A garra de sombras do Arauto desceu para o golpe final. Mas, a centímetros do rosto de Darius, parou, repelido por uma onda invisível que parecia rasgar a própria realidade, enquanto a vibração metálica percorria o ar como se o tecido do mundo se partisse.
O Arauto recuou um passo, confuso, sua sombra contorcendo-se em espasmos inquietantes.
Darius abriu os olhos a tempo de ver a origem da força. Numa saliência superior, Rhazer estava de pé, a mão firmemente no punho da Stoneword. A lâmina cinzenta e sem brilho ainda pairava a meio caminho de sair da bainha, mas repeliu o ataque e possuía uma aura esmagadora de poder que carregava a promessa de destruição.
Num único movimento fluido, desembainhou completamente a espada e cravou a ponta da lâmina no chão da caverna. A rocha estalou, rachando à volta dela, como se a própria montanha se curvasse diante de seu poder.
Ancorado pela espada, com a mão esquerda firme no punho, Rhazer usou-a como pivô. Girou o corpo com precisão sobre-humana e desferiu um pontapé devastador. O pé, envolto numa rajada de vento cortante, atingiu o peito do Arauto em cheio.
Um choque de energia e um estrondo rasgaram o ar. O cheiro de lava e enxofre se intensificou quando lava explodiu em jatos incandescentes, iluminando a caverna com tons de vermelho e laranja pulsantes. Rhazer surgiu, firme e imponente, bloqueando o avanço do Arauto e empurrando-o para longe com força colossal, rolando pelo chão irregular e afundando-se parcialmente no magma que se acumulava ao fundo da caverna.
Rhazer permaneceu imóvel por um instante, o vento do seu pontapé ainda rodopiando à sua volta. Com um puxão seco, arrancou a Stoneword do chão, a pedra estalando sob a força da lâmina. Só então se virou para Darius, caído e exausto, mas ainda vivo.
— Levante-se, Darius! — Sua presença preenchia todo o espaço como um furacão de pura determinação: músculos tensos, olhar fixo, energia esmagadora emanando de cada gesto. — Ainda não acabou, inútil!
Em uma fração de segundo, Rhazer agarrou o corpo de Lior e o passou a Marcel, que recuou um passo, caindo de joelhos. Seus olhos não conseguiam se desprender do colega naquele estado. O coração apertou e uma palavra ecoou em sua mente: “Quanta crueldade.”
Darius olhou ao redor. A lava avançava, fagulhas saltavam da grande fissura ao fundo, onde o Arauto estava submerso apenas com os tentáculos de fora. Diante da presença do príncipe ele se sentiu pequeno, impotente e incapaz. Seus olhos cruzaram com os de Marsalla à sua direita e um arrepio percorreu sua espinha. Desviou o olhar, sem coragem de encará-la e ao lado estavam Ryo, Ryn, a princesa, Marcel, Leonar e Nara: todos olhando para ele. O pensamento que explodiu em sua mente foi cruel: “Sou incapaz de proteger, um verdadeiro inútil, um nada. Como vou me vingar se não consigo fazer nada além de apanhar? Ridículo.”
Darius mal conseguia se mover; o corpo estava marcado por machucados e ferimentos profundos. Levantou a cabeça, tentando encarar a figura imponente à sua frente, mas só encontrou frustração: “Primeiro salvo pela princesa, agora pelo príncipe. A situação era uma piada.”
O monstro recompunha-se, erguendo tentáculos, aumentando de tamanho.
— ol-átam uoV ertsem o euq od etrof siam res edop omoC arac esse méuq ,ertseM (Mestre, quem é esse cara? Como ele pode ser mais forte que você? Vou matá-lo!)
— Não te entendo! Cala a boca, sua monstruosidade! — Rhazer rebateu, fazendo o teto sobre a cabeça do arauto desmoronar, o fazendo o afundar novamente na lava.
— Até quando vai ficar aí, no chão? — Rhazer exigiu. — Chorar não muda nada. Se chorar resolvesse alguma coisa, o mundo não teria problemas.
Ele inclinou-se levemente, aproximando o rosto do de Darius. O outro estava com o olhar vazio, perdido em algum ponto além da caverna, como se a dor tivesse arrancado dele qualquer foco. A pálpebra direita estava inchada e arroxeada, tão fechada que mal parecia um olho apenas carne machucada pulsando a cada batida do coração. Sangue seco e fuligem marcavam o rosto, e a respiração irregular denunciava o esforço para continuar consciente.
— Até quando vai agir como um fracassado? Você não tem vergonha de ser esse desperdício? Foi treinado pelo homem mais forte que existe! Se orgulhe! Faça alguma coisa! — a voz dele tremia, carregada de autoridade e fúria contida. — Vai deixar um monstro feioso te destruir? Hum? Qual é? Vai me dizer que não pode ser mais forte que isso? Como vai me vencer? Patético. — Ele bufou, cada frase saia carregada de desprezo que feria mais e mais o ego de Darius.
— É verdade... eu sou um fracasso... não consigo fazer nada.
— Se você não se levantar e acabar com esse monstro, as próximas pessoas a morrer serão seus amigos... Mikkel está gravemente ferido. Precisamos terminar isso para saber se ele vai sobreviver ou não.
Darius permaneceu calado, com a cabeça baixa.
— Chorando desse jeito, nunca vai me alcançar. Não existe rivalidade entre nós, só você, o derrotado... e eu, futuro imperador. Se não for me ajudar, então se joga na lava, morre e desiste, seu merda! — Rhazer concluiu.
Darius fechou os olhos e murmurou o nome de Mikkel, lembrando-se da última missão, do jeito falador e explosivo do amigo. Uma lembrança, um risinho solto, rompeu, por um instante, a tensão no peito. O fez olhar para os amigos que estavam do lado.
— E a Marsalla? Você vai deixá-la morrer? Ou vai fazer alguma coisa? — Rhazer jogou um frasco com Essência de Salamandra para ele. — É só o que tenho. Eu odeio... Odeio admitir, mas agora eu meio... “Com ênfase no meio” ... preciso de você! — completou.
A essência funcionava como um acelerador de energia, regenerando feridas e restaurando forças, mas parte da dor permanecia. Respirou fundo, cuspiu sangue e fuligem, limpando o gosto nauseante da boca, e se ergueu.
— Tira... limpa esse catarro, essa merda de sangue seco. Sou da realeza... não preciso ver essa nojeira — resmungou Rhazer com um sorriso torto.
— Você fala demais, idiota — respondeu sorrindo de volta.
— Fique sabendo que sou o discípulo mais forte do nosso mestre— Rhazer empunhou a espada.
— Até parece. Eu que sou o protagonista desta história. — Darius rebateu.
— E eu sou o protagonista do mundo! — Rhazer retrucou.
— Então vamos apostar: quem derruba essa monstruosidade primeiro? — Darius apontou para o monstro, cujo corpo escuro borbulhava na lava, a carne viva chiando e crepitando.
— Vamos!
Seu olhar encontrou Marsalla novamente, que começava correr até ele. As roupas estavam cobertas de poeira e cinzas, o cabelo emaranhado, mas a capa permanecia intacta. Do fundo do coração, Darius sentiu-se agradecido por ela estar a salvo. Ao lado dela estavam a princesa e os outros.
Respirando de forma irregular, Darius caminhou até Marsalla. Ela estendeu a mão para tocar seu rosto, tentando curá-lo, mas ele segurou firme as mãos dela.
— Não... guarda seu poder para você.
— Mas eu quero ajudar você! — insistiu.
Marsalla afastou as mãos dele e rasgou um pedaço da própria camisa. Com cuidado, limpou a testa e a parte da frente do cabelo encharcados de sangue e suor. O toque do pano úmido em sua pele foi um alívio momentâneo. Aproveitou o pano para remover também a gosma fedorenta que cobria a boca, passando-o com delicadeza sobre o rosto sujo enquanto, ao fundo, o monstro emergia da lava: gosmento, colossal, ainda mais monstruoso.
— Que alívio ver vocês — disse ele, olhando para os companheiros. Nara continuava adormecida, Marcel a segurava no colo, e a princesa apoiava-se em seu ombro.
— Está um caco! — provocou ele, sorrindo para Ignes.
— Por que será, hein? — ela rebateu. — Quando te vi pela primeira vez, achei você fraco, um inútil. Agora... te acho menos inútil. Pelo menos um pouquinho.
— Obrigado! — respondeu Darius, genuinamente tocado.
— Mestre, meu mestre... quem são essas pessoas? Por que você baixa sua guarda com elas? — perguntou o monstro, curioso e cauteloso com a parte de cima fora da lava.
— Calado. Estou conversando. — A resposta de Darius foi firme e intimidadora. Naquele ponto pareceu entender que, para enfrentar um monstro como aquele, talvez fosse preciso tornar-se um pouco demônio. O que não havia percebido é que já havia se tornado um.
O vulcão estava prestes a entrar em erupção novamente.
— Se você for demorar muito vou ter que terminar sozinho — Rhazer provocou.
Marcel começou a guiar todos para a saída, carregando o corpo de Lior com reverência e pesar. Ao lado dele, o caos se intensificava. A Princesa Ignes tentou dar um passo à frente, mas suas pernas fraquejaram e ela cambaleou, quase sendo atingida por um fragmento de pedra.
Leonar, mesmo com os pulmões queimando pelo esforço e o corpo exausto, foi mais rápido. Ele a envolveu pelos braços e a ergueu do chão de uma só vez.
— O que pensa que está fazendo? — Ignes protestou fracamente, tentando empurrar o peito dele, embora suas mãos mal tivessem força para apertar o tecido da túnica de Leonar. — Me coloque no chão, eu posso caminhar!
Leonar parou por um breve segundo e olhou diretamente nos olhos dela. Não havia deboche em seu rosto dessa vez, apenas uma determinação silenciosa e protetora. Ignes sustentou o olhar, pronta para brigar, mas ao ver a exaustão misturada ao cuidado nos olhos dele, sua resistência desmoronou.
— Já que você insiste tanto... — murmurou ela, desviando o rosto para esconder o rubor.
Sem forças para manter a postura real, ela relaxou o corpo e deixou a cabeça pender, repousando-a no ombro de Leonar como alguém que finalmente encontra um lugar para descansar em meio ao fim do mundo. Leonar sentiu o peso dela e o calor que emanava de seu corpo, mas não disse uma palavra; apenas apertou o passo, protegendo-a com o próprio corpo enquanto desviava dos destroços que caíam.
Atrás deles, os gêmeos Ryo e Ryn abriam caminho com rajadas e barreiras, garantindo que o grupo pudesse passar.
— Vamos, Marsalla! Está na hora.
Ela soluçou, mas assentiu. Darius enxugou suas lágrimas com os dedos e sussurrou em seu ouvido:
— Quando eu disse que você era fraca, na verdade... eu quis dizer que você é gentil demais. Eu nunca quis que você carregasse a culpa por machucar alguém.
Um tentáculo disparou na direção dela, mas Darius o cortou brutalmente com uma lâmina de vento.
— Sua coisa horrorosa! Nunca mais ouse encostar nela! — disse tão sério que a criatura recuou um passo. — Marsalla, você tem que ir agora!
Ela assentiu correndo para seguir pela passagem aberta pelos colegas.
— Voltem vivos! — gritou Leonar. — Mikkel e nós vamos te esperar lá embaixo!
Uma bomba de sombra explodiu, fazendo parte da passagem desmoronar.
E Darius soube: se falhasse agora, não seria apenas ele que perderia. Seria todos que conhecia. O início do fim estava apenas começando.
O Arauto terminou de se recompor deformado, grotesco, envolto em fogo e pedra.
— Desculpa por ter me visto tão patético assim.
— Eu não esperava nada além disso de um fracassado — Rhazer disparou sem cerimônia.
Darius apenas sorriu, balançando a cabeça. Sentiu alívio de não estar só.
— Será que consegue me acompanhar? — Rhazer girou o pescoço, pronto para avançar. — Porque senão, vai ficar para trás. — Ele sacou a espada.
— Até parece que vou perder para você. — Darius respondeu, firme.