Capítulo 04 — Aliados e Inimigos
Se me dissessem que um dia eu confiaria em um gnomo… eu teria gargalhado. Se eu ainda tivesse diafragma, claro. Mas ali estava eu, lado a lado com Gobe — um amontoado de malandragem com orelhas pontudas e sorriso de quem já enganou mais gente que vendedor de poção falsa em feira mágica. Depois de fuçarmos cada canto da biblioteca, perguntei o que qualquer um com meio neurônio funcionante perguntaria:
— Gobe, como você, um gnomo que claramente não é confiável nem com um mapa de cervejarias, veio parar numa biblioteca secreta? Ele estufou o peito do tamanho de uma noz e respondeu com ar solene:
— Fui trazido por antigos companheiros. Diziam que esse lugar guardava segredos arcanos. Eu era um dos poucos que sabia a senha.
— Tá. E qual era? Com todo o drama de um bardo bêbado, ele recitou:
“Para o saber oculto revelar, Na pedra selada, o sinal deve repousar. Um símbolo que à água pertence, E assim o selo se rompe e se vence.” Poético. Críptico. Irritantemente vago. Mas era o que tínhamos. Seguimos até a parede que deveria ser a saída. Havia um recesso, uma espécie de encaixe perfeito para um bloco… e adivinha? Estava vazio. Que maravilha.
— Gobe, você disse que a chave estaria aqui. Cadê?
— Tava! — respondeu coçando a cabeça. — Acho que… pegaram. Ou talvez… eu estivesse um pouco… embriagado na ocasião. Genial. Meu guia confiava menos nas próprias memórias do que eu confio na durabilidade de uma espada de bronze. Mas aí eu olhei o encaixe e algo despertou. Eu já tinha visto esse formato… na barriga gosmenta de um slime!
— Acho que sei onde tá essa chave. Voltamos pelos corredores da biblioteca, e lá estavam eles: os bons e velhos cubos assassinos de gelatina — os slimes cúbicos. Translúcidos, vibrantes, e repletos de sucata flutuante, os slimes nos observavam com a lentidão ameaçadora de quem sabe que pode te derreter num abraço.
— Assista e aprenda, ossudo! — gritou Gobe, conjurando uma lâmina de vento que rasgou um dos cubos ao meio. Só que, como de costume, ele começou a se regenerar. Sem perder tempo, lancei minha boa e velha Labareda. Um jato de fogo saiu da minha mão esquelética, queimando os pedaços viscosos antes que pudessem se reagrupar. O jato de fogo queimou os pedaços antes que pudessem se reagrupar. A combinação estava funcionando: Gobe cortava, eu torrava. Um verdadeiro trabalho em dupla… se por “dupla” você entende um mago morto-vivo e um gnomo ex-alcoólatra.
— Impressionante, ossudo — comentou Gobe, girando os dedos para limpar o resto de gosma do ar. — Um morto conjurando magia… Aposto que isso deixaria muito mago vivo envergonhado. Eu ergui uma sobrancelha imaginária.
— Quer dizer, se você quiser, eu posso te dar umas aulinhas — continuou ele com um sorriso metido. — Sou praticamente um mestre do Caminho do Ar. Dou desconto pra alunos sem carne.
— Anotado. Se eu quiser aprender a conjurar vento com cheiro de cerveja velha, eu te procuro. Depois de exterminar uma dúzia deles, o sistema finalmente reconheceu meu esforço:
[Você ganhou 1 ponto de Magia!]
Maravilha. Mais mana, mais poder. Mais chances de não morrer de novo tão cedo. Foi então que encontramos o slime certo. Mais lento, mais denso… e com algo flutuando no centro: um bloco azul, levemente brilhante. Executamos a tática de sempre: Gobe cortou como se estivesse fatiando um bolo, eu cozinhei os pedaços com fogo mágico. Quando o slime virou sopa, o bloco caiu no chão. Frio ao toque, translúcido, com um brilho misterioso. Levamos o item até a parede novamente. Encaixei a peça no recesso… e… Nada. Absolutamente nada.
— Gobe?
— Hm. Estranho… acho que… essa pedra tá diferente. — Ele estreitou os olhos. — Talvez… tivessem runas aqui? Examinei o bloco mais de perto. Era isso. Runas. Desgastadas, quase invisíveis. Provavelmente apagadas pelo tempo que passou derretendo dentro do slime. Pensei na “senha” que Gobe tinha recitado. O símbolo da água. A runa da água. Se era isso que ativava o mecanismo… talvez eu pudesse substituir a runa. Com magia. Ainda com o ponto de magia novo brilhando na minha interface mental, abri o menu:
✧ Caminhos da Magia ✧
Água: 0 → 1 Senti uma onda gelada atravessar meus ossos — o tipo de sensação que você teria ao cair pelado numa piscina às três da manhã. Se eu ainda tivesse pele, provavelmente teria arrepiado. Comecei a pensar. Se Labareda era um jato contínuo de fogo… então, por que não uma versão aquática? Mesma ideia, só que trocando calor por umidade. Fácil, né? As lembranças da magia rúnica voltaram, como se algum código oculto tivesse sido digitado na minha mente. Estendi a mão, como da primeira vez. Mas ao invés de convocar o fogo através de um calor interno que parecia puxar do ar ao meu redor, essa nova magia invocou… água. Literalmente criou água do nada. Como se tivesse puxado a umidade do ar, da pedra, do multiverso, sei lá. Diferente da Labareda, que eu conseguia manter ativa enquanto minha mana durasse, esse jato de água era limitado. Um feixe fino, da espessura de um bastão, com uns oito metros de comprimento, se projetou da minha mão como uma corda líquida. Eu conseguia controlar sua forma, dobrar a trajetória, acelerar ou desacelerar. Mexia como se fosse uma extensão flexível do meu próprio braço. Era uma corrente de água sob meu comando.
“Talvez a Labareda queime enquanto o ar fornece combustível… e essa aqui não tem de onde puxar mais água. Hm… teoria interessante.” Mentalmente criei uma nota para procurar uma forma de estudar magia assim que possível. Sim, porque se eu vou ser um mago esquelético com estilo, melhor entender como essa coisa funciona antes de explodir algo que não devo. Tipo meu próprio crânio. Segurei o feixe com ambas as mãos, tentando entender sua densidade. Uma parte de mim — a parte inútil que ainda pensava como um humano — ficou animada com a ideia de produzir água potável. Imagina que beleza: purificadores de água mágicos! Economizaria um bom dinheiro no mercado. Pena que eu, pessoalmente, não bebo mais nada. Literalmente. Ainda assim… saber que posso gerar água limpa em um mundo onde isso provavelmente vale ouro é algo que deixei registrado como “absurdamente útil”. Manipulei a lâmina líquida mais um pouco. Dobrei-a em formas estranhas, testando ângulos, tensão, resistência. Descobri que, com o foco certo, ela podia ser mais do que um jato — podia ser uma uma lamina talvez?
[Falha na conjuração da magia ‘Lamina de Agua’ – Focus insuficiente.]
— Droga! Tentei outras coisas e fiquei meio decepcionado ao perceber que, no total, o volume de água gerado era menor do que um daqueles galões azuis de bebedouro do meu antigo mundo, aqueles de 20 litros. Mas foi exatamente nessa lembrança… aquele barulhinho característico da água saindo em pressão… que uma ideia explodiu na minha cabeça.
— Pressão! E se o segredo fosse esse? Não criar mais água, mas comprimir a que eu já havia invocado? Me concentrei. Canalizei a mana, apertando mentalmente o feixe como se estivesse afunilando a ponta de uma seringa invisível. A lâmina se afinou, ficou mais intensa, mais veloz — quase invisível. Um brilho tênue percorria a linha de água como se a própria luz tivesse medo de encostar. Aquilo não era mais só um jato. Aquilo era… poderoso E pela reação do Gobe, eu tinha acertado em cheio.
— MAS QUE AGULHA D’ÁGUA FOI ESSA?! — ele gritou, quase engasgando com a própria surpresa.
— “Agulha de Água”… — murmurei. — Melhor nome do que “Mangueirinha Mágica”… ou “Modo Lavadora”… Ou… “Wap”.
[Nova Magia Aprendida: Agulha de Água]
✧ Um jato concentrado de água em alta pressão. Ideal para perfuração. ✧
Entalhes refeitos, pedra encaixada… Ora de saber se o enigma foi resolvido. Gobe se aproximou da parede e recitou com ares teatrais:
“Para o saber oculto revelar, Na pedra selada, o sinal deve repousar. Um símbolo que à água pertence, E assim o selo se rompe e se vence.” A parede tremeu. O bloco azul brilhou, o encaixe tilintou como uma engrenagem mágica engasgando, e a porta secreta se abriu com o som elegante de pedras raspando sobre pedra. Atrás dela, um novo corredor. Mais úmido. Mais escuro. Mais… promissor.
— Ha! Sabia que essa pedra ainda prestava! — Gobe se vangloriou, estufando o peito como se tivesse sido ele o gênio que conjurou uma seringa d’água em alta pressão.
— Aham. Mandou muito bem ficando ali parado me assistindo resolver tudo — respondi mentalmente. Avançamos juntos pela passagem recém-revelada. A luz tênue das tochas rúnicas acendia à medida que nossos passos ativavam o piso. Aos poucos, a poeira foi diminuindo, e revelando estantes, vitrines e corredores de pedra entalhada com inscrições antigas. Era maior. Muito maior. A biblioteca oculta… fazia parte de algo bem maior.
— Isso aqui é… uma biblioteca dentro de outra biblioteca? — perguntei, quase admirado.
— A elite do conhecimento arcano costumava esconder coisas importantes dentro de coisas já secretas. Tipo baú dentro de baú. — Gobe deu de ombros. — Aqueles aventureiros que me trouxeram aqui ficaram bem decepcionados quando não encontraram o livro que queriam. Disseram que fui eu que os enganei. E aí… me deixaram trancado na garrafa. Para sempre.
— Não pegaram leve, hein.
— É. Fiquei lá tanto tempo que quase comecei a achar que era uma azeitona. Continuei em silêncio. Não sabia o que responder. Ainda que o gnomo fosse um picareta, ele não merecia ser engarrafado por toda a eternidade. Andei mais um pouco entre os corredores de pedra, até que vi o que parecia ser uma sessão inteira de grimórios, tratados mágicos e volumes sobre teoria arcana.
— Livros. Finalmente. Senti um impulso. Aquilo podia ser a chave para evoluir minhas magias, entender os caminhos, criar novas habilidades. Caminhei entre os tomos com reverência de quem folheia o manual de um jogo que já está jogando às cegas. Só que, bem no meio da minha empolgação bibliográfica, ouvi passos. Pesados. Vários. E então, vozes.
— Ugh… finalmente passamos daquela desgraça de cemitério. — Era uma voz feminina, áspera. Conna. A guerreira de armadura leve e machado pesado.
— A culpa é sua, Conna. Quem manda correr na frente? Eu avisei sobre os esqueletos. — Essa era a maga. Tom entediado, cansada da vida — e dos companheiros.
— Já chega vocês dois! — outra voz interrompeu. Um tom autoritário, firme. Tricar. O líder do grupo. Me escondi atrás de uma das colunas e puxei Gobe junto, que estava se distraindo olhando uma estatueta de pinguim com três olhos.
— Fica quieto, os turistas voltaram — sussurrei mentalmente. O grupo de aventureiros estava todo ali. O mesmo que invadiu a dungeon nos primeiros capítulos, os mesmos que me explodiram em mil pedaços de osso e me deram um ingresso gratuito para o esgoto VIP.
— Avancem logo! — berrou outra voz. Uma que me causou calafrios.
Drubal.
Sim. Um sujeito gordo, com barba suada e olhos inquietos. O mesmo comerciante de antes, o tal mais rico das ilhas Nakhon. Então era a carteira dele que financiava o passeio dos turistas pela minha casa.
— Gobe… — minha voz ecoou direto na mente do desgraçadinho. — O gordo gritando é quem está pagando por tudo isso. E é o mesmo bando que me explodiu. Que azar é esse de topar com eles de novo?
— Azar, não — respondeu ele com uma careta. — Pegadinha do esquecido Deus dos Caminhos, talvez. Vai saber. Ele tem senso de humor, dizem.
— E o patrocinador?
— Hm — Gobe farejou o ar como quem avalia mercadoria. — Cheiro de ouro e suor. Gente assim sempre paga mal e cobra rápido. Anota o que eu tô falando. A conversa telepática foi interrompida por um grito à frente.
— Ei, galera! Encontrei a entrada! — era a guerreira, gritando do final de um dos corredores.
— Finalmente! — exclamou o mercador. — Vamos, vamos, mais rápido!
— Calma, Drubal — disse Tricar, o líder, colocando a mão no ombro do comerciante.
— De acordo com os registros, o laboratório fica logo após a biblioteca. Estamos no caminho certo.
— Ótimo. Então andem logo. Tô pagando caro demais pra gente parar pra admirar decoração. Gobe e eu nos esgueiramos atrás das colunas até termos visão clara do grupo se reunindo no final do salão. Conna estava parada, em posição de combate, encarando… uma porta comum. Madeira, velha, dupla. Nada demais à primeira vista.
— Conna, por que você tá rosnando pra uma porta? — perguntou o clérigo, Leof, visivelmente confuso. Foi quando a maga deu dois passos à frente, olhos semicerrados e mãos carregando energia.
— Fiquem atentos. Não é a porta… são as estátuas ao lado dela. Pela primeira vez, o grupo ficou em silêncio. E, bom… nós também. A tensão tomou conta do ambiente, como se até os livros tivessem prendido a respiração.