De manhã, houve uma última cerimônia para despedir-se dos mortos, mas o som solene da despedida foi quebrado quando um dos guardas despencou para dentro da tenda, tropeçando nos próprios pés. A armadura tilintou contra o chão de pedra e ele ergueu um rosto pálido como cera, com os olhos arregalados de pavor.
— O ovo! O ovo... o ovo desapareceu! — a voz dele saiu num fio trêmulo, quase um soluço.
Um burburinho de confusão cresceu entre os guerreiros, um trovão abafado de vozes que se atropelavam em sussurros urgentes.
— Ovos? Que ovo? — Como assim, sumiu?
O guarda se apoiou nos joelhos, o ar entrando em seus pulmões com um chiado doloroso.
— O ovo do dragão... — ele se engasgou. — Aquele que repousava no altar sagrado... sumiu!
O silêncio que se seguiu foi absoluto e pesado, como se todo o ar tivesse sido sugado da tenda. Ninguém ousava se mover, os olhos passando do guarda para os rostos dos mestres, tentando compreender o impossível. Antes que uma ordem pudesse ser dada, o chão vibrou. Todos ali correram para fora e, olhando para cima, avistaram uma sombra em meio à fumaça com batidas profundas e ritmadas. Distantes, batidas surdas, depois mais fortes, um whoosh poderoso de asas deslocando toneladas de ar.
— É só um pássaro grande — murmurou alguém, com a esperança frágil na voz.
— Pássaro nada... — respondeu outro, com a voz embargada pelo medo. — Isso aí é coisa maior.
Não era um pássaro. Era um dragão.
Por um instante, ninguém gritou. O pânico ainda não havia chegado. Ali, recortada contra o céu de fogo, estava uma criatura que só existia em tapeçarias desbotadas e lendas sussurradas ao pé da lareira. Um dragão. Nenhum homem, mulher ou criança vivos naquele momento jamais havia visto um. A mente deles se recusava a aceitar, mas os olhos não podiam negar.
s asas largas refletiam a luz da pira funerária, fazendo suas escamas vermelhas arderem como brasas vivas. A sombra que ela projetava dançava sobre o acampamento, engolindo-os. Ela voava sobre a cratera do vulcão, descrevendo um círculo majestoso antes de mergulhar na direção deles, como uma flecha em chamas.
— Um dragão! Um dragão! — a voz de Mikkel era um grito agudo.
Num movimento instintivo, Darius se jogou na frente de Marsalla, puxando-a para trás de si. Ele sentiu as mãos dela se agarrarem em suas costas, o corpo dela tremendo contra o seu. O rei de Ignel, por sua vez, caiu de joelhos na terra batida, com o rosto erguido para os céus, os lábios se movendo numa prece aterrorizada.
— Majestade... Majestade... eles retornaram...
O rugido do dragão rasgou o ar, uma onda sonora que vibrou no peito de cada um, arrancando-lhes o fôlego. Rhazer, com o rosto impassível, sacou a lâmina com um silvo metálico.
— Se ele atacar, eu corto.
Um soldado perto do rei ergueu uma lança e apontou na direção do dragão, mas o monarca o deteve com um grito:
— Não ouse! Ninguém deve ferir essa criatura! Ela é divina!
Leonar, pálido e com um suor frio escorrendo pela têmpora, soltou um riso nervoso e deu alguns passos rápidos na direção de Ignes se pondo a frente dela.
— Fique atrás de mim... eu te protejo.
Ignes nem sequer o olhou, mantendo os olhos na fera enquanto caminhava para ao lado do pai.
— Sai fora. Quem deveria te proteger sou eu, já que sou mais forte — rebateu ela, com a voz carregada de autoridade.
Leonar parou onde estava, observando-a marchar. Um sorriso bobo e involuntário surgiu em seu rosto enquanto ele sussurrava para si mesmo:
— Que mulher... Que mulher!
As asas do dragão bateram uma última vez, levantando uma tempestade de poeira e cinzas. Quando ela pousou, perceberam que era menor do que imaginavam: era um bebê, que em pé tinha a altura de um homem alto, talvez um metro e setenta; uma montanha de músculos e escamas diante deles. O silêncio que se seguiu gritava perigo.
— É enorme... — sussurrou Marsalla, engolindo em seco.
A multidão recuou instintivamente, abrindo um caminho. Com uma graça que contradizia seu tamanho, o dragão começou a andar. Seus movimentos eram fluidos, a cabeça se movendo de um lado para o outro, os olhos dourados analisando cada rosto. As garras afiadas produziam um som seco e arrepiante sobre a pedra vulcânica.
Ela ignorou o rei ajoelhado. Ignorou os soldados paralisados. Seus olhos dourados passaram por todos, até se fixarem em Darius e Rhazer, que estavam atrás. As pupilas se contraíram e um ronronar vibrante escapou de sua garganta. Havia curiosidade ali. E um estranho senso de reconhecimento.
Darius deu um passo hesitante à frente. Ergueu as mãos abertas, um gesto de paz.
“Se me mordesse, arrancaria meu braço inteiro”, pensou ele. “Dá para arrancar minha cabeça, se eu vacilar.”
— É... oi? — sua voz falhou. — E aí, garotão?
O dragão avançou, parando a centímetros dele. O hálito quente com cheiro de ozônio fez os pelos do braço de Darius se arrepiarem. O animal, então, roçou a cabeça contra a mão dele, pedindo carinho.
— Darius, tira ele daqui — Rhazer sussurrou, tenso.
Ao ouvir a voz, o dragão se virou para Rhazer. O animal se aproximou e roçou a cabeça contra o peito do príncipe, que deu um salto para trás, assustado.
Foi quando a voz ecoou direto na mente deles:
— MEUS HUMANOS!!!
Darius e Rhazer se entreolharam em pânico mudo. A tensão foi quebrada pelo rei de Ignel, que se levantou num pulo, correndo para a criatura:
— Meu Deus! É um dragão! O reino está salvo!
O dragão olhou para ele com desinteresse e, com um golpe casual da cauda, derrubou o rei no chão, bufando uma nuvem de fumaça logo em seguida. Ignes cobriu a boca, os ombros tremendo com uma risada que não conseguia conter.
— Parece que ela não gosta muito do rei, papai... — comentou ela, com a voz abafada.
Leonar, que já estava próximo de novo, inclinou-se levemente e sussurrou no ouvido da princesa:
— Talvez ela não goste do rei... mas talvez tenha uma queda pela princesa vulcânica também.
A princesa sentiu o hálito dele perto demais e virou o rosto para encará-lo, surpresa. Suas bochechas ganharam um tom carmim que nada tinha a ver com o calor que percorria suas veias. Ela abriu a boca para retrucar, mas o olhar dele era tão brilhante e divertido que ela apenas desviou os olhos novamente, tentando conter um sorriso bobo.
O dragão voltou sua atenção novamente para Rhazer, que parecia uma estátua. Ela o cutucou com o focinho, insistindo. Ele ergueu as mãos, recuando mais um passo.
— Darius, me ajuda aqui... — ele sibilou, sem tirar os olhos da criatura. — Eu não gosto muito de animais.
Com uma hesitação que beirava a dor, ele esticou a mão e tocou a cabeça, dando dois tapinhas desajeitados.
— Bom... bom bicho. Agora vai... — Rhazer ergueu as duas mãos e fez um gesto largo, empurrando o ar para frente numa tentativa de mandar a criatura embora.
A voz soou de novo na mente deles, desta vez mais possessiva:
— Meus humanos.
Rhazer ficou pálido.
— Eu estou ficando louco — ele murmurou, com o olhar vidrado. — Alguém mais ouviu isso?
Apenas Darius, ainda em choque, assentiu lentamente. Zayan, o mestre de Ignel, deu um passo à frente, com os olhos brilhando com um fascínio quase científico.
— Pensem bem. Um ovo de dragão precisa de duas coisas para chocar: calor constante, como o de uma mãe, e uma faísca de energia vital. Ele estava adormecido porque não tinha nenhuma das duas.
Ele fez uma pausa, organizando os pensamentos.
— Eu acho que a fúria do vulcão forneceu o calor. As erupções criaram uma incubadora natural que finalmente tornou o ovo viável. Mas ainda faltaria a faísca final. — Zayan olhou diretamente para Darius e Rhazer. — Acredito que a energia que vocês liberaram para destruir o Arauto... aquela colisão de poder primordial... foi essa faísca. O ovo absorveu a essência de vocês no exato momento do nascimento. É por isso que ela os reconhece como família.
Todos ficaram em silêncio. Gust estava ao fundo, observando a cena com a calma de quem assiste a um evento há muito previsto.
— Não é uma teoria. — A voz de Gust foi baixa, mas cortou o ar. — É o que realmente aconteceu.
Zambo, que estava ao lado de Gust, abriu um sorriso largo e divertido.
— O que ele quer dizer é parabéns. Vocês agora são pais.
Nesse momento, o Rei Rhanzur deu um passo à frente. Seu rosto tinha a cobiça de um conquistador.
— Um dragão... — ele disse, com a voz baixa e gélida. — Uma arma poderosa. Rhazer, nós a levaremos para Stoneval. Ela será treinada para a guerra.
Darius sentiu um nojo instintivo ferver em seu estômago. Ele deu um passo à frente, ficando entre o rei e a dragoa.
— Ela não é uma arma — rosnou Darius.
Rhanzur o encarou como se ele fosse um inseto.
— Tudo é uma arma, garoto. E esta será a maior de Stoneval. Ela será minha.
— Ela não é sua! — retrucou Darius.
Antes que Rhanzur pudesse responder, Marsalla se aproximou com cuidado da criatura.
— Ele é perfeito... E como vamos chamá-lo?
— Fulgor — sugeriu Darius, ainda fuzilando Rhanzur com o olhar. — Combina com o fogo.
— Fulgor? — Rhazer torceu o nariz, a sua pose arrogante voltando aos poucos. — Nome ruim! Por que não Rhazgor?
— Rhazgor? Esse nome me irrita de alguma maneira — Darius o encarou. — Fulgor é mais épico! E eu que senti a conexão primeiro!
O dragão, aparentemente entediado com a discussão, apenas abaixou a cabeça, rodopiou, fez uma chama no chão, esfregou as patas e se deitou ali mesmo. O gesto, tão parecido com o de um cachorro gigante, arrancou gargalhadas nervosas da multidão. Foi então que Zayan sorriu:
— É uma fêmea.
Darius e Rhazer trocaram um olhar de puro pânico. O rei de Ignel estufou o peito:
— Pois bem! Uma linda fêmea! Como rei, eu a batizo de...
Antes que ele terminasse, ela sacudiu o rabo e deu outro golpe desdenhoso na direção dele. A mensagem era clara: “Não se meta.” A voz de Rhazer saiu baixa:
— Elisa.
Darius encarou a jovem dragão, que o olhava de volta com seus imensos olhos dourados. A imagem de outra garotinha invadiu sua mente.
— Elize — sussurrou.
Rhazer esticou a mão e acariciou o focinho do dragão.
— O que você acha, garota? Elize?
Ela soltou um som baixo e suave, um murmúrio de aceitação e conforto.
— Já que ela não quer saber do rei... eu sou o pai. E você a mãe, Darius.
— Por quê? Eu sou a mãe?
— Porque eu sou mais forte e decidi primeiro.
Darius apenas balançou a cabeça, com um sorriso cansado finalmente surgindo em seus lábios. O dragão, agora Elize, soltou um pequeno rugido satisfeito e se aninhou entre seus dois pais improváveis. Em meio ao caos, ao fogo e às cinzas, uma família improvável havia nascido.