Dias depois, Andrew encontrou o núcleo pulsante da maldição ancestral e a desfez com as próprias mãos, num ritual de dor e luz que purgou a marca de Luna. O alívio, contudo, foi um sopro breve num furacão. Ao retornarem à fronteira, encontraram os portões da Zona Segura selados a ferro e medo. O Conselho, em pânico, os declarara intocáveis.
A única saída eram os três Mecanismos de Emergência Ancestral, dispersos pelas ruínas infernais.
No primeiro deles, O Perseguidor os encontrou.
A presença da criatura era um veneno familiar no ar. Andrew congelou, e então tudo fez sentido – a assinatura da morte, o rastro de poder deixado anos atrás.
— Foi você… — sua voz não foi um grito, foi um rugido surgindo das profundezas de uma ferida nunca cicatrizada. — Foi você quem matou meu irmão!
A luta foi um cataclismo pessoal. Não havia técnica, apenas fúria esculpida em cada golpe. Andrew, movido por uma dor de décadas, era um redemoinho de aço e vingança, levando clara vantagem. Até que o lobo colossal do Perseguidor, astuto, mirou não nele, mas no grupo indefeso atrás: Alice e as crianças.
Andrew não pensou. Seu corpo interpôs-se no ar, um escudo de carne e osso entre o monstro e sua família.
O golpe o atingiu com o impacto de um mundo desabando.
Seu braço direito – a mão que segurava a espada, que prometera proteger – voou em um arco vermelho. A dor foi tão absoluta que, por um segundo, foi silêncio.
No instante em que a escuridão avançou, Alice não viu dentes ou sombras.
Ela viu as costas de Andrew.
Como uma lembrança de uma vivência passada. No jardim ensolarado, Oliver girava diante dela, seu sorriso um raio de luz.
"Olha, Alice! Olha minhas costas!"
Ele exibia, orgulhoso, a capa pesada da Casa Darking – o manto da escuridão que ele vestia com uma ironia divertida.
"É feia, né? Grossa. Escura. Mas é a prova! Enquanto você vir essas costas, você estará segura. Eu sempre estarei na sua frente. Eu prometo."
Ela ria, achando-o bobo. As costas dele eram uma promessa.
Agora, no presente de sangue e metal, as costas que ela via eram outras.
Eram as costas de Andrew.
Era a mesma promessa, a mesma capa.
Cumprida pelo irmão errado. Pelo homem certo.
Oliver mostrara as costas como um cavaleiro num conto de fadas.
Andrew as ofereceu como um escudo humano, sem glamour, sem discurso.
Naquele último microssegundo de consciência, enquanto o Perseguidor os engolia, o ódio de Alice não se dissolveu em amor.
Dissolveu-se em compreensão.
Seus filhos estavam em seus braços, um último e feroz abraço.
Os soldados leais de Andrew jaziam no chão, cumprindo seu dever até o último segundo.
E as costas de seu marido.
Mortalmente ferido, arrastou-os. Sangue pintava um rastro obsceno até uma sala de controle abandonada, uma concha de metal frio. Raphadun, em pânico, tentou criar portais. Eles cintilavam, instáveis, e sua energia juvenil só daria para três pessoas. Luna apenas chorava.
A matemática era cruel e simples.
Andrew ofegou, o rosto pálido como mármore, e enfiou o mecanismo ativado nas mãos do filho.
— Vocês… são a esperança deste mundo. Levem isso. Ativem os outros.
Seus olhos, então, turvos pela névoa da morte, encontraram os de Alice.
— Alice… — o nome saiu como um suspiro de alma. — Eu sempre amei você. Mas eu não podia… por causa do Oliver… Eu o amava. Me… me perdoe.
Alice não hesitou.
Com uma calma que era a própria essência da decisão irrevogável, ela usou o último pulso do portal instável. Não para escapar. Para enviar os filhos e o objeto precioso para longe, em segurança.
Lá fora, o Perseguidor atirava nos soldados restantes.
— É… — Alice disse, ajoelhando-se ao lado dele no chão frio. O ódio de uma vida havia se evaporado, deixando apenas a verdade nua e tardia. — Você está certo. Nos odiamos por tanto tempo. Eu sabia que você queria algo mais… mas eu não tentei. Eu amava seu irmão… não podia traí-lo. Nem a mim mesma.
Andrew, sangrando sua vida no chão de metal, começou a cantarolar. Era uma melodia simples, uma canção de dança antiga, que saía entrecortada, fraca, mas afinada.
— Essa música é boa, né? — ele sussurrou, um brilho de ironia gentil em seus olhos. — Lembro de você e do meu irmão tentando dançar isso no baile da primavera… Caramba, vocês eram péssimos!
— Ei! Não fala assim do Oliver! Sua voz que é pessima, não tente cantar assim!— Alice riu. O som foi rouco, partido, e se misturou a um soluço no instante seguinte.
— É verdade! — ele insistiu, um fio de vida teimoso ancorando sua voz. — Nossas casas são péssimas na dança! Problema de família!
Com um esforço supremo que arrancou um gemido, Andrew estendeu a mão. A mão esquerda. A única que lhe restava.
— Você… você me concede essa dança?
Lá fora, no mundo cinza, Luna e Raphadun corriam, o peso do futuro e da perda esmagando seus ombros pequenos.
Lá dentro, na câmara iluminada por faíscas de sistemas moribundos, sob a sinfonia de metal sendo retorcido, Alice aceitou a mão.
"Eu odeio meu marido pelo amor que tínhamos pela mesma pessoa. Mas, pela primeira vez, eu não quis pensar nisso. Eu só queria que aquele momento – aquele último, doce e agonizante suspiro de algo que poderia ter sido – durasse para sempre."
Eles se beijaram.
Pela primeira e última vez. Um toque suave, salgado por lágrimas e pelo ferro do sangue, doce pelo perdão que finalmente chegava.
A porta cedeu.
O Perseguidor adentrou, um tsunami de sombras e dentes.
A escuridão os consumiu.
Seus corpos caíram juntos.
Mesmo com o sangue tinto ao chão, suas mãos, firmemente entrelaçadas, não se separaram.
Quando o ar se dissipa, dando fim a memória, parado e estagnado em frente.
Estava o ser sem vida, contra as duas maldições ao chão, de mãos entrelaçadas.
O vencedor: Empty.