O velório foi um monumento ao silêncio. O choro de Alice, no entanto, não respeitava a liturgia. Em um acesso de desespero, ela buscou algum eco para sua dor, algum rosto que refletisse o abismo dentro dela. Seus olhos, inundados e cegos, encontraram Andrew.
Ele estava parado atrás do caixão, completamente rígido. Olhava para o rosto sereno do irmão mais novo com uma intensidade que não era ternura, mas uma análise fria, um cálculo silencioso. Nem um brilho de umidade ameaçava seus olhos. Ele era seco.
O ódio que brotou em Alice não foi uma faísca. Foi uma inundação. Um veneno grosso e justificado, que deu à sua dor um alvo. Ele chorava? Não. Então ela choraria pelos dois. Ele sofria? Não. Então ela odiaria por dois.
Anos depois, a fria engrenagem das Casas triturou sua dor e a reciclou em dever. O impensável tornou-se decreto: Alice Lighting casar-se-ia com Andrew Darking. A peça de reposição.
O homem que ela detestava com a memória vívida de seu choro não partilhado.
No dia do casamento, o silêncio entre eles não era ausência de som, era uma presença física. "Sim," ela pensou, o gosto do vinho da cerimônia azedo em sua boca, "eu odeio meu marido. Sempre odiei."
A vida que se seguiu foi uma coreografia de gelo. Andrew era uma fortaleza ambulante em trajes formais. Jamais lhe dirigia a palavra sem necessidade. Nunca a cumprimentava ao chegar, nunca a buscava ao sair. Em público, eram a imagem de devoção conjugal, sorrisos pintados e toques calculados para os olhos das cortes. Em casa, a cama imperial era um deserto de veludo e linho, onde dois corpos dormiam em cantos opostos como inimigos que declaram trégua apenas sob a vigília do sono.
A vida de Alice se estreitou a uma única função, clara e brutal como uma faca: gerar a Luz Definitiva. Era seu dever, sua prisão e sua suposta redenção. Seguindo os conselhos glaciais e pragmáticos da mãe – "O útero é o campo de batalha onde mulheres como nós conquistamos ou perecemos" –, ela decidiu cumprir o protocolo.
Uma noite, após um jantar silencioso, ela foi até o gabinete dele. Despiu a persona da esposa desdenhada e vestiu a armadura da reprodutora. O roupão de seda não era um convite; era um uniforme. Deixava tudo e nada à imaginação, um contrato de carne exposto.
Parou na porta, o coração batendo não de desejo, mas do ódio que sempre a animara. Sua voz, quando saiu, foi clara, metálica, destituída de qualquer calor que não fosse o do desafio.
— Devemos fazer isso — ela disse, os olhos fixos não nele, mas no vazio além de seu ombro
— Pelo bem do mundo.
— Nada mais.