Gust avançava pelo campo devastado. A lâmina de sua espada elétrica zumbia a cada golpe que dissipava as Sombras do Vácuo. Ele estava exausto, o ombro queimando onde uma das criaturas o havia tocado, mas seu foco era inabalável: proteger a irmã a qualquer custo. Tentava afastar a criatura, mas ela era forte demais.
À sua frente, o Arauto pairava. Uma voz metálica e estranha ecoou de sua boca, que não se movia.
— Humanos... por que vocês lutam?
— Aprendeu a se comunicar muito bem, não é, criatura ridícula! — rebateu Gust.
— Somos sedentos por conhecimento. Nosso líder nos deu livros para ler.
A frase, tão absurdamente humana, fez um calafrio percorrer a espinha de Gust. Livros? Ele sentiu a cicatriz pulsar. Será que havia algo que ele não conseguia enxergar? Desviou por puro instinto de uma investida do Arauto, mas o golpe pegou de raspão em seu braço, sugando sua vitalidade.
O Arauto se moveu, e sua mão direita mirou o pescoço de Gust com precisão mortal. A outra, disforme, esticou-se como uma massa de carne viscosa, serpenteando na direção da princesa que tremia atrás de um tronco caído.
— Não ouse encostar nela! — Gust rugiu, abrindo um buraco na terra sob os pés do Arauto.
A criatura saltou para trás, evitando a armadilha, e arremessou uma lança de sombra na direção de Gust. Por centímetros, ele conseguiu desviar, mas o movimento o deixou vulnerável. Um enxame de Vácuos do Abismo brotou do chão ao seu redor, as gavinhas se prendendo às suas pernas e o puxando para baixo. O Arauto continuou seu avanço implacável na direção da princesa.
— Não se aproxime! — ela implorou, com a voz fraca.
Mas a mão esquerda da criatura já estava em seu pescoço — não para esganar, mas para arrancar com brutalidade o colar que ela usava. Um corte superficial queimou a pele dela, mas o golpe foi rápido. O interesse era o objeto, não a vida.
— Não! — gritou a princesa. — A Chave! A Chave! — esticou a mão, tentando alcançar.
Gust rangeu os dentes, a fúria subindo como fogo. Tentava se livrar das criaturas que o mantinham preso, mas elas não cediam.
Um clarão de eletricidade pura rasgou o ar.
Luciel surgiu ao seu lado, Diana já em seus braços.
— Que vergonha... ainda se diz o mais forte!
Gust soltou um meio sorriso, aliviado.
— Você demorou, hein.
Maya chegou logo em seguida. Luciel entregou-lhe a princesa.
— Se escondam... porque agora a gente vai botar para quebrar.
— O colar... o colar! Recuperem o colar... — implorou a princesa.
Enquanto Maya a arrastava para um lugar seguro, o verdadeiro combate começou.
O Arauto, tomado pela fúria da intervenção, avançou.
Mas agora eram dois Grão-Mestres.
Num ataque combinado de raio, terra, vento e fogo, Luciel e Gust desferiram um golpe devastador sobre a criatura — uma mistura de poder tão intensa que o ar pareceu se partir.
Luciel atacou com energia pura, perfurando o corpo negro do Arauto. O monstro rugiu em agonia, mas, antes que pudesse reagir, sua mão que segurava o colar se fechou. Um portal de sombras se abriu ao seu redor, engolindo parte de seu corpo e levando o objeto consigo.
O restante da criatura explodiu em cinzas, espalhando um rastro de fumaça escura pelo campo.
— Não! — gritou a princesa, impotente, ao ver o colar desaparecer diante de seus olhos.
Gust caiu de joelhos, ofegante. Lançou um olhar agradecido a Luciel. Sem ele, teria perdido tudo.
A chave agora estava nas mãos do inimigo, mas sua irmã ainda estava viva. Maya estava ajoelhada ao lado de Diana, fazendo os primeiros socorros. A princesa, com os olhos marejados, mas vivos, sussurrou:
— Agora o mundo acabou. Ele levou a Terceira Chave.
Com a fuga do Arauto, as criaturas menores se dissiparam. A batalha naquele lugar havia acabado. Mas, ao longe, o rugido do Abissal ainda ecoava, lembrando a todos que o verdadeiro terror ainda estava de pé.
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Marsalla sentia o peso de suas escolhas. A cura emergencial de Zambo e o uso massivo da Água Viva a haviam deixado no limite. O ar entrava em seus pulmões em lufadas insuficientes, e os músculos gritavam de exaustão. Mas o rugido do Abissal a chamava de volta à luta.
Ela ergueu o machado que Darius havia lhe dado. Apesar do cansaço, correu pela beirada da muralha destruída e se lançou no vazio.
Seu corpo era um projétil de pura determinação. Marsalla desceu sobre a criatura, e o machado brilhou em um arco. O som úmido e grotesco de carne e escama cortada ecoou: um tentáculo caiu, depois outro, depois o terceiro.
O machado que Darius me deu... pensou, sentindo a ressonância das escamas de dragão na arma. Ele rasga. Talvez seja a única coisa que pode feri-lo de verdade.
Mas o Abissal foi mais rápido que seu próximo ataque.
Um dos tentáculos chicoteou o ar com a velocidade de um trovão e atingiu Marsalla em pleno voo. O impacto foi devastador. Um estalo seco de carne e osso ecoou quando seu corpo foi lançado contra a parede da falésia. O machado escapou de sua mão, girando no ar antes de cair nas rochas abaixo.
Ela ficou presa ali por um instante, esmagada contra a pedra úmida e irregular, o corpo curvado como se tivesse sido moldado pela força do golpe. Um gemido escapou-lhe dos lábios. A dor pulsava, aguda e nauseante, concentrada no braço que agora pendia inútil ao lado do corpo.
Antes que conseguisse respirar, o Abissal investiu novamente.
O impacto fez a rocha estremecer e, com ela, o corpo de Marsalla se desprendeu, sendo arremessado ao mar junto aos destroços, girando sem controle entre espuma e fragmentos de pedra.
A dor explodiu por todo o corpo. A visão escureceu nas bordas. O braço pendia em um ângulo antinatural, como se o próprio corpo tivesse desistido de sustentá-la.
Acima dela, o Abissal se erguia, impiedoso. Sua sombra gigantesca engolia o mundo ao redor, preparando-se para o esmagamento final.
E, em meio à dor e ao terror, um único pensamento atravessou sua mente — amargo, cruel, quase um sussurro de desespero:
Então é assim? Mesmo depois de tudo... eu ainda sou fraca?
Foi o último som que Marsalla ouviu antes de tudo ser engolido por um trovão ensurdecedor.
O braço quebrado latejava em um ritmo nauseante, e o mundo girava enquanto o tentáculo colossal do Abissal se erguia sobre ela, bloqueando o céu cinzento. A sombra a engoliu. Era o fim. Ela fechou os olhos, esperando o esmagamento.
Mas o que veio não foi o impacto.
Foi um flash brilhante que parecia rasgar a própria realidade.
Um relâmpago — de uma fúria e poder que ninguém ali jamais sentira — desceu dos céus como a lança de um deus raivoso. Não atingiu um tentáculo: perfurou o corpo inteiro do Abissal em um clarão ofuscante de energia pura, transformando a noite em dia. A criatura rugiu, menos de dor e mais de puro choque, enquanto a eletricidade percorria sua carne colossal, fazendo-a se contorcer em espasmos violentos.
Marsalla abriu os olhos, atordoada, a visão embaçada. O cheiro de ozônio e carne queimada impregnava o ar. Pelo buraco que o raio abrira nas nuvens, uma silhueta descia. Não. Mergulhava.
Asas imponentes, grandes demais para o mundo, batiam com a força de um furacão. Escamas vermelhas brilhavam como joias de fogo vivo.
Um dragão.
Majestoso, aterrorizante e real.
E, em suas costas, de pé, desafiando o vento e a gravidade, estava ele. Os cabelos, agora mais longos e claros, quase prateados, dançavam descontroladamente. Uma nova espada, escura e sinistra, pendia em sua cintura. E seus olhos… seus olhos faiscavam com a mesma energia caótica do raio que acabara de cair.
Darius.
O mundo virou um borrão de vento e velocidade enquanto ele mergulhava na direção dela. Com a leveza de uma pluma e a precisão de um falcão, interceptou-a antes que seu corpo se chocasse contra as águas. Usando um pedregulho flutuante como impulso, girou-a no ar e a aparou com uma gentileza que contradizia a tempestade em seu olhar.
Por um instante, nos braços dele, Marsalla ouviu o coração de Darius bater num ritmo frenético contra seu ouvido. Ele a depositou suavemente sobre a beirada do precipício, como se fosse feita de vidro.
Darius a levou até uma rocha mais à frente e a colocou sentada. Ajoelhou-se diante dela, ficando da mesma altura. Lançou um olhar rápido para o braço quebrado, a mandíbula se contraiu, e depois para o Abissal, que se recuperava ao longe. Um sorriso pequeno, perigoso e totalmente desprovido de medo surgiu em seus lábios.
Com a ponta dos dedos, afastou uma mecha de cabelo suja de fuligem do rosto dela. Seus olhos encontraram os dela. Eram os mesmos olhos azuis de sempre, mas havia uma tempestade nova e terrível por trás deles.
— Nossa... você não consegue mesmo ficar longe de problemas, né?
Ela sorriu em resposta, um sorriso genuíno e verdadeiro, ignorando a dor.
— Você lutou bem. Já volto.
O rugido do Abissal fez a terra tremer, uma promessa de aniquilação. Darius se levantou. O movimento foi fluido, sem pressa. Sacou a nova espada. A lâmina escura, de um vermelho quase negro e cabo preto, pareceu sugar a pouca luz do ambiente, pulsando com energia contida.
Ele olhou ao redor: o mestre, o jovem curandeiro, a destruição onde antes existira seu lar. As falésias favoritas não existiam mais.
— Eu cuido disso.
O Abissal avançava, um tsunami de fúria e tentáculos. Darius não correu. Caminhou para encontrá-lo, a espada em punho. Faíscas azuis dançavam ao redor de suas botas, a eletricidade crepitando baixo, faminta.
Do alto, Elize soltou um rugido que não era um desafio, mas uma resposta. Um som que vibrava em harmonia com a eletricidade de Darius. Ela mergulhou para se posicionar ao lado dele, as asas criando um vendaval. O calor de seu corpo forjou uma aura de fogo trêmulo ao redor dos dois.
Para Marsalla, eles não pareciam um homem e uma dragoa. Pareciam uma tempestade e uma fornalha.
Ele não correu. Não saltou.
Num piscar de olhos, desmaterializou-se em uma linha de luz.
No instante seguinte, estava lá — pairando no ar, acima da cabeça do Abissal, no meio daquela massa de olhos e escuridão. O mundo inteiro prendeu a respiração. Houve silêncio absoluto.
O golpe foi um só.
A lâmina imbuída do puro Relâmpago caiu como a guilhotina de um deus, cortando o Abissal de cima a baixo. Não houve resistência. Apenas um som de rasgo, como se o próprio tecido da realidade estivesse sendo partido. Uma linha de luz dividiu a criatura em duas. O monstro congelou, os tentáculos paralisados no ar.
— Agora, Elize! — bradou Darius.
Elize abriu a boca e lançou um feixe colossal de energia carmesim: o Fogo Primordial, concentrado como o coração de uma estrela. O ataque atingiu as duas metades da criatura e as incinerou sem deixar rastro.
O Abissal foi aniquilado.
Darius aterrissou suavemente na falésia e guardou a espada na bainha.
Ao olhar à frente, viu Marsalla correndo em sua direção. O braço quebrado esquecido, a dor ignorada. As lágrimas que segurara durante todo aquele ano agora escorriam livres por seu rosto sujo de sangue, suor, cinzas e poeira.
Ela não gritou seu nome.
Não disse nada.
Apenas o alcançou e se lançou em seus braços, abraçando-o com uma força desajeitada que misturava alívio e dor. Darius, pego de surpresa, quase perdeu o equilíbrio, mas se manteve firme e a aparou.
Jamais a deixaria cair. Em seus braços, ela sempre estaria segura.
Ele a envolveu num abraço forte, pressionando-a contra o peito, e apenas a deixou chorar, enquanto afundava o rosto nos fios de seus cabelos, inalando o doce aroma que vinha dela.
O cheiro que ele sentira falta durante todo aquele ano de exílio.