Depois de me acalmar, percebi que tudo estava um tanto estranho.
Era isso, na verdade: estava normal demais. E esse "normal" é que soava fora do lugar, depois de tudo que tínhamos acabado de ver. O tipo de silêncio que não convida a relaxar - só engana, por um tempo.
Abri o sistema, e ali consegui ver uma das mudanças.
Todos os meus atributos-
Tinham aumentado em 1.
"...foi isso?"
Fiquei parado, olhando pro número por um tempo bom demais pra ser saudável, o dedo quase tocando a tela translúcida como se aquilo fosse mudar alguma coisa.
Talvez.
Talvez tenha sido isso que aquela sensação agonizante deixou no meu ser. Mas caramba, toda aquela dor, aquele fogo por dentro que eu ainda sentia latente nos ossos, só pra render um único ponto? Bom, melhor do que nada, ao menos - não posso ser ganancioso.
Continuei ali, tentando entender se aquilo era um efeito colateral do pesadelo ou algo separado. A cabeça ainda latejava de leve, um resto do que tinha acontecido, e minhas mãos, quando eu olhava pra elas, ainda tremiam um pouco - o tipo de tremor que só passa depois que o corpo se convence de que o perigo já foi embora. Não cheguei a lugar nenhum.
Foi quando, do nada, algo mudou no ar.
Quase imperceptível - um som do tipo que o corpo reage de uma maneira instintiva antes mesmo do ouvido confirmar.
"Ei, Kai... tá ouvindo isso?"
Ele parou o que estava fazendo na hora, os olhos indo direto pra mim.
"É... não, senhor Ed... o que o senhor está ouvindo?"
Fiquei em silêncio, prestando atenção, o corpo todo tenso, cada músculo travado numa postura de quem está pronto pra correr ou lutar sem saber ainda qual das duas. Tentei isolar aquele som do resto - do vento raspando na madeira, da respiração pesada do Toshi do outro lado do cômodo, do meu próprio coração batendo alto demais no peito.
E então...
De novo.
Passos pesados. Metal. Um som de arrastar, baixo e constante, vindo de algum lugar lá fora - o tipo de barulho que só uma armadura pesada, ou uma arma grande demais pra ser carregada com conforto, produz. Cada passo, embora silencioso, gerava um desconfortável quase automático.
"Barulho de metal... passos... metal pesado."
Nos levantamos devagar, o coração já batendo rápido demais pra ser ignorado, a garganta seca de repente, a transpiração começou a acontecer de forma mais acelerada.
Fomos até as janelas da cabana sem fazer barulho. Com o chão de madeira, cada passo virava uma aposta - um estalo errado, e toda vantagem que a gente tinha ia embora num segundo. Senti o suor frio na nuca antes mesmo de chegar perto o suficiente pra ver qualquer coisa.
Quando chegamos, olhamos pra fora.
E lá estavam.
Um grupo grande, se movendo em direção ao boss, numa formação que não parecia improvisada - como quem já tinha feito aquele caminho antes.
Meu corpo travou por um segundo, o ar preso no peito.
"Ei, Kai... aquele grupo, ele nãoparece peculiar?"
"O que tem esse grupo, senhor Ed?"
Franzi a sobrancelha. O olhar ficou mais pesado, os dedos se fechando sozinhos na moldura da janela.
"Se eu não estiver enganado... há uma chance muito alta de serem os malditos que fizeram aquilo com aquelas pessoas, os malditos caçadoresde humanos."
Kai não respondeu de imediato. Fiquei olhando ele processar aquilo, os olhos fixos na fresta da janela, a mandíbula travando aos poucos.
"Como o senhor tem certeza disso?"
"Como eu disse... é uma possibilidade, baseada nos equipamentos deles, embora eles podem ter sido conquistados de monstros, porr isso é quase certeza."
Respirei fundo e continuei observando, catalogando cada detalhe que dava pra ver daquela distância, tentando manter a cabeça fria mesmo com o estômago revirado. O grupo se movia com uma calma que não combinava nem um pouco com o que a gente tinha visto na floresta - como se aquilo tudo fosse rotina pra eles, mais um dia normal, mesmovindo enfrentar o primeiro boss.
"As armas deles. Ao contrário dos goblins e orcs, são lâminas finas. Espadas, adagas..."
"Perfeitas pra ferir sem matar, exceto os grandões com armaduras pesadas, que possuemarmas mais doficeis o manuseio porém com um dano maior, como espada longa e machado."
Olhei pra ele de lado.
"Você joga RPG, lê novel... devia saber disso."
Mas isso não era o pior.
"O pior são os itens."
"Um grupo grande daquele, bem equipado, logo depois do que a gente viu..."
"...não é coincidência."
Kai ficou em silêncio por um segundo, a respiração dele ficando mais curta, quase ofegante, como se o corpo já soubesse a resposta antes da mente aceitar.
"S-Senhor... isso..."
O olhar dele mudou.
Agora...
Era sério. Os olhos que antes pareciam de um garoto normal ganharam um brilho diferente, mais duro, mais frio.
"O que faremos então, senhor Ed?"
A espada já estava na mão dele, os dedos apertando o punho com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
"Podemos matar eles agora."
"Não."
Minha resposta saiu antes mesmo dele terminar a frase, dura o suficiente pra cortar qualquer ilusão de pressa.
"Não, garoto. Eles são muitos."
"E você..." olhei pra ele, sustentando o olhar "-não pode gastar sua energia assim, não depois de ontem, vocêé um trunfo especial para nós, e o únicopor enquanto."
Silêncio. Vi o queixo dele tremer de leve, um misto de raiva engolida e frustração por não poder fazer nada com ela. Ele não gostou da resposta - dava pra ver isso na mandíbula travada, nos ombros tensos demais - mas não retrucou.
"Vamos esperar. Observar. E escolher o momento certo."
Meu olhar voltou pro grupo, seguindo cada movimento deles até desaparecerem entre as árvores, a última silhueta sumindo na escuridão da floresta como se nunca tivesse existido.
"...pra fazer todos eles pagarem, não se preocupe garoto, eu quero a mesma coisa que você, porém ataca-los agora seria burricee pedir para morrer."
Falei baixo, quase sem querer que a própria voz saísse - mas saiu, carregada de um peso que eu não esperava sentir tão cedo, um peso que grudou no peito e não foi embora.
Nos afastamos da janela e voltamos pra dentro da cabana. O silêncio ali parecia diferente agora, mais denso, como se as paredes tivessem escutado tudo também.
Ayla e Toshi ainda descansavam, o som da respiração dos dois era a única coisa quebrando aquele silêncio pesado.
Nos sentamos, pensando, o corpo cansado mas a mente correndo rápido demais pra deixar o resto descansar também. Do outro lado do cômodo, o Toshi continuava dormindo, a respiração lenta, sem noção nenhuma de que o próprio destino dele estava sendo decidido ali, em silêncio, a poucos metros de distância, afinal, precisávamos pensar em uma forma de continuar avançando, sem correr riscos, afinal ele não poderia ir conosco.
Poderíamos dividir o grupo, deixando um com ele na cabana e dois poderiam ir até o boss, mas essa opção se quebra pelo nosso desequilíbrio de poder, se eu ficasse, não teria capacidade de nos proteger, se a Ayla ou o Kai ficassem, nosso poder de ataque diminuiria drasticamente.
Tudo ali era risco - a única pergunta era qual risco valia a pena correr, e cada opção que eu considerava vinha acompanhada de um aperto diferente no peito.
"Eu acho que deveríamos deixar ele aqui na cabana."
Kai me olhou com dúvida - os olhos apertados, os lábios entreabertos como se quisesse discordar antes mesmo de entender o motivo. Eu conseguia entender o porquê daquela reação. Afinal, quem deixaria um garoto que mal sabe se defender sozinho numa cabana, num lugar repleto de monstros e de humanos que não se importam em matar a própria espécie?
"Mas senhor Ed... ele não pode se defender, deixar ele sozinho é loucura."
A voz dele tremeu um pouco no fim da frase, e eu conseguia sentir um pouco de raiva em suas palavras, embora ele não estivesse gritando.
"Quando formos atacar o Rei, os monstros vão se reunir desestabilizar na floresta, podendo atacar junto do rei ou se espalhar por ela. E os jogadores também vão estar lá. Levar o garoto junto só faria com que corrêssemos riscos desnecessários."
Parei por um segundo, deixando o peso daquilo assentar entre nós dois, o silêncio esticando até ficar quase desconfortável.
"Levar ele é colocar ele bem no meio disso."
Essa era minha aposta.
[O Governante da Sabedoria admira a benevolência e o modo de pensar do jogador]
Pisquei duas vezes, o corpo inteiro travando por um instante, tentando processar aquilo antes de conseguir formular qualquer coisa.
"Governante da Sabedoria?"
Minha própria voz saiu mais fraca do que eu esperava, um misto de confusão e um alerta baixo soando em algum canto da minha cabeça.
"Mas..." Kai hesitou, respirou fundo, o punho ainda fechado com força suficiente pra deixar a mão pálida. "...certo. Vamos limpar isso o mais rápido possível, e voltar para busca-lo."
"Sim."
Acordamos Ayla e expliquei a ela a situação e o plano, sem enrolar. Ela ouviu em silêncio absoluto, os olhos indo de mim pro Kai e depois pra janela, o rosto sem trair nada do que estava pensando. Pensou por um instante - um instante que pareceu esticar mais do que deveria - e aceitou sem discutir.
Então-
Saímos da cabana e nos dirigimos para a caçada, o frio da noite lá fora batendo de frente assim que a porta se abriu, entrando pela roupa, pela pele, e assentando em algum lugar mais fundo que eu preferia não nomear.