… e não é só na altura.
Alby abriu os olhos e se sentou de repente, o rosto levemente irritado.
— Engraçadinho.
Ela se levantou e começou a alongar o corpo.
— Já vai anoitecer. Que tal montar uma fogueira?
— Você busca a lenha — disse Quintos, sem se mover.
— Claro. Os velhos precisam descansar — respondeu ela, rindo, antes de se afastar em direção à floresta.
Quintos permaneceu deitado, observando o céu.
Foi então que algo o observou de volta.
Entre as sombras das árvores, uma figura imóvel se escondia. A máscara de ouro, a armadura dourada, as garras curvas. Um odor antigo de decomposição se misturava ao perfume das rosas.
Blasfêmo.
Ele não se moveu.
Não respirou.
Apenas observou Quintos em silêncio.
E a floresta, por um instante, pareceu prender o fôlego.