Os passos do trio ecoavam suavemente pelo solo de pedra levemente fria da cidade do Norte, enquanto saiam do local onde repousaram na noite anterior, marchando pelas ruas da cidade subterrânea, iluminada pelos postes de luzes brancas, que se erguiam ao alto, fazendo os olhares terem de se levantar para alcançarem seu brilho. Allianore liderava a caminhada, estando um pouco mais a frente do grupo, no centro da formação. Não havia melhor lugar para a jovem, não era á toa que ela inspirava seus companheiros. Mesmo com um sentimento de preocupação, e sentindo sua essência fraca, quase se apagando, seu olhar e seu semblante exalavam determinação e convicção a cada passo que dava adiante.
A jovem observa o ambiente com atenção, esboçando feições que não só entregavam, como também ressaltavam que ela estava em um lugar novo, o qual nunca tinha nem pensado em estar, em um passado não muito distante. Lançando uma pergunta ao seu grupo, Allianore buscava saber onde estavam, assim como, o desfecho do que o grupo havia enfrentado recentemente naquela região.
— Esta é a cidade do Norte? Como conseguiram a localizar?
Ethan caminhava em seu lado direito, seu olhar sério perante a situação atual. Ao ouvir as perguntas de sua líder, seus olhos se desviam até ela, o guerreiro não tinha muito gosto por se lembrar daquele momento, e com certeza jamais teria. Ainda assim, ele a respondia de imediato, a revelando o que ela havia perdido enquanto estava inconsciente.
— Sim, a cidade subterrânea. Tivemos um desafio enorme contra aquela criatura, terminamos com nossos corpos quase não respondendo mais.
Annastasia caminhava ao seu lado esquerdo, ela ouvia brevemente a conversa que se iniciava entre os dois, aproveitando para comentar, ao erguer um de seus indicadores e dizer em um tom que indicava carisma, e que sem dúvidas aquele confronto não foi nem um pouco agradável.
— E eu já aproveitei para deixar anotado, as aberrações mais sinistras são as piores! Mas, no final, conseguimos achar a cidade, foi mais difícil que achar agulha no padeiro, ainda assim, tivemos esse feito na nossa conta.
O grande portão da entrada se mostrava presente para os olhos ao longe, enquanto a jovem de cabelos ruívos ouvia ambos com atenção, conseguindo sentir o peso em seus ombros do que seus companheiros passaram, além de conseguir pesar a dificuldade que eles tiveram em tal desafio, ela então descobria o preço da ausência de um companheiro.
— Com o nível dos empecilhos aumentando, não podemos hesitar em acreditar que o que almejamos é possível — Allianore comentava, continuando a olhar para a sua frente, notando um movimento mais agitado diante do portão da cidade, onde anões se reuniam — Sinto um mau pressentimento, algo está errado aqui.
Anna lançava seus olhos para onde sua amiga olhava, notando os anões na entrada e, logo, esboçando um comentário que misturava dúvida e curiosidade de forma homogênea. Os ventos que seguiam para dentro da cidade não revelavam nada ao grupo, o que os deixava levemente inquietos, enquanto a jovem dizia
— Tomara que eles estejam discutindo algo bom, como montar um sistema de aquecimento para a cidade, estou começando a achar que viver no calor do Oeste não é tão ruim assim.
— Ficaremos atentos, o clima entre os anões não me parece cheirar nada bem — Ethan comentava, também os observando, enquanto o grupo se aproximava a cada passo do que viria a seguir.
Nas proximidades do grande portão, os ouvidos do trio já eram capazes de ouvir os murmúrios do grupo de anões, suas falas se misturavam entre si, e os seus tons levemente mais baixos dificultavam a descoberta sobre o que estava a ocorrer naquela área da caverna. Ao se colocarem diante da pequena multidão, Allianore se mantinha um passo a frente dos dois, posicionados ao seu lado, ela erguia suas duas mãos na altura de seu peitoral e batia breves palmas, para chamar a atenção do grupo de anões. O silêncio se instaurava no local por um momento, até a jovem perguntar a todos, em busca de alguma resposta.
— O que está havendo aqui? Algum problema?
Os anões a olhavam, alguns franziam as sobrancelhas, se intrigando com a curiosidade e com a presença do trio, outros permaneciam tensos sem esboçar qualquer outra reação. Até que um dos anões mais próximos de onde eles estavam, olhava para Allianore e comentava com ela de maneira curta e direta.
— Novos viajantes se depararam com cada vez mais criaturas pelo caminho até a cidade. Se este assunto não se resolver, mais nenhum viajante poderá ousar vir até a região.
Os murmúrios voltavam, um após o outro, infestando o ambiente por mais uma vez. A jovem de cabelos de fogo, parava por um momento, a dupla ao seu lado apenas ouvia, em meio a olhares sérios. Annastasia inclinava levemente seu chapéu para baixo, cobrindo sua testa. Ethan olhava para a sua líder, por um momento a intuição do guerreiro o dizia que ela não deixaria esta oportunidade fugir de suas mãos
— E se nós ajudarmos a lidar com elas?
Os anões pareciam pesar a ajuda que era oferecida a eles, interagindo entre si, até um deles comentar para Allianore, em um tom firme para ela. Eles aceitariam a ajuda oferecida, contudo, deixavam algo claro em meio aos ventos.
— Podem ajudar. Mas, vamos ter uma grande dor de cabeça caso morram, não somos de dar más noticias a seus parentes.
Annastasia acenava em positivo com a cabeça, assim como Allianore, ambas só tinham uma a outra por longos anos. O comentário do anão as fazem se entre olharem, seus olhares se cruzam e, então, ambas demonstravam estarem dispostas a continuarem juntas, com o brilho no olhar de Alli e o comentário carismático de Anna.
— Tudo o que preciso é de minha melhor amiga e de uma boa bebida!
— É assim que se fala — Allianore sorri para sua amiga, voltando sua atenção a sua frente e, então, finalizando para eles — Vamos indo, temos algumas criaturas para visitar.
— Na última luta, eu cheguei até o meu limite. Esta jornada está me mostrando que sou bem menos que um guerreiro invencível, eu tenho muito o que evoluir — Ethan comentava, sua busca por reaver a sua honra como lutador prosseguia, enquanto que seu mundo se mostrava ser muito maior do que ele imaginava ser.
— Eu lhe entendo muito bem — Allianore comentava, ao virar a sua cabeça e olhar para ele — Sabia que era uma jornada longa. Mas, tem sido muito mais desafiador que o esperado.
— Não se preocupem, se sobrevivermos a primeira rodada fica por minha conta!
Annastasia comentava, enquanto o grupo voltava a marchar, dessa vez passando pelo portão da cidade do Norte. O frio os recepcionava novamente, os ventos uivam e cortam a pele constantemente. Anna esfregava os seus braços, na tentativa falha de se aquecer, esboçando um comentário sobre presenciar por mais uma vez aquele clima hostil.
— É mais frio do que eu me lembrava!
Eles seguiam até os seus cavalos, montando sobre eles e se posicionando lado a lado. Ethan desenrolava o mapa do norte, seus olhos o analisavam, o lendo com atenção, enquanto os ventos remexiam as pontas do pergaminho. Ele dizia para suas companheiras, enrolando novamente o mapa e o segurando em uma de suas mãos.
— A prisão do norte fica a Leste da cidade, se houver algum inimigo por lá, não teremos escolha se não lutar mais uma vez...
A líder observa o ambiente, os fios de seu cabelo ruivos voavam na direção oposta de seu olhar. Naquele momento, a jovem já havia feito a sua maior escolha e estaria disposta a encarar as consequências, e os desafios do que decidiu trilhar em sua vida. Ela afirma, em seguida avançando com seu cavalo branco, que quase se camufla na neve que caia e preenchia o chão da região.
— Venha o que for, eu estarei disposta a impedir, com ou sem minha essência — Allianore sentia o colar que segurava a garra tocar seu peitoral, sua essência ainda fraca, ela não ardia com sua determinação como antes, apenas a acompanhando em completo silêncio.
Os cavalos avançava em velocidade, na direção de seu objetivo, momentos se passavam de forma lenta, o clima hostil não era reconfortante, ele os testava até o final. O trio avistava a silhueta de uma construção alta mais a frente, ao se aproximarem, a mesma se revela em destroços, não era pelo tempo, e sim por algo que testaria quanto o grupo sacrificaria de si mesmo, para cumprirem a sua missão. Uma criatura parecia sobrevoar em volta da prisão, procurando por algo em meio ao que restava dela.
— Todos prontos? — Ethan perguntava, a resposta era óbvia, não necessitava de certeza.
— Agora não tem mais volta — Allianore leva uma de suas mãos até o cabo de sua espada, ela olhava em direção a criatura e, em meio a determinação e incerteza, ela decidia arriscar tudo para que seu povo seja lembrado novamente.