O vulcão ainda cuspia fumaça e cinzas, como se chorasse pelas trinta e três vidas que engoliu em sua última fúria. A tragédia só não foi completa porque os mestres de Ignel estavam preparados. O equilíbrio do mundo podia ruir, mas o dever deles não. Cada uniforme dos jovens trazia sensores minúsculos, que monitoravam sinais vitais e as flutuações de Oryn.
Foi por meio deles que detectaram a anormalidade. Foi por causa deles que os guardiões do vulcão se mantiveram atentos enquanto outros subiram a garganta atrás dos jovens, e, graças a isso, Luciel chegou a tempo de arrancar os dois príncipes do coração da fornalha: um resgate no último segundo, em meio ao caos.
Alguns segredos e vidas se perderam, detalhes que não viriam a público. E era nesse mundo de cinzas, perdas e mistérios que Darius, em um quarto silencioso do castelo, permanecia apagado. Passaram-se três dias desde o incidente.
Marsalla estava ajoelhada ao lado da cama onde Darius dormia, exausto, com queimaduras e machucados ainda visíveis pelo corpo. Suas mãos estavam rígidas, o peito arfava, mas a respiração, embora fraca, persistia. Erguendo as mãos, ela deixou a magia fluir. Suas células manipulavam o sangue dele, criando oxigênio, reconstruindo tecidos queimados, restaurando órgãos. Cada sopro de energia fazia o ar vibrar; luzes azuis e douradas dançavam em torno de Darius, formando um halo suave.
— Fique comigo, Darius… — murmurou, com lágrimas escorrendo. — Eu não vou deixar você se perder.
Ela permaneceu ali o dia inteiro. Disseram que ele levaria pelo menos uma semana para acordar, mas Marsalla não desistiu. Por querer protegê-lo, ela desenvolveu novas técnicas em segredo durante os quatro meses em que ficaram treinando — técnicas nascidas justamente por conhecer Darius bem demais e saber de toda a sua imprudência.
Aos poucos, sua vitalidade ia voltando, até que, após longos dias, enfim ele abriu os olhos devagar. O teto não era de pedra bruta e cristal, mas de madeira escura e lisa. O cheiro não era de enxofre e morte, mas de ervas medicinais e tecidos limpos. O corpo doía; cada músculo parecia ter sido rasgado e costurado de novo. Tentou se mexer, mas uma pontada aguda no ombro o fez parar.
Então a memória voltou de uma vez, como um soco no estômago. Lior. O corpo frio. O som dos ossos quebrando. O grito que rasgou sua própria garganta.
— Mas que merda… que merda! — Darius levou a mão ao rosto, as lágrimas escorrendo sem controle. O peito arfava. O olhar perdido vasculhava o quarto, como se ainda buscasse uma saída daquele pesadelo.
— Darius! — a voz de Marsalla chamou, firme e aflita. Ela segurou sua mão com força, inclinando-se sobre ele. — Calma… calma. Você está bem.
Ele tentou respirar, mas o ar parecia se negar a entrar. Ela o puxou contra o peito num abraço apertado, envolvendo-o com o calor do próprio corpo. Foi nesse instante que a realidade se impôs: o aroma doce dela, aquele perfume sutil que ele já conhecia, estava ali. Real. Presente. Fechou os olhos, deixando o choro se transformar em soluços contidos, com o rosto escondido contra o ombro dela. Ficaram assim por longos minutos, apenas respirando, apenas existindo, até que o mundo parou de girar.
Quando se afastou, Marsalla levou as duas mãos ao rosto dele, acariciando-o com delicadeza.
— Calma… está tudo bem. Eu estou aqui. — As próprias lágrimas ainda molhavam seu rosto, mas ela sorriu, suave, enquanto enxugava as dele.
Darius cobriu a mão dela com a sua, sentindo a pele quente sob os dedos. — Obrigado… por estar aqui. Obrigado por estar bem.
— Eu que agradeço… — ela sussurrou, inclinando a testa contra a dele. — Por você estar vivo.
Um silêncio doce os envolveu, quebrado apenas pelo som das respirações entrecortadas, como se, naquele instante, só existissem os dois. Os lábios imploravam por um toque, um contato que se desejava há tempos...
A porta do quarto se abriu devagar, quebrando o silêncio e interrompendo o momento. Leonar entrou primeiro, o rosto cansado, mas aliviado ao ver Darius acordado. Logo atrás vieram os gêmeos, Ryo e Ryn, e Ignes, de braços cruzados, com a postura habitual.
— Finalmente a Bela Adormecida acordou — disse a princesa. Não havia veneno na voz, apenas um cansaço genuíno.
Darius encarou os rostos familiares, com o cérebro ainda tentando organizar os fragmentos.
— Vocês estão bem! Que bom! — Ele levou as mãos ao rosto, tentando entender. — O Arauto? O que aconteceu?
— Você e Rhazer deram um jeito nele. Você apagou por três dias — respondeu Leonar, a voz grave. Ele se aproximou; Darius notou a dor escondida nos olhos do amigo. — Os mestres agiram rápido. Quando os sensores na sua roupa e na do Rhazer detectaram a energia do Arauto, souberam que algo estava errado. Luciel desceu e... bom, o resto você sabe.
Ryn completou, mais baixo do que o normal:
— Eles contiveram a erupção. Salvaram a cidade. Mas...
Não precisou terminar. O peso da perda pairava no ar.
— Mais tarde vai ter uma cerimônia — disse Ignes, encarando um ponto qualquer na parede. — Para os que não voltaram. Encontraram a maioria dos corpos. Outros... se perderam para sempre.
A menção fez o estômago de Darius revirar. Lior. A imagem do corpo frio e quebrado voltou com violência. Um nó de bile subiu por sua garganta. Ele engoliu em seco.
— E o Mikkel? — a pergunta escapou antes que conseguisse se conter.
Ryn respondeu:
— Está na enfermaria. Machucou feio, mas os curandeiros disseram que vai se recuperar muito bem. Pediu para avisar que vem hoje assim que conseguir levantar.
Um breve alívio atravessou Darius.
— Que bom, fico feliz! — disse aliviado.
— Porém, o conselho quer falar com você — acrescentou Leonar, mudando de assunto. — E com o Rhazer. Querem ouvir a versão de vocês sobre o que aconteceu lá dentro. Sobre a criatura.
— E depois da cerimônia vão anunciar a nova nomeação de classes — disse Ryo, tentando furar a tristeza com um fiapo de animação. — Mesmo com tudo o que aconteceu, alguns aprendizes mostraram força acima do esperado. Resolveram adiantar as promoções.
Darius apenas assentiu. Conselho. Cerimônia. Classes. As palavras entravam por um ouvido e se perdiam no vazio que Lior havia deixado. Ele só queria silêncio.
Foi quando uma nova presença se fez notar na porta. Rhazer estava ali, parado. Sem armadura, vestindo apenas roupas escuras de treino, mas a postura ainda era a de um imperador entrando em um salão de festas. Seus olhos verdes passaram por todos com desdém, antes de se fixarem em Darius. Avançou com passos calculados, como se o chão estivesse sendo honrado por seus pés.
— Marsalla. Sei que a Bela Adormecida acabou de despertar do sono de beleza, mas preciso falar com ele... A sós — disse Rhazer, com uma arrogância natural.
Marsalla olhou de Rhazer para Darius, a preocupação evidente. Abriu a boca para protestar, mas o olhar firme do príncipe não deixou espaço. Darius fez um leve aceno, um sinal silencioso de que estava tudo bem. Ela suspirou e se levantou.
— Certo. Nós vamos esperar lá fora — disse ela, lançando um olhar de "não o mate ainda" para o príncipe.
Um por um, eles saíram. Marsalla hesitou na porta, os olhos presos nos de Darius por um segundo a mais antes de fechar a porta. Rhazer cruzou os braços, olhou Darius de cima a baixo com uma careta e um sorriso torto desenhou-se em seu rosto.
— Pensei que monstros não precisassem de curativos. Você está parecendo uma múmia mal enrolada.
Darius devolveu o olhar com a voz rouca e carregada de tédio:
— Cala a boca, Rhazer. Você fala demais até para alguém que não tem nada a dizer.
Rhazer pegou uma maçã de uma cesta próxima e a atirou na direção da cama. Darius a pegou no ar com um esforço que o fez fazer careta.
— Come. Você está parecendo um lixo. Se você desmaiar de novo, eu vou ter que te carregar, e minha cota de caridade com fracassados já estourou por este século — a zombaria brotou nos lábios dele através de um sorriso sarcástico.
— Obrigado pelo carinho, alteza — ironizou Darius, dando uma mordida na fruta.
Rhazer colocou as mãos nos bolsos e seu semblante mudou. O brilho debochado sumiu dos olhos, dando lugar a uma sombra fria e autoritária. O ar no quarto pareceu esfriar alguns graus.
— Olha — começou Rhazer, a voz agora num tom grave — não que eu me importe, claro. Mas aquele poder que você usou... não é deste mundo. O conselho está lá fora agora mesmo, salivando. Eles vão querer respostas.
Darius sentiu um calafrio percorrer o corpo, uma sensação que nada tinha a ver com a friagem do quarto ou os ferimentos.
— Eu não sei o que foi aquilo — admitiu ele, a voz séria. — Não sei como aconteceu.
— Então descubra rápido — a voz de Rhazer veio dura, seca como um osso quebrando. — Quando falar com eles, a história é só uma: a Stoneword. Foi o poder da lâmina que causou o estrondo. Eu a usei. Você apenas estava lá sendo jogado de um lado para o outro. Você confirma?
Darius sustentou o olhar. Ele entendeu o jogo: Rhazer estava oferecendo uma proteção em troca de manter o segredo do que Darius realmente era.
— Ok. Eu entendi.
Rhazer inclinou-se levemente, o rosto a poucos centímetros do de Darius, a aura de futuro imperador pesando sobre a cama.
— E, Darius... nunca mencione a energia que sentiu. Se aqueles velhos do conselho desconfiarem que você tem essa "coisa" dentro de si, você morre antes do sol se pôr.
Darius apenas assentiu cabisbaixo, com uma das mãos apertando o lençol da cama com força.
— Obrigado, Rhazer... — sussurrou Darius, a voz carregada de uma gratidão relutante. — Se você não estivesse lá, nem sei o que teria acontecido.
Rhazer o encarou fixamente por um instante, o olhar gélido e impenetrável.
— Para deixar claro: se você se tornar uma ameaça ao que eu pretendo construir, eu mesmo te matarei. Não me faça arrepender de ter te ajudado.
A conversa foi interrompida por batidas leves na porta. Mikkel entrou, hesitante, o alívio no rosto lutando contra a dor dos próprios ferimentos. Com o braço enfaixado, metade do rosto coberto por curativos e mancando visivelmente, ele parecia ter passado por um moedor de carne.
— Darius! — ele exclamou, tentando apressar o passo até a cama. — Fiquei tão preocupado, cara! Disseram que você finalmente acordou.
— O que aconteceu com você? — Darius perguntou, a preocupação com o amigo sobrepondo-se à tensão anterior.
Mikkel riu sem graça, soltando um gemido de dor logo em seguida.
— História longa. Encontramos uns lagartos gigantes, pareciam salamandras venenosas. Fui picado, perdi a consciência, rolei morro abaixo e atropelei algumas árvores... Se não fosse o Rhazer, eu, meu irmão e os outros teríamos tido o mesmo destino que o Lior.
O nome de Lior caiu como uma pedra no silêncio repentino do quarto. Darius engoliu em seco, a pergunta que queimava em sua garganta saindo quase como um sussurro:
— E o corpo de Lior?
— Os que conseguiram ser recuperados serão cremados hoje à noite, após a cerimônia de nomeação — respondeu Mikkel, com a voz sombria. — Mas antes disso, você precisa depor ao conselho. Estavam apenas esperando você acordar.
O peso do conselho, da mentira que teria de sustentar e da morte de Lior desabou sobre Darius de uma só vez. Ele levou a mão ao peito, como se pudesse sentir fisicamente a escuridão que nascia ali dentro. Rhazer, já perto da saída, o encarou uma última vez e disse em voz baixa, mas firme:
— Pessoas temem o que não compreendem; por isso, tendem a eliminar o enigma. Não dê ao conselho motivos para dúvidas.
Rhazer o fitou por um segundo longo, avaliando aquele que poderia ser sua maior ameaça no futuro. Ele não gostava de apostas nem de palavras vazias, mas, naquele momento, abriria uma exceção para Darius. Ele virou-se e caminhou até a porta, parando sem olhar para trás.
— E não se esqueça do que eu disse. Pelo seu próprio bem.