Capítulo 06 — De Dentro para Fora
Existem muitos sons ruins no mundo. Unhas arranhando lousa. Vizinho aprendendo violino às três da manhã. Mas eu desafio qualquer um a encontrar algo pior do que o som de toneladas de réptil lendário rastejando na sua direção dentro de uma sala sem saída.
— A porta… — Conna esmurrou o entulho que, até poucos minutos atrás, era a nossa única rota de fuga. — Aquele gordo desgraçado selou a porta!
— Xingamento depois — cortou Tricar. — Sobreviver primeiro.
— Ele está contornando as jaulas pela direita — avisei no canal do grupo, o único ali com o luxo de poder olhar. — Quatro passos à esquerda, atrás do inseto gigante de pedra. Abaixem. AGORA.
O grupo obedeceu em silêncio, olhos cravados no chão. Era uma cena ridícula: quatro aventureiros experientes andando de cabeça baixa, guiados por um esqueleto que narrava o campo de batalha como locutor de futebol. O Basilisco passou arrastando o ventre a poucos metros, lento, pesado, paciente. Ele não corria atrás de ninguém.
Ele não precisava.
Nos enfiamos no canto mais fundo do criadouro, entre jaulas retorcidas e uma fileira de estátuas que um dia foram pessoas. Leof apoiou as costas no escudo, ofegando. Freala tinha as mãos trêmulas. Gobe, encolhido no meu ombro, parecia uma estatueta decorativa de mau gosto.
— Muito bem — sussurrou Tricar. — Alguém aqui sabe alguma coisa sobre essa criatura que não seja “o olhar dela petrifica”?
— Eu sei o que li — disse Freala, a voz baixa e controlada de quem recita para não entrar em pânico. — Criaturas de caverna. Lentas para caçar, porque não caçam: esperam. Petrificam a presa e depois… comem a pedra. Os tomos diziam que a pedra volta a ser carne dentro deles.
— Isso explica os pedaços faltando nas estátuas — murmurou Leof, e todo mundo decidiu, em conjunto, não olhar de novo para as estátuas.
— As lendas falam mais — Gobe se manifestou, e pela primeira vez não havia teatro nenhum na voz dele. — Meu povo chamava essas coisas de guardiões de passagem. Fraquezas? Luz forte. Relâmpagos. E dizem que a mente deles é fraca, fácil de enganar. Algum de vocês por acaso domina luz, raios ou controle mental?
Silêncio.
— Eu tenho um machado — ofereceu Conna.
— Que ricocheteia nele — completou Freala, amarga. — Relâmpago exige fundir Ar e Luz. Eu tenho Ar. Se algum deus me devolver dez anos de estudo, talvez.
— Então o plano não é matar essa coisa — concluí. — O plano é dar o fora.
— Brilhante — disse Conna. — Pela porta que explodiu ou pela parede de pedra maciça?
Foi quando a minha mente, finalmente, parou de gritar e começou a trabalhar. Eu olhei de novo para as estátuas. Não para as pessoas — para os insetos. Besouros do tamanho de cães. Centopeias maiores que a Conna. Dúzias deles, petrificados em pleno movimento.
— Pensem comigo — falei devagar. — Essa sala está selada há sabe-se lá quanto tempo. O bicho está gordo e vivo. As presas mais recentes dele são insetos gigantes. De onde vêm os insetos?
Freala arregalou os olhos.
— Eles entram por algum lugar.
— Eles entram por algum lugar — repeti. — Essa coisa não mora aqui apesar da sala ser fechada. Mora aqui porque a sala é um funil. Em algum ponto dessas paredes existe um buraco por onde o jantar entra andando. Basta achar.
No meu velho mundo, eu teria chamado isso de lógica de spawn de monstros. Ali, preferi deixar que me achassem um gênio tático.
Atravessar o criadouro de novo custou caro nos nervos, mas os insetos petrificados nos deram a trilha: estavam todos “andando” na mesma direção, vindos do mesmo canto, como uma procissão congelada. No fim dela, atrás de uma pilha de escombros e crostas minerais, estava a coisa mais bonita que eu via desde a tela de status: uma fenda escavada na rocha, lisa por dentro, larga o bastante para uma pessoa agachada. Um túnel de inseto.
— Eu poderia beijar esse buraco — declarou Gobe.
— Em fila — organizou Tricar. — Gobe primeiro, é o menor. Freala. Conna. Leof. Eu fecho. Thasjo, você é o único que pode olhar para trás. Seja nossos olhos uma última vez.
Conna afastou o último bloco de entulho da boca do túnel e o bloco, em vez de deslizar, desabou. O estrondo correu pela sala inteira como um sino de jantar.
E eu aprendi, naquele instante, que “lento para caçar” não significa “lento”.
O Basilisco dobrou a fileira de estátuas em uma arrancada que fez o chão tremer, derrubando suas próprias presas antigas como pinos de boliche. É claro que ele conhecia o buraco. Era o prato fundo dele. Ele não estava nos perseguindo — estava defendendo o restaurante.
— ENTREM! — gritou Tricar, empurrando Freala para dentro da fenda.
Não havia tempo. A matemática era simples e cruel: o túnel engolia uma pessoa por vez, e o monstro chegaria antes da terceira. Alguém precisava segurar a atenção dele. Leof já estava girando o corpo, escudo erguido, com aquela cara de ex-paladino pronto para morrer bonito.
E foi aí que eu fiz as contas da minha própria vida, o que é rápido quando se tem tão pouca.
O olhar dele não me petrifica. Eu não tenho carne para digerir. E, em algum lugar das minhas configurações, existe uma habilidade chamada Ressurreição que já funcionou uma vez. Se alguém naquela sala tinha chance de sobreviver sendo devorado, era o cara que já estava morto.
— Leof, entra no buraco — falei. — Eu pago essa conta.
— O quê?! NÃO! — Gobe travou na boca do túnel, agarrado na pedra. — Você não vai…
— Gobe. — Eu o encarei com as órbitas vazias, o que, admito, é meu recurso dramático mais eficiente. — Cuida deles. E da minha garrafa.
— EU ODEIO VOCÊ! — a voz dele rachou no meio do grito.
— Eu sei. Vai.
Corri para o lado oposto, ergui a mão e mandei uma Agulha de Água exatamente na escama lascada do pescoço — o único arranhão que aquele monstro tinha levado na vida inteira. O efeito foi imediato e pedagógico: o Basilisco esqueceu o túnel, esqueceu o grupo, e veio para cima de mim com a fúria sincera de quem foi cutucado na única ferida.
— Isso — pensei, recuando entre as estátuas. — Olha pra mim. Sou crocante e vou descer queimando.
A última coisa que vi foi o céu da boca dele.
[Dano massivo recebido.]
[Você morreu.]
O vazio, de novo. Aquele cochilo sem sonhos que não é cochilo nenhum, porque eu sentia o nada e o nada me sentia. Mas dessa vez havia algo diferente na escuridão: experiência. Eu já tinha morrido antes. Pensando bem, que frase horrível para se ter como consolo.
[Habilidade “Ressurreição Lv 1” ativada.]
Acordei no escuro absoluto, e a Visão Noturna foi ligando o cenário aos poucos, como uma lâmpada velha. Paredes úmidas, arredondadas, pulsando. Formas meio dissolvidas boiando em um líquido espesso — pedra virando carne de novo, exatamente como nos tomos da Freala. O cheiro eu não sentia, graças aos deuses e ao meu atributo Sentidos eternamente bloqueado.
Eu estava dentro do estômago do Basilisco.
Tecnicamente, era o primeiro estômago que eu tinha desde que cheguei a esse mundo. E, sendo justo, era mais espaçoso que muito apartamento de centro de cidade do meu antigo mundo.
O líquido digestivo lambia minhas tíbias sem o menor interesse. Vantagens de ser osso velho sem um grama de carne: até o suco gástrico lendário te acha sem graça. Abri a tela de status para medir o estrago — e parei na última linha.
[‘Jera - A runa de Odin’ 1/1]
Recarregada. Sem aviso, sem fanfarra. O sistema não anuncia os próprios bugs. Cem vezes mais inteligência, de novo, e era só querer.
— Ainda não — decidi, fechando a tela. Da primeira vez, a runa cobrou um olho. Quem sabe o que cobraria na terceira aplicação. E se aquele bug era a minha vida extra, eu não ia gastá-lo no susto. Carta na manga fica na manga.
Em vez disso, abri a mão dentro daquela caverna de carne e fiz a pergunta que define a minha nova existência:
— Você é resistente a fogo por fora… mas e por dentro?
— Labareda.
O jato de chamas iluminou o estômago como um amanhecer no inferno. A resposta veio em forma de convulsão: o mundo inteiro sacudiu, e eu fui chacoalhado feito dado em copo de apostador, batendo contra paredes de músculo que não tinham consideração nenhuma por ossos alheios.
[Dano recebido — PV: 19/35]
Meu PV, claro. O sistema nunca teve a cortesia de mostrar o do monstro.
Cravei as facas de osso na parede do estômago e me ancorei nelas, sustentando a Labareda contra a carne viva. O monstro se debateu, rolou, esmagou estátuas — eu ouvia o massacre abafado lá fora enquanto, por dentro, o meu contador de mana descia num ritmo quase ofensivo de tão lento.
[MP: 941/1.000]
Não sei quanto tempo durou. Sei que as convulsões foram ficando mais fracas, depois espaçadas, depois viraram tremores. E então, com um último estremecimento que pareceu um suspiro do tamanho de uma casa, tudo parou.
[Você derrotou: Basilisco]
[Você subiu de nível!]
[Você subiu de nível!]
[Você subiu de nível!]
[Você subiu de nível!]
[Você subiu de nível!]
[Nível 10 alcançado: +1 Ponto de Magia disponível.]
★★★
Nome: Thasjo Gênero: Masculino
Estado: Normal Rank: H
Tipo: Esqueleto / Morto-vivo
Classe: Mago
Nível: 10
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PV: 19/35 Força: 13
MP: 938/1.000 Agilidade: 13
Dano: 2,6 Vitalidade: 7
Defesa: 1,4 Sentidos: 1 [bloqueado]
Inteligência: 1 [x200]
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Pontos de Status: 30 Pontos de Magia: 1
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✧ Habilidades Especiais ✧
[Ressurreição Lv 1] [Visão Noturna Lv 1]
['O Conhecimento de Babel'] ['Jera - A Runa de Odin' 1/1]
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✧ Habilidades Mágicas ✧
Magias: 《Labareda》《Agulha de Água》
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Caminhos da Magia
Terra: 0/10 Luz: 0/10
Água: 1/10 Trevas: 0/10
Fogo: 1/10 Vácuo: 0/?
Ar: 0/10 Éter: 0/?
★★★
Trinta pontos para distribuir, um Ponto de Magia novo e nenhuma pressa: eu estava, afinal, dentro de um cadáver. Decidi que aquela não era a sala de troféus ideal para tomar decisões de carreira.
Sair, descobri, era o verdadeiro desafio. A Labareda tinha cozinhado a carne ao redor, mas o couro externo — o mesmo que tinha desprezado machados, flechas e magia — continuava inteiro, fechando a saída como a porta de um cofre. Cravei uma faca de osso nele. Ela lascou. Cravei a outra, com todo o peso do corpo. Ela quebrou, e eu fiquei segurando um cabo inútil dentro de um cadáver lacrado.
Foi então que me lembrei dos trinta pontos parados, esperando como mesada não gasta.
Força, decidi. Dezessete pontos, de uma vez.
[Força: 13 → 30]
A diferença foi… educativa. Agarrei as bordas queimadas da parede do ventre e rasguei o couro de dentro para fora, abrindo passagem no único lugar onde aquele cofre tinha dobradiças. Emergi da barriga do monstro como o pior nascimento da história deste ou de qualquer mundo, coberto de fluidos que, por sorte, não tenho nariz para julgar.
E então olhei para o que eu tinha matado.
Toneladas de lenda morta. Escamas que tinham rido de machados, flechas e magia. Couro que os tomos antigos comparavam ao de dragão. Tudo ali, de graça, para o único saqueador da sala.
Comecei pelo óbvio: a pele. Pelo lado de dentro ela era apenas carne, e entre a faca lascada que me restou e a Força recém-comprada, soltei das bordas queimadas um manto de couro escamado, largo e pesado. Joguei sobre os ombros e prendi com uma fivela improvisada de arame das jaulas.
Uma capa. Eu sempre quis uma capa. Mago sem capa é estagiário — e a minha, modéstia à parte, era resistente a fogo, a lâminas e a opiniões alheias.
Separei depois as placas dorsais, as escamas grossas das costas e os espinhos: material de couraça que valeria uma fortuna em qualquer forja, ou ao menos uma armadura decente para alguém com mais costelas expostas do que o recomendado. Empilhei as melhores peças junto à boca do túnel.
Por fim, voltei ao estômago — sim, voltei para dentro, e não, não quero falar sobre isso — e enchi três frascos do laboratório com o líquido digestivo. Qualquer coisa que transforma pedra de volta em carne merecia um lugar no meu inventário, nem que fosse por curiosidade científica.
E, em algum lugar daquela carcaça, estava o ingrediente da poção que tinha custado a nossa missão inteira. Drubal fugiu com um frasco. Eu estava sentado em cima do estoque.
— Gobe — chamei pelo canal do grupo. — Você não vai acreditar no que…
[Falha na conexão: membros do grupo fora de alcance.]
Ah.
Claro. A telepatia tinha um limite de distância — e, do outro lado daquele túnel, quatro pessoas e um gnomo já estavam longe demais. Fugindo, como eu tinha mandado. Acreditando que o esqueleto tinha feito sua última piada.
Ajeitei a capa nova nos ombros, peguei os espólios e me agachei na boca do túnel dos insetos.
Agora era só descobrir como dizer “oi, gente, voltei” sem causar três infartos e um desmaio de gnomo.