Após o desmaio repentino do garoto e da garota, Empty os carregou até uma casa abandonada nas proximidades, colocando-os com um cuidado surpreendente sobre um tapete empoeirado.
Algum tempo depois, o primeiro a acordar foi o rapaz. De cabelos loiros desalinhados e corpo magro, sujo e desnutrido, ele abriu os olhos com uma lentidão pesada. A visão turva aos poucos se ajustou ao ambiente sombrio da casa, até que seus olhos focaram na figura sentada a poucos metros de distância.
Lá estava Empty, imóvel como uma estátua, sua armadura escura absorvendo a pouca luz que entrava pelas frestas. Mas o que mais chamou atenção não era sua postura – eram seus olhos. Fixos no rapaz, eles brilhavam com uma curiosidade intensa e pura, quase infantil em sua falta de filtro. Empty parecia completamente alheio ao quão intrusivo e desconfortável era aquele escrutínio silencioso, como um observador estudando uma nova forma de vida fascinante e desconhecida.
O garoto se encolheu quando um frio percorreu a espinha, o medo e o receio apertando seu peito.
— Não me machuque, por favor... — sua voz saiu fraca, quase um sopro.
Empty apenas observou, mas levantou-se de repente. O movimento foi fluido e silencioso, como se a armadura fosse uma segunda pele. Eles estavam em uma casa repleta de itens estranhos – relíquias de um mundo perdido – organizados meticulosamente em prateleiras improvisadas, como um museu do absurdo.
Com uma determinação curiosa, andou até uma das prateleiras e pegou um objeto específico: um copo de plástico rachado, com a estampa desbotada de um personagem colorido sorridente, algo que encontrara em uma de suas expedições por ruínas. Segurando o copo com uma reverência estranha, ele se virou e o estendeu ao garoto, seus olhos fixos no rosto do jovem, esperando – quase exigindo – alguma reação.
— É… um copo? — murmurou o jovem, confuso. — Me diga… o que é você?
Empty permaneceu em silêncio.
O garoto sempre desviava o olhar, mas agora encarava completamente a criatura, tentando forçar seu corpo a relaxar. Aquele salto contra a maldição de elite fora anormal – uma agressividade sem medo, algo que faria até um soldado experiente hesitar. Além disso, o ser parecia conhecer os perigos da Zona Infernal como a palma da sua mão, movendo-se com uma confiança que só vinha da familiaridade.
Aos poucos, uma conclusão se formou em seus pensamentos, mais rápida que o golpe de uma lâmina: aquela criatura era forte. E, pelo que tudo indicava, não estava tentando machucá-los.
Com esforço, o garoto se sentou, sentindo cada músculo dolorido protestar. Observou os objetos curiosos ao redor – o museu particular do estranho ser – e, com um suspiro quase imperceptível, forçou um sorriso nervoso. Lentamente, ergueu o polegar em um gesto desajeitado, mas claro.
Empty inclinou a cabeça para o lado, observando o polegar erguido. Depois de um momento, imitou o gesto com sua própria mão enluvada, devolvendo o sinal com uma precisão mecânica. Um acordo silencioso.
Um tempo se passou em silêncio tenso, apenas cortado pela respiração ofegante do garoto e pelo ruído distante do vento lá fora. Até que, reunindo coragem, o garoto tentou se comunicar novamente.
— Raphadun. Meu nome é Raphadun... — disse, apontando para si. Em seguida, indicou a irmã adormecida. — E ela é a Luna.