Andrew aproximou-se.
E aqui, a memória se desprende e desliza, invadindo pela primeira vez o ponto de vista da sombra. Seus dedos, que conheciam o peso de uma espada e a friagem da pedra, pairaram a um fio de cabelo loiro da pele extremamente branca de Alice. Era um véu que ele não tinha permissão para rasgar.
Foi então que a voz de Oliver ecoou em sua mente. Não uma lembrança suave, mas um golpe. Clara e dolorosa como o badalar de um sino fúnebre:
"Ei, irmão… essa é a minha mulher. A mulher da minha vida."
A frase não veio com a doçura do irmão vivo, mas com a acusação eterna do irmão morto. Andrew recuou violenta e repentinamente, como se a pele dela fosse carvão em brasa. Sem uma palavra, sem um olhar, virou-se. Seus passos ecoaram no corredor vazio, uma retirada estratégica da única batalha da qual ele se recusava a ser o vitorioso. Ele a deixou sozinha no meio do gabinete, envolvida apenas pelo roupão de seda e por uma humilhação tão aguda que rapidamente fermentou em fúria pura.
Meses se arrastaram. A pressão não era mais um sussurro, mas um cerco. O pai, os líderes de outras casas, os pergaminhos das profecias encontradas — todos convergiam sobre Andrew como gralhas a bicar um cadáver até que ele se movesse. Ele finalmente cedeu. Não por desejo, não por dever, mas por exaustão. A consumação foi um ato administrativo, frio e eficiente, realizado no escuro, sem beijos e sem nomes.
Um ano depois, contra toda a frieza que o concebeu, nasceu Raphadun. E o mundo parou. O menino portava o dom raro do teletransporte – nenhum sinal. A profecia respirava novamente. Um mês depois, veio Luna. A Luz Definitiva havia retornado após oitenta anos, e seu preço foram duas crianças e um casamento em ruínas. Naquele dia, a luz saiu do local onde ela nasceu, iluminando a todos os líderes de casas e a os líderes da luz e escuridão presentes, aquele era o momento, aquela era a forma.
No leito de parto, exausta e banhada em suor, Alice viu algo que julgou impossível: Andrew sorria. Um gesto ínfimo, quase imperceptível, desengonçado, direcionado ao bebê que ele segurava com os braços tão rígidos quanto se estivessem armados, mas com uma ternura desastrada nos polegares que acariciavam o rosto minúsculo.
Mas aquele sorriso não era para ela. Era uma brecha em sua fortaleza, e através dela só passava a luz dos filhos. Nada mudou entre os dois no grande deserto de seus aposentos. "Eu odeio meu marido," Alice repetia para o espelho todas as manhãs, e as palavras soavam cada vez mais como um feitiço desgastado, cujo poder ela temia estar perdendo. "E sempre vou odiar."
Com o crescimento das crianças, o ódio precisou aprender a usar máscaras. Tornou-se uma convivência protocolada, um tratado de não-agressão assinado diante dos berços.
— Por que o papai e a mamãe nunca dormem juntos? — perguntou Luna um dia, sua voz um guincho de inocência que trespassou o coração blindado de ambos.
Eles tentaram. Pela primeira vez em anos, deitaram-se lado a lado na cama enorme, um deserto que de repente parecia pequeno demais. A história para as crianças foi lida em turnos, suas vozes nunca se misturando, apenas se alternando no ar como duas aves de espécies diferentes. Foi um ato. Mas foi um ato conjunto.
No dia seguinte, Alice acordou com um aroma estranho e tentador pairando em seu quarto: café fresco. Desceu até a cozinha. Ele havia preparado a bebida. Para ela. Não havia bilhete, nem palavra, nem olhar. Apenas uma xícara de porcelana fina posta no lugar dela à mesa, fumegando silenciosamente como uma bandeira de trégua hasteada em solo contestado.
Foi o primeiro gesto. Um buraco de minúsculas proporções cavado no muro de gelo entre eles.
Anos de gestos mínimos se passaram. Silêncios que eram um pouco menos cortantes. Olhares que, ao se cruzarem por acidente, fugiam um pouco menos rápido.
Eles tentaram. Pela primeira vez em anos, deitaram-se lado a lado na cama enorme, um deserto que de repente parecia pequeno demais. A história para as crianças foi lida em turnos, suas vozes nunca se misturando, apenas se alternando no ar como duas aves de espécies diferentes. Foi um ato. Mas foi um ato conjunto.
No dia seguinte, Alice acordou com um aroma estranho e tentador pairando em seu quarto: café fresco. Desceu até a cozinha. Ele havia preparado a bebida. Para ela. Não havia bilhete, nem palavra, nem olhar. Apenas uma xícara de porcelana fina posta no lugar dela à mesa, fumegando silenciosamente como uma bandeira de trégua hasteada em solo contestado.
Foi o primeiro gesto. Um buraco de minúsculas proporções cavado no muro de gelo entre eles.
Anos de gestos mínimos se passaram. Silêncios que eram um pouco menos cortantes. Olhares que, ao se cruzarem por acidente, fugiam um pouco menos rápido.