O coração de Darius batia descompassado, cada pulsar ecoava como tambores de guerra dentro de seu peito. O ar entrava em seus pulmões de forma irregular, rasgando como lâminas invisíveis. Mas não era o calor sufocante da Garganta do Inferno, nem o cheiro ácido de enxofre que o sufocava. O verdadeiro problema vinha da visão diante de seus olhos arregalados.
A criatura era a própria encarnação do pesadelo, um amontoado grotesco de carne viva. Veias pulsavam como sombras densas e ondulantes, contorcendo-se como se a própria carne fosse feita de caos solidificado. Apesar da estrutura esquelética, a sombra que a envolvia parecia palpitar com vida própria. Onde deveriam estar os olhos e a boca, havia apenas a ausência. O que representava horror absoluto.
A voz.
— azart ed ertseM uem ertse...
O som distorcido reverberou no ar, mas a boca do monstro sequer se moveu. A vibração veio de dentro, direto para o crânio de Darius, um sussurro gutural em uma língua que feria como agulhas invisíveis. A sensação era como se todos os ossos dele estivessem se desintegrando.
Dor intensa no corpo, como se alguém rasgasse suas entranhas. Não entendia o que estava acontecendo, mas sabia que estava ligado à criatura. Seus ouvidos latejaram até sangue morno escorrer, por sua pele. A sensação era como se seu cérebro fosse esmagado de dentro para fora.
Ele caiu de cara no chão, sem ar, levou as mãos no próprio pescoço em busca de oxigênio. Seus cinco sentidos desapareceram um a um, como tochas apagadas em uma tempestade. Cego. Surdo. Mudo. Imóvel. O vazio.
Ele não ouviu os gritos de Ignes, nem percebeu o pânico dos gêmeos.
— Acorda! Acorda, Darius! — a voz da princesa ecoava, desesperada, tentando trazê-lo de volta.
As pernas dela tremiam, mas ainda assim se colocou entre os garotos e o monstro.
— Fiquem atrás de mim!
A criatura avançava lentamente na direção deles, e Ignes conjurou labaredas incandescentes para defendê-los. Mas o fogo simplesmente atravessou o monstro sem causar dano algum.
— Darius! Acorda, seu idiota! — gritou ela, arquejando, mas ainda protegendo os gêmeos. — Corram! Fujam!
O braço de sombras avançou contra as crianças. Ignes, ofegante, se pôs à frente outra vez, conjurando jatos de chamas em desespero. Mas a criatura a agarrou, apertando seu tronco como se quisesse esmagá-la até os ossos estalarem.
— Me solta, maldito! — ela gritou, a voz entre raiva e pavor. — Não é hora de dormir!
Darius abriu os olhos turvos e, mesmo imóvel, ouviu com mis clareza dessa vez a voz gutural:
— Ale etam euq? Ale aiedso ecov?
E ele compreendeu: Você a odeia? Quer que eu a mate?
A voz não era uma invasão. De uma forma horrível e doentia, ela soava... familiar. Como um eco de uma parte da sua própria alma que ele nunca soube que existia
Sua mente estava um caos, mas a resposta veio como um sussurro:
— Não... eu não odeio...
Seus olhos se fixaram em Ignes, sufocada pelas sombras. Lágrimas ardiam em seu rosto. "Desde quando o melhor se tornou inútil?" pensou, furioso consigo mesmo.
Num ato desesperado, sua mão encontrou um cristal quebrado ao lado. Sem pensar, cravou-o em sua própria perna. A dor foi imediata, cruel, mas real.
— Se mexe... corpo... se mexe! — rosnou, enquanto o sangue escorria.
E então, em um único instante de força de vontade, Darius rompeu as correntes invisíveis. Um clarão percorreu sua pele como um relâmpago, e ele avançou como um vendaval. Com um golpe, cortou a mão sombria que prendia Ignes, e em seguida acertou um chute que fez a criatura recuar.
Ignes caiu no chão, mas se levantou de imediato. Com as mãos em chamas, bateu as palmas, e uma armadura flamejante envolveu seu corpo, faiscante, viva.
— Miserável... essa porcaria da realeza... — murmurou Darius, atônito com a determinação dela.
— Gêmeos, corram! Procurem ajuda! — ordenou Ignes, sem tirar os olhos do inimigo. — E você, Darius... se não for me ajudar, é melhor ir embora também!
Eles obedeceram, correndo pelo corredor estreito, quase tropeçando, enquanto atrás deles o inferno se erguia.
O monstro urrou. Seu corpo de sombras se expandiu, formando braços de sombra que se tornaram lâminas, chicotes e escudos, destruindo os cristais da caverna ao redor, fazendo o chão tremer e a pressão aumentar.
— Ignes, vai embora! — Darius falou, quase implorando. — Desse jeito vou pensar que você se importa comigo!
Ela riu sarcasticamente.
— Vê se não me atrapalha, inútil. Eu sou forte, mas vou precisar de ajuda! Então levanta essa bunda daí!
O monstro se apresentou como Arauto, aquele que anuncia o presságio antes da escuridão. Por algum motivo, Darius compreendia cada uma de suas palavras e teve a certeza de que estava diante de um ser das trevas. Mas, naquele instante, sentia-se impotente: o corpo ardia em dor, os ossos ainda pareciam esfarelados e, por mais que tentasse, não conseguia se reerguer.
Ignes saltou em um giro de 360°, lançando labaredas ao redor para distrair o Arauto. Aterrissou em chamas, mas o inimigo esticou os braços, transformados em lâminas sombrias, cortando o ar em movimentos horizontais e verticais. As sombras atravessavam o fogo sem dificuldade.
Ela desviou, pulando do chão para a parede e depois para o teto, se impulsionando em alta velocidade. Darius só conseguia ver flashes de fogo contra as sombras, que golpeavam como tentáculos cortantes e destruíam cristais por onde passavam.
Quando o Arauto lançou um chicote de trevas, Ignes usou o calor do próprio corpo para se impulsionar, escapando por pouco. Aterrissou sobre uma rocha solta, girou o corpo e atacou novamente, mas sem sucesso seu fogo era inútil. Ele tentou perfurá-la, ela desvio.
Num contra-ataque, lançou uma rajada vertical de fogo que o empurrou para cima. Saltou junto, girou no ar e disparou chamas concentradas antes de cair de volta ao solo. Ao ver o braço dele se transformar em espada, ergueu uma barreira circular flamejante e lançou fogo contra o torso do inimigo.
Aproveitando a abertura, saltou de novo: um chute lateral envolto em chamas, seguido de um soco direto que explodiu contra o corpo do Arauto. O impacto fez a caverna estremecer, fogo e sombras colidindo em cada movimento.
— Merda! Faz tempo que não gasto tanta energia assim... mas eu estou no meu berço! — gritou Ignes.
O seu poder de ataque não estava funcionando. Ela precisava de algo mais. Lembrou dos ensinamentos de seus mestres sobre o fogo não ser apenas destruição, mas também purificação. O coração do vulcão. A chama que cria, que forja. Ela não queria apenas destruir o monstro. Ela queria proteger Darius e todos lá fora.
Quando abriu os olhos, as chamas que dançavam nas suas mãos já não eram amarelas. Eram de um azul intenso e silencioso, que não queimava com fúria, mas com uma determinação pura, refletindo nos cristais da Garganta.
O monstro rugiu e retaliou: uma mão atravessou a defesa da princesa e perfurou o seu abdómen. Ignis arfou, mas ergueu os olhos cheios de fúria. A sua nova chama azul envolveu a ferida. Não cauterizou a carne com violência. Em vez disso, o fogo pareceu queimar a ferida de dentro para fora, purificando o dano, cicatrizando a pele numa velocidade impossível.
— O meu fogo... não se apaga! — gritou ela, a sua voz um misto de dor e um triunfo feroz.
Enquanto isso, Darius estava em estado deplorável. Lutava apenas para não apagar de vez.
— Cuidado! — gritou, desviando de uma sombra que emergiu do chão como lança. — Não consigo fazer nada, mas não vou ser um peso maior ainda.
— Relaxa, principezinho, você já é um peso desde que nasceu — disparou Ignes, entre saltos e labaredas.
O Arauto estava mais lento, e o tentáculo usado para ferir Ignes estava contundido, o fogo azul foi eficaz de certa forma, multiplicou sombras, criando cópias que se espalhavam pelas paredes. Ignes girava no ar, cuspindo fogo em arcos para destruí-las.
Darius rangeu os dentes, ajoelhado.
— Vá embora! Eu não quero que você morra aqui!
— Não vou morrer! — retrucou incandescente. — Sou a próxima rainha de Ignel, meu sangue carrega lava!
— Rainha? — ele riu, cuspindo sangue. — Se continuar assim vai morrer antes.
O embate prosseguia como trovões: labaredas azuis contra lâminas de trevas. Ignes avançou, chutou, socou, girou, empurrando o Arauto contra o teto. Fragmentos de cristal despencaram na direção de Darius.
Sem pensar, ela mergulhou, agarrou-o e criou uma explosão de fogo azul que queimou os escombros antes que os atingissem.
— Vai embora! — ele implorou, com a voz embargada.
— Eu estou protegendo você, idiota! — respondeu ela ofegante.
Ela bateu as palmas e novamente a armadura flamejante azul-laranja cobriu seu corpo
Ela não conseguiria vencer sozinha, precisava de ajuda e de tempo. Com um último golpe calculado, ela lançou chamas contra o teto. As pedras ruíram, sobre o chão os separando-os do Arauto.
O silêncio caiu, pesado. Ela se abaixou, pegando Darius nos braços. O fogo azul envolveu seu corpo, curando-o e se afastou dali, sem olhar para trás.
— Você é idiota! — ele murmurou, tonto. — Por que não foi embora?
— Porque você é ainda mais idiota que eu! — rebateu — Disse que não queria que eu morresse, mas olha só: por quem estou arriscando minha vida.
— Eu que devia proteger você.
— Então levanta e luta comigo! — Ignes retrucou — O Arauto ainda está por aqui.
Darius sentiu a presença sufocante do Arauto, agora do outro lado dos cristais. Não demoraria para encontrá-los novamente.
Ignes apertou os punhos em chamas.
— Então que ele venha.