No dia seguinte, ninguém comentou o ocorrido.
Sob a luz cinzenta que filtrava pelas janelas sujas, Raphadun tentou desenhar para explicar a situação.
— Aqui, Empty... Isso onde estamos é a Zona Infernal. — Ele desenhou um grande círculo negro no chão de poeira. Empty observava em silêncio, a cabeça levemente inclinada. — Do outro lado existe a Zona Segura. E o único jeito de chegarmos lá... é ativar os três mecanismos! Se pressionarmos os três botões, uma passagem no domo que cerca essa zona vai se abrir! Nós já ativamos um. E o único jeite de ativar os outros dois... é com o poder de luz dela! — Ele apontou para Luna, que observava de longe, os braços cruzados.
Empty olhou para o desenho, depois para Raphadun. Seus olhos brilhavam por trás da máscara com uma expressão que claramente não havia compreendido nada.
— É inútil, irmão. Esse estranho nunca vai entender — disse Luna, sua voz carregada de ceticismo.
Empty, no entanto, sorriu levemente, um gesto curioso diante da frustração alheia.
Raphadun correu até uma prateleira e pegou o velho "Livro dos Heróis". Folheou as páginas até encontrar a imagem do herói de armadura. Apontou para a figura e depois para Empty. O ser de armadura se inclinou para frente, interessado. Quando o garoto mostrou a ilustração da princesa presa na torre, apontou primeiro para o desenho e depois, decisivamente, para Luna.
— Isso é sério, Raphadun? — ela protestou, corando levemente.
Raphadun ignorou-a. Apontou para os locais no mapa rabiscado, fez movimentos exagerados de combate no ar e, por fim, apontou mais uma vez para Luna, seu rosto suplicante. Empty pareceu absorver a encenação. Lentamente, sua mão foi até a cintura e puxou a espada, segurando-a diante do corpo. Ele finalmente entendera a missão: proteger a garota.
— Isso... realmente funcionou? É como lidar com um bebê. Um bebê monstro — resmungou Luna.
— Cala a boca, Luna... Ele vai nos ajudar! Vai nos levar até um dos mecanismos e vamos finalmente sair daqui!
— E você esqueceu da parte principal, Raphadun. O Perseguidor! Se ele nos seguir e o portão abrir... ele vai passar. E vai exterminar todos na Zona Segura. Seríamos... os maiores traidores da história. Eu nunca seria uma rainha assim.
— Eu sei... — Raphadun baixou a voz, seus olhos se encontrando com os de Empty, que os observava com atenção. — É por isso que precisamos dele... Ele pode ser a nossa isca.
— Raphadun... tem razão. Melhor ele do que nós.
Empty sorriu novamente, um gesto vazio e inocente diante do plano cruel que se formava. Eles partiram.
— Você se lembra para que lado fica? — Raphadun perguntou, enquanto caminhava com cuidado pelo chão podre e instável da Zona Infernal.
Luna parou, puxando a alça da bolsa que trazia no ombro. Seus dedos buscaram dentro dela até encontrar o que procurava.
— Deixa eu olhar melhor — ela disse, desenrolando um mapa antigo, Empty estava a frente, mas sempre olhando para trás para vê-los. O papel estava amarelado e frágil, as bordas já desgastadas pelo tempo, mas as linhas e marcas ainda eram legíveis. Ela o segurou com cuidado, estudando os traços. — Fica ao norte… — murmurou, comparando o desenho com a paisagem ao redor. — Parece que nos afastamos muito do local onde estávamos, mas, por sorte, o seu teleporte nos trouxe para perto da posição certa, Rapha.
— Isso é bom — ele disse, a voz saindo entrecortada pela respiração ofegante enquanto continuava a caminhar.
Luna se aproximou do irmão, seu olhar escaneando o rosto pálido dele com uma preocupação que parecia materna.
— Você está bem? Quer mais luz, irmão? — perguntou, enquanto uma suave claridade começava a emanar de sua mão, pronta para ser usada.
Raphadun abanou a cabeça, apoiando-se um pouco mais no próprio bastão.
— Eu estou bem… só estou me recuperando. Temos que ir. O Perseguidor deve estar próximo, não podemos perder tempo.
Enquanto as palavras ainda ecoavam, Empty se aproximou lentamente. Seus passos eram largos e deliberados, mas sem pressa, como se estivesse apenas acompanhando o ritmo deles. A presença silenciosa e encapuzada fez Luna tensionar os ombros. Ela puxou Raphadun para o lado. Empty apenas ajustou a trajetória.
— Ele parece um cachorro seguindo a gente — murmurou Luna, seus passos ficando um pouco mais rápidos e desconfortáveis.
Raphadun olhou para trás, estudando a figura escura que os acompanhava com uma curiosidade cansada.
— Deixe-o — disse, voltando o olhar para a frente. — Deve ser a primeira vez que ele vê algo como nós.